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Fedcoin: Os EUA vão emitir uma moeda eletrônica que você vai usar

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O Sistema da Reserva Federal (FED – Banco Central americano) não só emitirá sua própria criptomoeda, como também se certificarão de que os americanos a usem. Essa é a previsão do guru monetário Doug Casey, que tem um recorde misterioso de acertar em suas tendências econômicas e políticas. Seu último livro, “Surviving Fedcoin: How to Protect Yourself (and Profit) from America’s Coming Currency Change[1]” (em tradução livre: Sobrevivendo ao Fedcoin: Como se proteger – e lucrar – com a esperada mudança monetária na América), é uma aposta pública de que o governo dos EUA vai emitir seu próprio ‘bitcoin’, o que Casey considera ser essa a “última carta na manga monetária do governo americano”.

Como vai ser a dinâmica do jogo? Ele especula:[2]

Para começar, eu suspeito que será uma moeda paralela, talvez utilizável somente dentro do próprio EUA, o que – na realidade – seria uma forma de controle sob câmbio estrangeiro ainda mais efetiva que a incapacidade que os americanos têm em abrir contas em bancos estrangeiros e em corretagem atualmente (devido ao controle monetário da FATCA[3])… Eu acho que é quase certo que eles vão fazer algo assim e em breve”.[4]


A
Fedcoin

A Fedcoin se remete à criptomoeda ou ao protocolo estabelecido por um banco central. Os bancos nacionais podem forjar seus próprios ‘bitcoins’ com relativa facilidade e os consultores de bitcoin têm esquematizado vários cenários sobre como isso aconteceria.

Em “Some Thoughts on Fedcoin – a FED backed cryptocurrency” (em tradução livre: Alguns pensamentos sobre o Fedcoin: uma criptomoeda respaldada pelo FED)[5], Albert Szmigielski sugere que “O FED deve minerar todo o dinheiro que querem emitir em uma blockchain… Uma mineração acontece onde toda (ou parte da) criptomoeda é emitida no primeiro bloco, o bloco de gênese, e então o FED só trocaria um Fedcoin por cada dólar”.

No artigo  intitulado “Fedcoin”[6] , J.P. Koning especula que “o FED criaria uma nova blockchain chamada Fedcoin ou poderia criar um ledger (carteira de criptomoedas) ao estilo Ripple (criptomoeda e também rede projetada para permitir a transferência transparente de qualquer forma de moeda, sejam dólares, euros, libras, ienes ou bitcoins), com o mesmo nome. Não importa o que seria, haveria uma diferença importante entre o Fedcoin e os ledgers criptográficos mais tradicionais: Um usuário – o FED – obteria uma autoridade especial para criar e destruir a entrada de registros… O FED forneceria a convertibilidade física bidirecional de ambos os seus estilos de passivos – o papel-moeda e suas reservas eletrônicas e a Fedcoin – a uma taxa de um para um.

Koning se baseia no trabalho do matemático e economista Sina Motamedi para “uma explicação mais técnica sobre como isso poderia funcionar no caso de um ledger ao estilo Blockchain”, Motamedi aconselha[7]:

“A maneira mais simples de um banco central criar a sua própria criptomoeda é fazendo um fork no protocolo do Bitcoin para um novo protocolo que é inalterável em todos os sentidos, exceto que no futuro o banco central iria definir e ajustar a seu critério exclusivo, a remuneração da mineração de um bloco. Como no caso do papel-moeda, a criptomoeda do banco central seria tanto descentralizada (na transação) como centralizada (na oferta).”

As discussões estão sendo encorajadas pela atenção que os governos estão direcionando em torno da Fedcoin. Quando o banco da Inglaterra publicou um documento[8]em Fevereiro de 2015 que abordava o assunto, a empresa de processamento de Bitcoin Payment21 não estava sozinha ao questionar “Banco da Inglaterra: Porque os bancos centrais poderiam emitir moedas digitais?”[9].

