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dez 16, 2019
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Os libertários formaram uma aliança com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Foi um acordo com o diabo?

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Nota do tradutor: Este texto não retrata a opinião do site. Muito pelo contrário, foi traduzido à risca justamente para que possamos produzir uma resposta aos devaneios e saltos lógicos expostos.

Reformadores do mercado livre e nacionalistas autoritários lutam para reformular o Brasil.

JIM EPSTEIN | DA EMISSÃO DE JULHO DE 2019

Na manhã de 14 de março de 2016, em um pequeno escritório no Rio de Janeiro, um empresário libertário chamado Winston Ling se encontrou com Jair Bolsonaro, um congressista de direita que fazia uma campanha de longo prazo para ser presidente do Brasil. Alguns dos associados mais próximos de Ling pediram que ele não se sentasse com Bolsonaro, que era famoso por comentários públicos elogiando tortura e ditadura e denegrindo mulheres e minorias. O receio de que apenas associar-se a ele mancharia o movimento libertário do Brasil, que atraía novos seguidores a um ritmo espantoso e ganhava reconhecimento popular.

Três anos depois, Bolsonaro é presidente. Os estudiosos de Ludwig von Mises, os pensadores do mercado livre e até os anarcocapitalistas agora ocupam posições de alto nível em seu governo, onde esperam reduzir a burocracia governamental do país classificada como a pior absoluta pelo Fórum Econômico Mundial na categoria de “ônus da regulamentação governamental” – um país que vai além da regulação do número de horas que os trabalhadores passam no trabalho para microgerenciar o tamanho e a composição dos relógios usados ​​para registrar suas chegadas e partidas. “Estou perdendo todos os meus homens para o governo”, diz Hélio Beltrão, fundador e presidente do Instituto Brasileiro Mises, com um sorriso.

Mas outros libertários proeminentes estão indignados com a disposição de seus ex-companheiros de se aliarem a um político que o Intercept chamou de “a face mais extrema e repulsiva de uma tentativa de direita ressurgente, guiada por evangélicos, de arrastar o país para trás por décadas”.

Bolsonaro não é um libertário; de muitas maneiras, ele é nitidamente não libertário. Ele tem trabalhado para tornar mais fácil para a polícia matar civis com impunidade. Ele elogiou repetidamente a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. Ele declarou-se categoricamente “a favor da tortura”. E em 2002, ele disse: “Se eu ver dois homens se beijando na rua, eu vou bater neles”.

“Isso mostra que o compromisso deles com a liberdade individual não é tão forte”, diz Joel Pinheiro da Fonseca, colunista libertário da Folha de S.Paulo, o maior jornal do Brasil. Eles querem “um estilo de governo mais autoritário que possa levar a cabo suas políticas econômicas mais facilmente”.

Ling argumenta que o país não teve tempo de alimentar fantasias de um político de mercado livre de princípios verdadeiramente subindo ao poder. Em 2016, quando se encontrou com Bolsonaro, o Partido dos Trabalhadores de esquerda controlava a presidência por 13 anos. A taxa de desemprego no Brasil estava se aproximando de 12% e a economia havia contraído mais de 3% no ano anterior. “Para mim, isso era vida ou morte”, diz ele. “Eu realmente acreditava que se alguém fosse eleito presidente, o Brasil cairia”.

O início da presidência de Bolsonaro foi caótico. Os comerciantes do livre fizeram algum progresso significativo na redução da burocracia, mas também devem enfrentar poderosos interesses especiais que desejam manter o status quo. É crescente a preocupação de que sua participação no governo Bolsonaro prejudique o movimento libertário e ajude o Partido dos Trabalhadores a recuperar a credibilidade. Se Bolsonaro não conseguir liberalizar significativamente a economia, diz Pedro Ferreira, co-fundador do Movimento Brasil Livre libertário, “estaremos com muitos problemas”.

Uma aliança problemática

Jair Bolsonaro é melhor entendido como “Trump sem o sucesso nos negócios”, diz Paulo Roberto de Almeida, cientista político brasileiro, diplomata de carreira e proeminente intelectual pró-mercado. “Ele é populista, nacionalista, xenófobo e misógino”.

Ex-capitão do Exército com uma carreira militar indistinta, Bolsonaro serviu 27 anos no Congresso Nacional antes de ser eleito presidente, aprovando apenas duas leis menores durante todo o seu mandato.

