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fev 23, 2019
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A redistribuição de renda como violação dos direitos naturais

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O paradigma moderno da redistribuição de renda nos coloca numa situação de defesa contra os avanços que essa teoria faz sobre os direitos de propriedade desrespeitando seus legítimos titulares. Diante dessa ofensiva, entendemos ser necessário esclarecer alguns pontos e conceituar adequadamente alguns termos que tiveram seus significados alterados deliberadamente com vistas à sustentação desse arcabouço conceitual e operativo que os assistencialistas anseiam por inculcar na mentalidade das pessoas. Além disso, existe a necessidade de fazermos as devidas correções e repreensões àqueles que admitem a necessidade da aplicação de uma justiça social propriamente dita, cujo intuito seria equalizar os níveis de renda e permitir que outras pessoas alcancem níveis de renda satisfatórios dentro de uma perspectiva de sobrevivência e dignidade humana. Munidos de diversas análises e da constatação material de situações de pobreza e miséria, os defensores da teoria da redistribuição de renda utilizam diversos mecanismos que se apoiam em sentimentalismo e moralidade manifestamente inconsequentes. É mister fazer uma abordagem corretiva em relação ao que pregam, demonstrando de forma clara o quão inconsistente é a narrativa em torno do assistencialismo. Para isso começaremos com uma definição precisa do que é renda.

Chamamos renda tudo aquilo que se obtém como lucro ou vantagem no uso de coisas que são de sua propriedade. Obviamente esse conceito vai desde o lucro obtido ao fazer o emprego das faculdades inerentes ao seu próprio corpo quanto pelo emprego dos bens que estão sob sua posse legítima. É importante esclarecer que é indevida a obtenção de vantagens sobre bens de terceiros se ela não for permitida contratualmente, ou de um modo mais simples, consentida e ajustada por um acordo prévio entre as partes. E foi para evitar quaisquer desentendimentos a respeito dessa questão que foram modelados os contratos de trabalho e prestação de serviço, cada um deles com suas peculiaridades e cláusulas obviamente consentidas. Qualquer quebra de contrato deve gerar para o prejudicado, em lato sensu, o pagamento de indenizações e restituições compensatórias ajustadas no termo. Portanto, uma conceituação adequada de renda se relaciona intimamente com o emprego de propriedade legítima. Contrariamente à obtenção de renda estão o roubo e a fraude, que obviamente não são renda, mas frutos de uma ação antiética não prevista pelas partes num acordo inicial.

Depois de conceituarmos a renda, temos que passar ao exame da possibilidade dela ter sido inicialmente distribuída por alguma entidade externa; isso implica numa conceituação preliminar desse termo e uma análise empírica da origem dos objetos, animais e, de modo geral, tudo o que está contido no mundo. Em economia, a distribuição significa única e exclusivamente a troca voluntária de bens e serviços entre os diversos atores que interagem em sociedade. Conceitualmente, a distribuição não traz em si a ideia de uma entidade externa promovendo essas trocas ou, em primeira instância, definindo arbitrariamente de quem são as posses. Então, em termos econômicos, não há que se falar num mundo que seja de posse coletiva. Nenhuma entidade externa ou deus disse de forma clara e inteligível para todos os seres humanos que o mundo é propriedade coletiva e que deveria existir um direito universal à alimentação, saúde, educação, segurança, outros serviços e bens. Não há qualquer regra formal escrita na lua ou nas estrelas apontando para a obrigatoriedade de partilha, divisão de terras ou qualquer forma de ação distributiva. Portanto, desafiamos quem quer que seja a apresentar essas regras de divisão igualitária e suas fontes materiais de comprovação. Diante disso, é importante frisar que, se nem deus ou ‘aliens’ definiram regras formais para a delimitação de direitos de propriedade, tal tarefa cabe aos homens, sendo isso possível apenas com o uso da razão. Cientes de que a distribuição não foi imposta à humanidade, não há como aventarmos essa possibilidade. Portanto, ao contrário do que os assistentes sociais do governo dizem, essa distribuição não é necessária, mas simplesmente contingencial à medida em que cada pessoa busca trocar bens e serviços ou mesmo quando procura de forma voluntária ajudar quem está em necessidade.