Na América, um cenário similar ocorreu: em Junho de 2016, os banqueiros de bancos centrais de 90 e poucos países se encontraram a portas fechadas[10] em Washington D.C. e participaram de conferências com especialistas em Bitcoin. A presidente do FED – Janet Yellew – abriu a conferência que incluía o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Grupo Banco Mundial e o Banco de Compensações Internacionais (BIS).

A adoção da Blockchain[11] como um protocolo para facilitar as transferências bancárias foi o foco, mas a emissão de uma moeda digital ‘oficial’ foi ativamente explorada. Adam Ludwin, o CEO da empresa da Chain, apresentou um discurso denominado “Por que os Bancos Centrais vão emitir moedas digitais”[12]. Ludwin incitou os participantes governamentais a usar a troca revolucionária para criar novos ativos para si mesmos:

A forma de dinheiro só mudou algumas vezes na nossa história, de metal precioso à moeda representativa e destas ao nosso sistema atual de sistemas eletrônicos baseados em ledger. A Bitcoin e a Blockchain representam a transição para um novo meio. Essa transição é comumente referida como a distribuição da tecnologia do ledger, mas eu acho mais prestativo olhar às moedas representativas no passado, como as notas bancárias, para apreciar o que esse novo meio permite: um instrumento de representação digital.”

Um argumento-chave para a Fedcoin é a necessidade notória de se estabilizar uma criptomoeda vinculando-a ao dinheiro tradicionalmente emitido. A fixação não seria necessariamente voluntária. Motamedi explica, “assim como aconteceu com as moedas de papel, os bancos centrais acabarão por criar seus próprios protocolos de criptografia e proibir o uso de outros. Para simplificar, vamos chamar o protocolo de criptomoeda do Banco Central de BitDollar. Obviamente esses BitDollars seriam sempre resgatáveis em dólares normais pelo Banco Central, pelo menos a princípio.”

Koning é mais contundente: “Agora é a hora dos rebeldes criarem uma versão Bitcoin de preço estável, antes que o Darth Vader o faça. Caso contrário, eles poderão, algum dia, se ver fechando as startups de bitcoins para redigir o código para o Império.”


O porque disso de acordo com Casey

Doug Casey aborda o sistema de bancos centrais americanos, mas as circunstâncias que favorecem a Fedcoin dos EUA são espelhadas por todo o mundo ocidental. Ele não acredita na teoria da estabilidade, o governo americano está falido, com passivos excedendo muito os ativos. Casey explica:

A Previdência Social está em falência… 47% das pessoas nesse país são beneficiários líquidos do dinheiro do governo… Oficialmente, um terço de todos os ativos do governo dos EUA são empréstimos estudantis, fato pouco conhecido, cerca de um trilhão de dólares deles.”

O dólar é parcialmente estabilizado por ser “o dinheiro do mundo”, mas seu status privilegiado está sendo abalado por nações como China e Rússia, que buscam agressivamente meios alternativos[13] para o comércio global. Casey acredita que os controles monetários do passado – a flexibilização quantitativa e taxas de juros próximas ou abaixo de zero – não podem sustentar um dólar falido com relevância global decrescente. Os métodos de ontem estão “chegando ao fim… O que eles – os federais – podem fazer?”

O que os bancos centrais podem fazer é criptomoeda: a Fedcoin é o que está vindo de início. E, de acordo com Casey, o benefício primário ao governo seria a centralização da oferta e demanda (ou transações) transparentes, o que poderia centralizar o controle da economia em uma extensão sem precedentes.

Por que as pessoas usariam a criptografia? A Fedcoin quase que certamente surgirá como uma moeda paralela que seria adotada devido às exigências governamentais de seu uso no pagamento de impostos ou no acesso a direitos como a Previdência Social. Cada vez mais, no entanto, a Fedcoin se tornaria uma ferramenta que nos empurraria à uma sociedade sem dinheiro físico, porque o dinheiro físico fornece uma privacidade que impede o controle do governo.