Ele era mais conhecido por seus comentários públicos incendiários. Em uma entrevista de 2011, ele disse à Playboy que seria “incapaz de amar um filho homossexual”, preferindo que uma criança gay “morresse em um acidente”. Em 2016, ele disse que o “maior erro” da ditadura que costumava governar o Brasil “era torturar e não matar”. Em março, ele pediu às forças armadas do país para comemorar o 55º aniversário desse golpe.

Em seus primeiros meses no cargo, a proposta de política mais substantiva de Bolsonaro tem sido um pacote draconiano de combate ao crime que inclui um tratamento mais brando com policiais que matam em serviço.

Os tiroteios policiais foram chocantemente galopantes no país por um tempo. Em 2017, as autoridades mataram 5.144 civis, ou 14 pessoas por dia. Em março de 2018, dois ex-policiais do Rio de Janeiro foram presos sob a acusação de assassinar Marielle Franco, uma membro do conselho da cidade abertamente gay, atirando na cabeça dela com uma metralhadora. Segundo a Human Rights Watch, execuções extrajudiciais por policiais são comuns. Em 2003, Bolsonaro disse que “enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, esses esquadrões da morte, na minha opinião, serão muito bem-vindos”.

No entanto, Bolsonaro também tem uma estranha capacidade de se conectar com os eleitores, o que chamou a atenção de Winston Ling. “Toda vez que ele chegava a uma cidade, havia um grande número de pessoas no aeroporto”, lembra o empresário.

Ling, 63 anos, é uma figura fundadora do movimento libertário brasileiro – ou movimento liberal, já que a palavra portuguesa liberal manteve seu significado clássico – que ajudou a estabelecer dois think tanks importantes nos anos 80. Ele e seus irmãos são co-proprietários de algumas empresas iniciadas por seu pai imigrante chinês, que fez uma fortuna nas indústrias de soja e petroquímica.

Em sua reunião inicial em 2016, Ling deu a Bolsonaro um tutorial de meia hora sobre a escola austríaca de economia de livre mercado e o deixou com dois livros, A lei de Frédéric Bastiat e Política econômica de Mises: pensamentos para hoje e amanhã. (Ele escolheu os dois, lembra, porque são “magros e fáceis de ler” – e “os políticos não lêem”.) Ele também se ofereceu para ajudar Bolsonaro a montar um “conselho” de economistas de mercado livre para participar de sua campanha. .

Bolsonaro aceitou a oferta, então Ling voou para casa em Xangai e começou a trabalhar com seu Rolodex. “Ninguém queria conhecê-lo”, lembra Ling, por causa da reputação de Bolsonaro como firebrand populista e homofóbico. Então Ling entrou em contato com Paulo Guedes, que ficou “imediatamente muito entusiasmado”.

Um economista respeitado que obteve um Ph.D. Em 1978, pela Universidade de Chicago, Guedes passou a maior parte de sua carreira em finanças. Em 13 de novembro de 2017, ele e Bolsonaro tiveram uma reunião de cinco horas em um hotel Sheraton no Rio. Guedes estabeleceu as regras básicas: ele consideraria trabalhar com Bolsonaro apenas se recebesse “carta branca” sobre assuntos econômicos. Depois de conquistar a presidência em outubro de 2018, Bolsonaro fez de Guedes o “super ministro”, encarregando-o de um novo Ministério da Economia que consolidou os departamentos de finanças, planejamento, indústria e comércio do governo. Guedes então nomeou um grupo de jovens libertários para cargos de alto nível dentro do novo departamento.

A breve experiência de Guedes na política, 30 anos atrás, pode tê-lo desencorajado de trabalhar com candidatos mais afins, mas com poucas chances de sucesso eleitoral. Em 1989, ele ajudou a criar a plataforma econômica de Guilherme Afif Domingos, que concorreu à presidência com o ingresso no Partido Liberal. Eles propõem uma proposta de que o Brasil privatize todas as empresas estatais e, em seguida, use a receita para acabar com a dívida federal. Domingos ficou em sexto. “E assim o Brasil se tornou um paraíso para quem busca aluguel e um inferno para empreendedores”, disse Guedes à revista Piauí.