Já a redistribuição revela o autoritarismo dos agentes do governo e além disso a presunção de uma má distribuição inicial ou posterior. No entender deles, ser rico implica num dever moral e legal de “ajuda compulsória”, o qual deve ser suprido por tributação sobre renda pessoal ou lucro empresarial. Na visão dos assistencialistas, se faz necessário buscar uma certa igualdade e, obviamente, o governo deve se mostrar sensível a essas supostas “distorções” que podem impedir que outros seres humanos tenha acesso aos bens de consumo e serviços essenciais para uma vida digna. Contudo, essas suposições não têm solidez e apresentam diversos aspectos antiéticos, o que as coloca na categoria de falácias dotadas de apelo moral e emocional inconsistentes. Vejamos algumas características falhas dessa forma de pensar:

1 – Como dito anteriormente, não há distribuição inicial por qualquer entidade externa e isso, por si só, deslegitima qualquer tentativa posterior de fazê-lo sem o consentimento do proprietário. De uma maneira racional, para que alguém tivesse a obrigação de repartir algo teria que ter recebido essa ordem do distribuidor originário, porém nada disso ocorreu. Então, isso nos leva à conclusão lógica de que a distribuição é uma grande mentira e a redistribuição seria algo de uma natureza ainda pior por recorrer ao uso de força coercitiva no intuito de dividir propriedades de terceiros que as obtiveram por meios pacíficos ou consentidos.

2 – O apelo moral e sentimental utilizado pelos assistencialistas nem deveria ser levado em consideração nesse debate, pois abarca questões que dizem respeito à formação da personalidade de cada um dos indivíduos de modo particular. Tais discursos não podem servir como base para implementação de qualquer forma de “benevolência” forçada. A dificuldade em entender como cada pessoa encara o modo como deve ser feita a caridade nos coloca frente a centenas de dilemas morais, os quais estão em conflito ad aeternum em função dessa diversidade conceitual. A título de exemplo, podemos citar as diferentes formas de atuação no trato com moradores de rua. Alguns defendem que eles deveriam ser ajudados pelo governo, tendo o direito de receber assistência gratuita; outros defendem que eles deveriam ser encaminhados para os seus familiares a fim de serem ajudados unicamente por eles; tem um grupo que advogada a assistência através da construção de abrigos por iniciativa voluntária e ainda há os que simplesmente defendem que eles deveriam é procurar um emprego. É impossível esgotar todas as possibilidades em torno dessas múltiplas visões, mas fica evidente que uma autoridade central dirigindo essas atividades de assistência conflita com essa diversidade de concepções. E ainda há uma questão um tanto grave: a forma como um burocrata governamental vê a questão da pobreza não raro leva à adoção de políticas populistas que não buscam a resolução desses problemas, mas simplesmente à aquisição de capital político para a perpetuação no poder.

3 – Se fizermos uma análise imparcial sobre as condições de vida no planeta e os meios éticos de aquisição de propriedades e bens, não há que se falar na possibilidade da construção de riqueza sem que isso não fizesse alusão necessariamente ao emprego de apropriação original e por conseguinte de inteligência laboral. Os computadores, os veículos, as casas e todas os bens e serviços produzidos no mundo moderno requerem uso racional de recursos para a sua produção, ou seja, emprego dirigido de mão de obra própria ou de terceiros. Todos eles foram produzidos pelo esforço continuado de homens que, desde os primórdios, procuraram melhorar suas condições de vida. Com o avanço dessas técnicas de produção, mais e mais pessoas foram chamadas a contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento das aglomerações humanas. Num outro plano, ao trazermos essa questão para um tempo na história onde os homens nem sequer pensavam ser possível ter um vaso sanitário para descarga de dejetos ou fogo para cozer e assar carnes de animais, somos obrigados a entender que toda a riqueza do mundo não se fez por si só. Um homem que desejasse comer frutas ou carnes teria que sair de sua condição natural de ociosidade e pobreza, teria que colher frutas em árvores e descascá-las, teria que se empenhar na caça de animais e seu preparo para alimentação. O homem, em condições primitivas, tinha que se defender de seus predadores cercando sua propriedade e protegendo-a. Nunca houve, na história da humanidade, um tempo em que as pessoas conseguiam obter segurança, alimentação, saúde ou qualquer condição material de conforto sem que tivessem que aplicar força de trabalho dirigida inteligentemente.

