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J. R. R. Tolkien sobre o anarquismo

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John Ronald Reuel Tolkien, ou simplesmente J. R. R. Tolkien, é o maior autor de literatura fantástica de todos os tempos e conhecido pela sua incrível capacidade de criar línguas, ilustrar mapas e criar uma mitologia toda onde acontece a história de obras como O Senhor dos Anéis, O Hobbit e O Silmarillion.

[De The Letters of J. R. R. Tolkien; Carta 52. Tradução de Gabriel Oliva Brum.]

[No verão de 1943, Christopher, então com dezoito anos, foi convocado pela Força Aérea. Quando esta carta foi escrita, ele estava em um campo de treinamento em Manchester.]

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Minhas opiniões políticas tendem cada vez mais para a anarquia (filosoficamente compreendida como significando a abolição do controle, não homens barbados com bombas) — ou para a monarquia “inconstitucional”. Eu prenderia qualquer um que use a palavra estado (em qualquer outro sentido que não o do reino inanimado da Inglaterra e seus habitantes, uma coisa que não tem poder, direitos nem uma mente); e, após uma chance de não, executaria todos se permanecessem obstinados! Seria muito melhor se pudéssemos voltar aos nomes pessoais. Governo é um substantivo abstrato que significa a arte e o processo de governar, e deveria ser uma ofensa escrevê-lo com um G maiúsculo ou usá-lo para se referir a pessoas. Se as pessoas estivessem acostumadas a se referirem ao “conselho do Rei George, Winston e sua turma”, isso ajudaria a desanuviar certas concepções e a reduzir a assustadora vitória esmagadora da Elescracia. Em todo caso, o estudo apropriado do Homem é tudo, menos o Homem; e o trabalho mais impróprio a qualquer homem, mesmo os santos (os quais, de qualquer maneira, ao menos relutavam em realizá-lo), é mandar em outros homens. Nem mesmo um homem em um milhão é adequado para tal, e menos ainda aqueles que buscam a oportunidade. E pelo menos isso é feito apenas a um pequeno grupo de homens que sabem quem é seu mestre. Os medievais estavam certíssimos ao considerar nolo efiscopari [1] como a melhor razão que um homem poderia dar aos outros para que dele fizessem um bispo. Dê-me um rei cujo principal interesse na vida seja selos, estradas de ferro ou corridas de cavalos; e que possui o poder de mandar embora seu vizir (ou seja lá do que for que você queira chamá-lo) se não gostar do corte de suas calças. E assim por diante, o tempo todo. Mas, é claro, o ponto fraco de tudo isso — afinal de contas, apenas o ponto fraco de todas as coisas naturais boas em um mundo mau, corrupto e não-natural — é que só tem como funcionar e tem funcionado quando o mundo inteiro está bagunçado da mesma boa, velha e ineficiente maneira humana. Os briguentos e vaidosos gregos conseguiram derrotar Xerxes; mas os abomináveis químicos e engenheiros colocaram um poder tal nas mãos de Xerxes e em todas as colônias de formigas que as pessoas decentes parecem não ter qualquer chance. Estamos todos tentando fazer uso do toque alexandrino — e que, como a história ensina, orientalizou Alexandre e todos os seus generais. O pobre tolo imaginava-se (ou gostava que as pessoas imaginassem-no) como o filho de Dionísio, e ele morreu por causa da bebida.

A Grécia que valia a pena salvar da Pérsia pereceu, de qualquer forma, e tornou-se um tipo de Hellas-Vichy, ou Hellas-Lutadora (que não lutou), falando sobre honra e cultura helênicas e prosperando com a venda dos equivalentes mais antigos dos cartões postais obscenos. Mas o horror particular do mundo atual é que toda a maldita coisa está num mesmo saco. Não há para onde fugir. Até mesmo os infelizes pequenos samoiedas, desconfio, têm comida enlatada e um auto-falante na aldeia contando histórias de ninar de Stalin sobre a democracia e sobre os malvados fascistas que comem bebês e roubam cães de trenós. Há apenas um único ponto brilhante, e esse é o crescente hábito de homens descontentes de dinamitar fábricas e estações de energia; espero que isso, agora encorajado como “patriotismo”, possa permanecer um hábito! Mas isso não causará bem algum se não for universal.

Bem, até logo e tudo o mais para você, filho querido. Nascemos em uma era sombria fora do tempo devido (para nós). Porém, há este consolo: de outro modo não saberíamos, ou muito amaríamos, o que amamos. Imagino que o peixe fora d’água é o único peixe a ter uma noção da água. Também temos ainda pequenas palavras para usar. “Eu não me curvo à Coroa de Ferro, nem meu cetrozinho dourado enterro”. [2] Enfrente os orcs, com palavras aladas, hildenáeddran (víboras-de-guerra), dardos mordentes — mas tenha certeza do alvo antes de atirar.

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[1] Do Latim: “Não quero me tornar um bispo”.

[2] Dois versos do poema não publicado de Tolkien “Mythopeia”, escrito para C. S. Lewis.

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