A abertura de Guedes para trabalhar com Bolsonaro também pode derivar em parte dos esforços dos “meninos de Chicago”, um grupo de economistas de livre mercado (treinados na alma mater de Guedes) que ajudaram a guiar a economia do Chile sob o ditador Augusto Pinochet a partir de 1970s. Guedes não teve nenhum envolvimento direto com essa coorte, mas ele teve um emprego de professor na Universidade do Chile no início dos anos 80 e demonstrou admiração por seu impacto econômico. Graças aos garotos de Chicago, Pinochet eliminou o controle de preços, reduziu a burocracia, vendeu empresas estatais, facilitou as regras de licenciamento ocupacional e lançou um sistema de previdência privada.

A agenda dos garotos de Chicago foi frustrada em 1982, quando uma taxa de câmbio fixa imprudente produziu uma crise econômica, mas, a longo prazo, suas reformas funcionaram como pretendido. Após a restauração de um governo democrático em 1989, os chilenos votaram a favor de continuar seu programa de liberalismo de mercado. Três décadas de crescimento espetacular se seguiram. De 1987 a 2017, o produto interno bruto (PIB) do Chile cresceu nove vezes e sua taxa de pobreza caiu de 11,7% para 0,7%.

É claro que Pinochet também derrubou um presidente democraticamente eleito, censurou a imprensa, matou cerca de 3.200 cidadãos e torturou muitos outros. Ele estava disposto a apoiar muitas das idéias dos reformadores sobre liberdade econômica, mas violou outras liberdades de maneira repugnante.

Os defensores de Guedes argumentam que há uma diferença fundamental entre seu trabalho com Bolsonaro e a aliança moralmente dúbia atingida pelos garotos de Chicago. Bolsonaro está “trabalhando dentro das instituições democráticas do Brasil”, diz Diogo Costa, cientista político com uma posição de alto nível no Ministério da Economia que trabalhou no libertário Cato Institute e na Atlas Economic Research Foundation. “Não acho que [Guedes] concordaria em assinar um projeto que violou princípios mais fundamentais”.

Alguns temem, por outro lado, que Bolsonaro corroa gradualmente essas instituições democráticas. Seu governo “está envolvido em uma guerra constante contra todas as instituições que poderiam servir de oposição ao seu poder”, diz Fonseca, colunista libertário da Folha de S.Paulo.

Pedro Menezes, um libertário de 25 anos que escreve para Gazeta do Povo e InfoMoney, comparou Bolsonaro a Hugo Chávez, o falecido líder socialista da Venezuela, que desmantelou as restrições institucionais ao seu poder depois de ser eleito. Menezes está particularmente preocupado com a sugestão de Bolsonaro de que ele consideraria fazer as malas na suprema corte e diminuir sua idade de aposentadoria obrigatória, permitindo-lhe nomear mais juízes.

Menezes decidiu se distanciar do movimento libertário de seu país depois de participar de um evento de 22 de outubro de 2016 em São Paulo, organizado pelo Instituto de Treinamento de Liderança do mercado livre. Bolsonaro, um candidato de longa data, foi convidado no palco para participar de um diálogo com um grupo de libertários de destaque. Um grande contingente de seus apoiadores apareceu, provocando a platéia com gritos de “Ustra! Ustra! Ustra!” – uma referência ao notório Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do exército que havia prendido e torturado dissidentes durante o regime militar.

Bolsonaro fez comentários ultrajantes durante o evento, de acordo com Menezes, mas seus co-painelistas o trataram de maneira respeitosa. “Fiquei tão chateado que saí no meio”, diz ele. “Foi esse momento de transformação para mim.”

Outros grupos de tendência libertária mantiveram distância do novo presidente do Brasil. O Partido Novo, partido político fundado em 2011, apoiou o candidato mais ortodoxo libertário João Amoêdo nas eleições de 2018. E o jovem movimento político Livres, que costumava fazer parte do Partido Social Liberal (PSL), interrompeu em janeiro de 2018, quando Bolsonaro assumiu o grupo maior.

Em um ensaio explicando seu voto para se separar do PSL, o cientista político Costa escreveu que “quando o populismo entra pela janela, a liberdade sai pela porta”. Mas depois que Bolsonaro venceu a eleição e Costa recebeu sua posição no Ministério da Economia, ele assumiu. “Se eu tivesse que trabalhar [diretamente] com pessoas que não compartilhavam da minha visão e valores e estivesse comprometido com uma agenda diferente”, diz ele, “eu não teria” aceitado.