4 – Um outro aspecto não menos importante do discurso dos justiceiros sociais diz respeito a uma suposta dívida histórica para com os pobres, negros e os menos favorecidos. As demandas assistencialistas convergem na direção de aplicar uma justa distribuição de renda com o intuito de devolver aos explorados uma condição que lhes foi suprimida pelos escravagistas e exploradores. Para eles é impossível viver num mundo que não garante condições iguais para todos, seria desumano permitir que tais contrastes se acentuassem ainda mais na dinâmica socioeconômica vigente. Respeitando os trabalhos de iminentes historiadores e sociólogos que buscaram de forma imparcial a verdade a respeito da questão da pobreza e desigualdade, é que admitimos que a exploração do trabalho escravo trouxe consequências para as vidas de milhares de pessoas. É inegável que isso ainda ocorra nos dias de hoje, obviamente em menor escala, porém é uma característica antiética que persiste na mentalidade de alguns homens de modo particular. A escravidão não é hoje suportada nas relações laborais do mundo civilizado, de modo que recebe as mais severas críticas e punições quando descoberta; não existe uma cultura de escravidão e, isso representa um avanço que somente o desenvolvimento das técnicas de produção e ampliação do mercado internacional sob o regime capitalista foi capaz de gerar. Apesar desses avanços, o discurso assistencialista continua a ecoar fortemente nos meios de comunicação em massa e nas comunidades acadêmicas de modo que pensar fora dessa perspectiva implica em constantes imputações de se ter um caráter duvidoso, egoísta ou mesmo “escravagista”. A verdade é que esse discurso sempre conseguiu atrair boa parte da população e elegeu políticos por todas as partes do globo. A exploração desse sentimentalismo, que tem raízes profundas na composição cultural e estrutura psicológica das massas, é um trunfo que o estado possui a seu favor; não se trata de uma ferramenta inofensiva, mas uma das mais poderosas de que se tem notícia, a qual opera a despeito de todas as evidências de que essas políticas não são capazes de diminuir a pobreza ou atacar as causas principais dela. Por garantir, mesmo que temporariamente, uma condição social melhor aos pobres através de programas de renda mínima e de inclusão social via políticas afirmativas, os políticos atraem para si as bases eleitorais para o estabelecimento e a disseminação da ideia de um estado necessário protegendo os fracos. Em aspectos práticos, é fácil deduzir que os governos não pretendem acabar com a pobreza, pois precisam manter grande parte da população sob a dependência dos programas sociais criados para supostamente acabar com a pobreza. Há erros fundamentais na percepção dos engenheiros sociais em relação aos agentes causadores de pobreza e, por isso, passaremos a um exame pormenorizado dos diversos aspectos dessa relação de exploração:

a) Não há elementos comprobatórios que sugerem uma exploração massiva dos negros e pobres por parte da totalidade dos capitalistas, empresários ou milionários. Embora fosse recorrente a incidência de relações de escravidão, não foram todos os donos de propriedades e posses que agiram no sentido de aprisionar e forçar pessoas ao trabalho. Alguns exploraram; outros não. Então por que todos deveriam ser considerados escravagistas?

b) Não pode existir, a menos que se pretenda fazer acepção de pessoas, algo como uma dívida social histórica em relação a certas categorias de indivíduos, visto que não só negros foram escravizados e despojados de suas posses, mas brancos, índios, orientais e diversas outras raças e classes de indivíduos sofreram essa ação por parte de seus agressores. A narrativa em torno da maior quantidade de negros sendo explorados não poderia servir como fundamentação para ignorar os demais grupos. É importante deixar bem claro que esse exemplo foi citado apenas para mostrar a incoerência no discurso dos justiceiros sociais e, obviamente, não defendemos que se aplique o pagamento de dívida histórica a qualquer raça ou categoria que seja.

c) Se é correto afirmar que há uma necessidade de compensar os eventuais prejuízos causados pela escravidão ou racismo – e isso só pode ser comprovado por um rigoroso e imparcial processo de estudo de genealogias, aferição de parentesco e apresentação de provas materiais incontestáveis dessa exploração – esses encargos não deveriam ser suportados pela totalidade dos indivíduos que compõem uma nação, mas somente por aqueles indivíduos que tiveram relação direta com as práticas exploratórias ou até mesmo os filhos, netos e demais parentes que receberam em herança bens oriundos dessa atividade perversa. Seria, portanto, um julgamento de difícil execução para qualquer tribunal estabelecido hoje, sendo necessário inclusive mudar leis para que se possa operar certas pretensões das partes envolvidas. Para evitar futuros problemas, os assistencialistas preferem dividir os custos com toda a sociedade; para isso contam com todo o aparato de coerção que o estado dispõe.