Casey observa que os bancos centrais…

gostam de culpar muitos dos problemas na falta de transparência, mas com a tecnologia da blockchain e a Fedcoin, eles conseguem ver tudo, em todos os lugares. Então, é a completa transparência. Sem dinheiro físico, você não tem privacidade. Se você tem que colocar tudo através de um sistema bancário, o governo sabe exatamente o que você está comprando, o que está vendendo, o quanto você está ganhando. Eles estarão em controle completo, capaz de tirar o que eles quiserem – incluindo sua conta inteira se você se tornar indesejável politicamente.”

A Fedcoin dará ao governo a habilidade divina de rastrear a riqueza e a justificativa será prevenir atividades “criminosas” como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Contra-argumentos podem ser facilmente levantados, como, por exemplo, que a maioria das atividades do mercado negro ou cinza são pacíficas e não propriamente criminosas. Mas Casey se concentra no dano infligido à prosperidade e à liberdade das pessoas comuns:

“As pessoas que estão negociando na chamada economia subterrânea estão realmente fornecendo bens e serviços úteis. Se o governo extrair seus 30 ou 40% em impostos, que serão capazes de fazer agora com a Fedcoin, isso vai prejudicar a economia, não ajudar. Ajudará o governo dos EUA, mas isso é diferente da economia dos Estados Unidos.”

O governo ficaria mais rico e também se tornaria uma engenharia de controle social mais poderosa. Em termos de privacidade, a Fedcoin poderia se tornar o anti-dinheiro: “Se eu tenho na minha carteira U$100 em nota ou um monte de moedas de 10 e 20 centavos, posso gastá-los naquilo que quiser e com quem eu quiser e ninguém saberia. Com a blockchain do governo… os bancos centrais sabem exatamente quem está ganhando o dinheiro e em que ele está sendo gasto. Ele consegue ser programado – talvez por meio de um mecanismo similar a contratos inteligentes – que determinadas transações não possam acontecer… E, então, você estará bem bloqueado”, explica Casey.

Pessoas gordas poderiam ser impedidas de comprar açúcar, os donos de armas poderiam ser privados de munições, os adolescentes poderiam ser proibidos de comprar cerveja, cigarros ou jogos de videogames. As possibilidades parecem quase infinitas. Ao fazê-lo, a Fedcoin estaria meramente estendendo as políticas existentes nos programas de selos de consumos que proíbem gastar em álcool, cassinos ou clubes de striptease. A eficiência seria muito maior, porém, a diferença em grau seria única. O governo poderia “proibir qualquer coisa sem sequer fazer uma lei… Se o seu smartphone ou chip Fedcoin não está programado para deixá-lo comprar isso, como você vai consegui-lo?” Itens politicamente controversos como um registro de armas poderiam se tornar irrelevantes.

Entretanto, uma das previsões distópicas de Casey parece duvidosa para mim: É a ideia de que muitos ou a maioria dos americanos aceitaria ser “chipado” fisicamente. Mas, então, talvez eu simplesmente tenha mais confiança no cidadão comum quando se trata de reconhecer seu próprio interesse.


A sombra da soluçã
o?

Casey compara a potencial revolução da moeda à Revolução Industrial. O desenvolvimento de tecnologia naquela época deu liberdade sem precedentes e literalmente “vida” ao homem comum; a vida útil humana e a população aumentaram drasticamente.

A Bitcoin e a blockchain são igualmente libertadores ao indivíduo, mas tecnologias revolucionárias também desafiam o status quo e, então, o poder arraigado se esforça para redirecionar o uso delas.

Se os governos terão sucesso, ainda não está claro. Eles podem ficar frustrados por sua própria incompetência ou pela intrínseca descentralização das criptomoedas. Está claro, todavia, que os governos farão a investida e quando eles a fizerem, a melhor resposta é uma tecnologia melhor que avance rapidamente e deixe esses, que querem nos domesticar, tossindo na poeira.

Aqueles que estão na vanguarda da tecnologia são os guerreiros da liberdade do agora.

Artigo original aqui.