A organização libertária mais influente do Brasil é o Movimento Brasil Livre, que ajudou a organizar protestos de rua em 2015 pedindo o impeachment da presidente do Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff. (Ela foi afastada do cargo em 31 de agosto de 2016.) O grupo inicialmente resistiu a apoiar Bolsonaro nas eleições de 2018 e tentou “formar pessoas mais razoáveis”, diz Ferreira, co-fundador da organização. Mas os brasileiros “queriam a opção mais extrema”. Depois de debater a questão internamente, o grupo se aliou a Bolsonaro no final de sua campanha.

Era uma situação “terrível”, argumenta Ferreira, porque se Bolsonaro tivesse perdido, o Partido dos Trabalhadores teria recuperado a presidência. E assim o grupo lançou o que chamou de “Jornada Patriótica”, enviando seu principal representante para a região nordeste do Brasil para convencer os eleitores de que as políticas do Partido dos Trabalhadores prejudicariam seu modo de vida.

O porta-voz carismático do movimento, Kim Kataguiri, 23 anos, foi eleito para o Congresso em 2018, tornando-se o segundo brasileiro mais jovem atualmente servindo. Uma de suas primeiras ações foi organizar um “comitê de mercado livre” com 48 membros para apoiar a agenda de Guedes. Mas agora que Bolsonaro está no cargo, Kataguiri e seu grupo começaram a criticar o presidente quando ele viola seus princípios. Em abril, depois que Bolsonaro ameaçou cancelar um aumento planejado no preço do gás para apaziguar o sindicato dos caminhoneiros, o co-fundador do Movimento Brasil Livre Renan Santos o comparou ao ex-presidente de esquerda Dilma Rousseff e o chamou de “puta do caminhoneiro” no Twitter.

Nacionalismo paranóico

O círculo interno de Bolsonaro abraçou o único aspecto do libertarianismo que se sobrepõe ao seu próprio ethos: oposição ao socialismo. Mas a crítica está articulada na linguagem de um nacionalismo paranóico de direita. Em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, se reuniu com o ex-assessor de Donald Trump Steve Bannon na cidade de Nova York, anunciando no Twitter que eles estavam unindo forças para lutar “contra o marxismo cultural”. Após a eleição do pai, Eduardo tornou-se o representante sul-americano do “The Movement” de Bannon, um projeto para promover o populismo e uma agenda nacionalista. “O maior filósofo brasileiro vivo”, de acordo com Eduardo, é Olavo de Carvalho, um septuagenário que fuma cachimbo que dá palestras no YouTube sobre os supostos perigos do globalismo, feminismo e islã e que certa vez alegou que a Pepsi é adocicada com as células da fetos abortados.

Carvalho, que vive na Virgínia, participou de um jantar na casa de Bannon, em Washington, DC, em janeiro. Seu anfitrião expressou preocupação de que “a face de Chicago” – significando Guedes – pudesse atrapalhar a agenda nacionalista no Brasil. Carvalho negou que isso acontecesse. Quando Bolsonaro fez uma viagem a Washington, DC, em março para se encontrar com Trump, ele participou de um jantar na embaixada do Brasil e estava sentado entre Bannon e Carvalho.

O ministro de Relações Exteriores de Bolsonaro (posição comparável à do secretário de Estado americano) é Ernesto Araújo, discípulo de Carvalho que acredita que o atual governo reverterá a corrupção espiritual causada por “uma agenda de esquerda” que inclui “ideologia de gênero” e “a tomada da Igreja Católica pela ideologia marxista (com a consequente promoção do controle de natalidade) “. O primeiro ministro da Educação de Bolsonaro foi uma recomendação de Carvalho, Ricardo Vélez Rodríguez, que propôs uma reescrita orwelliana de livros escolares, exigindo que eles se referissem à ditadura militar brasileira como um “regime de força democrático”. Após três meses desastrosos, Bolsonaro o substituiu por outra recomendação de Carvalho, o teórico da conspiração Abraham Weintraub, que sugeriu que a introdução do crack no Brasil era uma trama de esquerda.