O conceito e a forma de redistribuição proposta pelos pretensos engenheiros sociais dos estados modernos fomentam constantes conflitos entre raças, classes e categorias de indivíduos. Tal implementação não seria possível sem a imposição forçada de pagamentos via tributação e a concessão de privilégios como no caso das cotas raciais e políticas de ação afirmativa. Essas medidas em conjunto remetem a um contrassenso que resvala numa percepção e concepção de justiça adequadas. O estabelecimento de burocratas governamentais medindo até quanto de renda nos é permitido ter sem devolver uma parte para ser “redistribuída”, além de pôr em execução um conceito de justiça que opera fora do âmbito de um tribunal de direito, que deveria apresentar as garantias de ampla defesa e contestação, revela a espoliação legal perpetrada via órgãos diretos da estrutura estatal. Nesse sentido, o estado emerge como uma instituição que milita flagrantemente contra os pressupostos e postulados fundamentais de uma justiça plena e coerente, dando vazão à institucionalização do roubo em larga escala, gerando consequências graves ao tecido social e aos fatores econômicos que se harmonizariam adequadamente sem a intervenção do estado, até mesmo nessas questões mais sensíveis relacionadas à diminuição de pobreza e punição da escravidão.

Ainda existem mais questões a serem respondidas aos justiceiros sociais, dentre elas as seguintes: não seria o instituto da propriedade privada uma medida perniciosa que teria como objetivo a manutenção das coisas como elas estão? A defesa da propriedade privada não seria uma “construção social” para corroborar com as desigualdades e a opressão dos ricos sobre os pobres?