Tradução: 
Larissa Guimarães
Revisão: Daniel Chaves Claudino

Notas:

[1] Adquira o livro de Doug Casey a este respeito: “Surviving Fedcoin: How to Protect Yourself (and Profit) from America’s Coming Currency Change” (em tradução livre: Sobrevivendo ao Fedcoin: Como se proteger – e lucrar – com a esperada mudança monetária na América) Link: https://www.caseyresearch.com/order/plan/16229201,16229202

[2] Confira este trecho em: Project Fedcoin (em tradução livre: Projeto Fedcoin). Link: https://www.caseyresearch.com/cm/project-fedcoin

[3] Sobre o FATCA, confira o artigo de Wendy McElroy publicado em 19 de dezembro de 2016: IRS Attack Dog Will Target US Bitcoiners and Soon… (Em tradução livre: O cão de ataque do IRS alvejará Bitcoiners americanos e é logo…). Link: https://news.bitcoin.com/irs-attack-dog-target-us-bitcoiners/

[4] Leia também: China to Play a ‘Leading Role’ in Bitcoin’s Future (em tradução livre: China vai desempenhar um “papel principal” no futuro da Bitcoin). Link: https://news.bitcoin.com/china-leading-role-bitcoins-future/

[5] Confira o artigo de Albert Szmigielski: Some Thoughts on Fedcoin – a Fed backed cryptocurrency” de 9 de março de 2015, (em tradução livre: Alguns pensamentos sobre o Fedcoin: uma criptomoeda respaldada pelo FED). Link: http://blog.cryptoiq.ca/?p=21

[6] Veja o artigo “Fedcoin” de Koning, de 19 de Outubro de 2014: http://jpkoning.blogspot.com.br/2014/10/fedcoin.html

[7] Confira o artigo do matemático e economista Sina Motamedi: “Will bitcoins ever become money? A path to decentralized central banking”, de Julho de 2014, (em tradução livre: Os bitcoins se tornarão dinheiro? O caminho para um banco central descentralizado). Observação: do ponto de vista da tradutora e dos membros deste site não há possibilidade do banco central ser descentralizado, pois mesmo que o seja em transações, seria centralizado em oferta, discordamos, então, do presente título. Link: http://tannutuva.org/blog/2014/7/21/will-bitcoins-ever-become-money-a-path-to-decentralized-central-banking

[8] Leia o documento publicado pelo Banco da Inglaterra. Link: http://www.bankofengland.co.uk/research/Documents/onebank/discussion.pdf

[9] Confira o artigo da empresa Payment 21: “Bank of England: why might central banks issue digital currencies?”, de abril de 2016, (Em tradução livre: “Banco da Inglaterra: Porque os bancos centrais poderiam emitir moedas digitais?”). Link: https://payment21.com/blog/bank-england-why-might-central-banks-issue-digital-currencies

[10] Veja a respeito dessa conferência no artigo do autor Brady Dale de Julho de 2016: “FedCoin: When the Central Bank Copies Bitcoin”, em tradução livre: “FedCoin: Quando o Banco Central copia o Bitcoin”. Link: http://observer.com/2016/06/fedcoin/

[11] Veja mais em “Central Bankers Told They Should Be Sprinting Toward Blockchain”, de Junho de 2016, por Matthew Leising. Link : https://www.bloomberg.com/news/articles/2016-06-06/central-bankers-told-they-should-be-sprinting-toward-blockchain

[12] A respeito da incitação do CEO da Chain, Adam Ludwin, também de Junho de 2016, Link: https://blog.chain.com/why-central-banks-will-issue-digital-currency-5fd9c1d3d8a2?gi=7f67b58187b4#.za936yo9x

[13] Confira o artigo de setembro de 2016 no Sputnik News sobre a aliança entre a Rússia e a China para criar uma moeda rival ao dólar. Link: https://sputniknews.com/business/201609031044933366-china-russia-yuan/

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Foto de perfil de Wendy McElroy
http://wendymcelroy.com

É escritora, conferencista, articulista freelancer, e membro sênior do Laissez Faire Club.

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