Mas a maior ameaça à agenda de livre mercado de Paulo Guedes, segundo o cientista político Almeida, pode não ser Carvalho, Araújo ou Bannon. São os “industriais de São Paulo” e os “agricultores do Mato Grosso” – capitalistas amigáveis ​​com interesse econômico em protecionismo e regulamentação, que exercerão influência no Congresso para resistir a suas políticas. “Não sei por quanto tempo Paulo Guedes [tolerará] as derrotas que sofrerá neste governo”, diz Almeida.

Começando pequeno

Bolsonaro já está demonstrando uma relutância em arriscar capital político em reformas significativas que prejudicam interesses arraigados. Mas há motivos para otimismo de que os novos radicais em Brasília (capital do país) possam reduzir a burocracia de maneira significativa. Em abril, o presidente assinou uma lei abrangente para reduzir o ônus regulatório para as empresas. Ela isenta as empresas envolvidas em atividades de “baixo risco” dos requisitos de licenciamento, exige que o governo estabeleça prazos para responder às solicitações de permissão e afrouxa as regras em torno das ofertas públicas iniciais, entre outras coisas. Como decreto provisório, entrou em vigor imediatamente, mas será invalidado se o Congresso não o confirmar dentro de 120 dias.

Muitas das iniciativas do Ministério da Economia não requerem aprovação do Congresso. Por exemplo: o advogado André Ramos, um anarcocapitalista auto-descrito que agora dirige o Departamento de Registro e Integração de Empresas, ajudou a elaborar uma proposta para facilitar o registro de uma empresa no Brasil, simplificando ainda mais um processo que já havia sido aprimorado dramaticamente. por uma iniciativa do governo digital anterior a Bolsonaro. Em 2018, segundo o Banco Mundial, demorou em média 20,5 dias para iniciar um novo negócio no país – muito abaixo dos 82,5 dias do ano anterior. Mas há uma longa distância a percorrer: no Chile, são necessários apenas seis dias.

Em discurso este ano no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Bolsonaro estabeleceu a meta de levar o Brasil ao top 50 do Índice de Facilidade para Fazer Negócios do Banco Mundial nos próximos quatro anos. (Seu ranking atual é de 109 em 190.) O cumprimento desse mandato cabe principalmente a Paulo Uebel, o “secretário especial de desburocratização, gestão e governo digital”, de 40 anos do Ministério da Economia, que supervisiona uma equipe de 1.200 funcionários.

Uebel, que ocupou cargos de liderança em vários think tanks libertários, diz que seu objetivo é “simplificar a vida dos brasileiros” e fazer com que o governo pare de “microgerenciar a vida do empreendedor”. Ele está começando com as pequenas coisas. Se os reformadores enfrentarem interesses poderosos poderosos imediatamente, diz Uebel, “provavelmente perderemos”.

Kataguiri, agora no Congresso, concorda. “Poderemos aprovar algumas reformas, mas esses grupos são muito poderosos”, diz ele. Ele espera sucessos “pequenos e médios”, mas nada da magnitude que “nós liberais [clássicos] gostaríamos”.

Como exemplo do tipo de mudanças que sua equipe está iniciando, Uebel diz que deseja eliminar as regras que regem o tamanho e a funcionalidade dos relógios que os empregadores do setor privado devem usar para rastrear as horas dos trabalhadores. “Apenas duas ou três empresas no Brasil fornecem esse tipo de relógio”, diz Uebel, e elas não têm influência política. Reformas mais significativas, como a eliminação de controles sobre o horário dos trabalhadores – ou seja, as restrições que exigem um relógio de ponto – exigiriam uma emenda constitucional que dificilmente passará no momento.

Uebel também planeja revisar “mais de mil” procedimentos federais que atualmente exigem reuniões presenciais com burocratas do governo, permitindo que os brasileiros cuidem de mais coisas online.

Então, o que acontece com os milhares de funcionários federais que seriam substituídos por sites se Uebel conseguisse o que queria? Eles permanecerão na folha de pagamento, porque a autoridade para cortar funcionários supérfluos exigiria mudanças na constituição. Ainda assim, Uebel diz que pode diminuir o número de atritos.

Teoricamente, a constituição dá ao governo autoridade para demitir trabalhadores federais por mau desempenho, mas o Congresso deve primeiro estabelecer uma estrutura legal para fazê-lo. O Ministério da Economia estará trabalhando com os parlamentares para elaborar um projeto de lei, segundo Wagner Lenhart, advogado – e co-autor de um livro sobre Mises – que agora é o “secretário de gestão de pessoas”. Mas uma legislação desse tipo certamente enfrentará uma enorme oposição dos sindicatos. Lenhart e Costa, que agora dirigem a Escola Federal de Administração Pública do Brasil, também farão esforços para substituir a promoção automática de funcionários do governo por um sistema baseado no mérito.

Qual o proximo?

Durante a campanha, Bolsonaro se debruçou sobre Guedes na maioria das questões relacionadas à política econômica. “Na verdade, não sei nada sobre economia”, confessou o presidente a um repórter. “Essa é a diferença entre [Bolsonaro] e Trump”, diz Ling. “O cara que pensa que sabe tudo nunca será um libertário.”

Mas alguns meses após sua presidência, Bolsonaro já está substituindo Guedes por conveniência política. As tarifas no Brasil são em média 8,6%, ou 17 vezes a taxa chilena; na pesquisa Doing Business de 2019 do Banco Mundial, o Brasil classificou 106 de 190 no comércio internacional. O presidente do Brasil tem autoridade para cortar tarifas sem a aprovação do congresso e, em fevereiro, seu governo anunciou um acordo com o México que liberalizava o comércio de automóveis comerciais leves. Mas Bolsonaro também elevou as tarifas do leite em pó, anunciando no Twitter que “todo mundo ganhou, em particular, os consumidores do Brasil”.

Antes mesmo de ser eleito, Bolsonaro estava citando a necessidade de “comércio responsável” e simpatizando com as “dificuldades” que as empresas brasileiras enfrentam. Grandes reduções tarifárias parecem improváveis.

A primeira grande prioridade de Guedes é reestruturar o sistema de pensões fiscalmente insolvente do Brasil, que, devido ao envelhecimento da população, deve consumir impressionantes 26% do PIB até 2050. A Standard & Poor’s rebaixou o rating de crédito do Brasil no ano passado com base em sua falha em aprovar reforma previdenciária: o sistema permite que os beneficiários se aposentem com idade média de 58 anos e favorece os mais abastados. Os 40% inferiores da população recebem apenas 18% dos benefícios pagos.

Guedes e Kataguiri estão pressionando por um sistema unificado semelhante ao sistema previsional do Chile, que substituiria o atual esquema intergeracional de Ponzi por um acordo no qual os trabalhadores contribuem para contas de poupança privadas. O governo ainda forneceria um benefício de base para aqueles que são pobres demais para contribuir, e os beneficiários atuais seriam transferidos para o antigo sistema.

Mas isso vai passar? As negociações em andamento no Congresso foram caóticas e, em abril, Kataguiri estava perdendo a fé. “Minha perspectiva para o futuro”, disse ele ao The New York Times, é que “não aprovaremos a reforma previdenciária, entraremos em recessão e o governo ficará com hemorragia”.

A perspectiva de azar de Kataguiri reflete a mudança da posição do Movimento Brasil Livre em relação a Bolsonaro. Ferreira, co-fundador do grupo, reflete sobre os tempos mais simples em que o Partido dos Trabalhadores estava no poder e o grupo podia ser puramente de oposição, explicando aos seus seguidores que “as idéias de esquerda eram responsáveis ​​pela crise [econômica]”. Agora que o grupo está publicamente associado ao presidente, será uma crise de relações públicas para libertários se suas políticas falharem. “A ala esquerda vai voltar para nós”, diz Ferreira. Eles poderiam responder apontando que Bolsonaro não é realmente representativo de seus pontos de vista “, mas isso é realmente difícil de convencer”.

Se Guedes for bem-sucedido de maneira mais ampla, poderá trazer reduções na pobreza e um forte crescimento geral análogo ao que os garotos de Chicago projetaram no Chile. Mas isso terá um custo. A aliança que começou há três anos por iniciativa de Winston Ling, desesperada para salvar o Brasil de sua pior crise econômica da história moderna, foi fundamental para eleger um presidente populista que está causando danos significativos às liberdades civis. O Brasil precisa de liberdade econômica, mas também de direitos humanos.

 

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