Mais uma vez somos forçados a fazer uma conceituação correta dos termos que os socialistas de cátedra pretendem deturpar, além de explicar quem são os agentes causadores dos problemas que eles pretendem imputar a uma categoria de indivíduos. A desigualdade é uma regra da natureza, o que implica necessariamente que os homens nascem com características bem distintas que os colocam em condições de vantagem e desvantagem a depender da sorte de cada um. Isso também se aplica à capacidade de se obter, acumular e multiplicar ganhos. Alguns nascem mais ágeis, mais inteligentes emocionalmente e outros com uma grande capacidade de negociação; ao passo que o azar se lança sobre alguns que nascem com deficiências físicas e intelectuais ou com uma capacidade inferior em relação a diversos fatores importantes para a aquisição e acúmulo de riqueza. Falar de igualdade com a natureza seria uma atitude um tanto presunçosa de nossa parte e revelaria um inconformismo inócuo que reclama a alteração de contingências que não estão sob controle de qualquer ser humano. Depreende-se que os resultados das ações de indivíduos com capacidades diferentes sejam também diversos e, isso não é necessariamente um mal para quem compreende racionalmente a vida; no entanto, o será para os inconformados com a própria sorte. A respeito da sorte de cada um, ninguém pode ser responsável direto e nem tem a obrigação de ser solidário para suprir o azar do outro. Ninguém tem a obrigação de ser menos bonito porque o outro é mais feio; ou menor porque o outro é baixo; ou mais fraco porque o outro não tem vigor. Reduzir a si mesmo por causa dos outros nos traz uma perspectiva de involução da raça, nos levaria a uma condição material gradualmente inferior a cada vez que nos deparássemos com alguém que tivesse uma sorte pior do que a nossa. Entendemos que esse absurdo não se aplica à vida real. Então por que deveria se aplicar na questão das propriedades e bens que se adquire por herança, apropriação original ou aquisição por meio de esforço laboral inteligente? A outra questão que convém esclarecer é que a condição de superioridade biológica ou econômica não implica o aparecimento automático de características antiéticas no caráter das pessoas de forma que elas se tornem agressores em potencial a serem despojados de seu poder de fazer mal às pessoas. Isso nos mostra o quão leviano é o modus operandi dos pretensos engenheiros sociais que dão forma a uma doutrina baseada em análises imperfeitas de uma realidade que eles relutam em interpretar de maneira adequada e completa. As aspirações dos assistencialistas ainda encontram respaldo em teorias sociais equivocadas tal como o construtivismo estruturalista de Pierre de Bordieu, cuja matriz está na teoria dos fatos sociais de Durkheim. Segundo essa linha de raciocínio existem estruturas que se impõe objetivamente condicionando os indivíduos a determinadas formas de agir e pensar. Nesse contexto, quem é rico estaria fadado a impor sua supremacia a despeito da possibilidade de pensar e agir de forma diferente em determinadas situações; nada mais irreal e fora de lógica, uma vez que a pressão social é apenas um dos elementos que compõem a complexa rede de informações que pode vir a influenciar o modo de pensar dos indivíduos enquanto interagem uns com os outros. Embora tenhamos que respeitar o pioneirismo de Durkheim e todas as suas grandes contribuições para o estabelecimento da sociologia como disciplina independente e reconhecida pela comunidade acadêmia, se faz necessário corrigir alguns aspectos teóricos que demonstraram inconsistência e incompletude, como a difusão da ideia de que essas estruturas objetivas tinham força suficiente para coagir as pessoas a um determinado comportamento sem que pudessem fazer resistência a isso ou tivessem a faculdade da mudança de escopo. Contrariamente, entendemos que, em regra, o homem sempre é dono de suas ações, a não ser que seja forçado física ou circunstancialmente a agir de uma determinada forma. Segue-se que essas ocasiões de imposição física ou circunstancial são menos frequentes do que as oportunidades de escolha voluntária. Nós, como seres livres, sofremos exposição frequente a ideias divergentes e muitas vezes conflitantes entre si, estamos inseridos num meio que exerce certas influências sobre nossas escolhas individuais, mas nunca no sentido do florescimento de um instinto absolutista voltado de modo automático a uma determinada linha de raciocínio ou ação. Isso posto, entendemos que nisso consiste a inadequação do pensamento de Bordieu e os construtivistas estruturalistas: ignoram os demais fatores de influência direta e indiretamente na complexa dinâmica da tomada de decisões individual. Eles buscam incessantemente uma causa dominante no fator de decisão, mas se esquecem que essas causas podem se relativizar em função das próprias circunstâncias enfrentadas e as características pessoais dos indivíduos que estão, obviamente, em constante mudança por sofrerem influência tanto de outros ambientes com os quais podem ter contato, quanto de alterações internas de caráter, humor ou mudança de prioridades e concepções pessoais, por exemplo.

Uma questão intrigante ainda assombra os assistencialistas quando falamos de desigualdade voltando o nosso olhar para o instituto da propriedade privada: não há outro meio coerente de resolução de conflitos a não ser a delimitação física e racional do que pertence a cada um, além do necessário estabelecimento de regras formais que visem à preservação desses limites. Na ótica dos justiceiros sociais isso soa como uma heresia em tempos de “conflitos sociais” latentes, o que atrai sobre nós um coro de insultos e imputações de caráter não muito agradáveis. No entanto, é ainda assim melhor ser taxado insensível e egoísta do que perpetrar a degradação da ética e das estruturas econômicas que desenvolveram sobremaneira as condições materiais da humanidade como um todo. Nesse caso, entendemos haver dois meios de organização da propriedade: o socializante e o privatizante. Vamos analisar esses meios de apropriação tendo como ponto de partida critérios de adequação à ética:

Sob o ponto de vista ético, qualquer meio de organização da propriedade precisa ser previamente consentido pelas partes. Se o titular de uma propriedade estabeleceu que sua terra não pode ser dividida entre outras pessoas, esse direito deve ser preservado sob pena de violação de seu direito. Nesse caso, se a divisão é forçada, alguém está impondo uma decisão que o outro não consentiu e isso implica a criação de um conflito que poderia ser evitado simplesmente ao se respeitar tal direito. Se uma pessoa perde parcelas de sua propriedade para que tantas outras obtenham acréscimos sem que tenham concorrido para a sua aquisição, a posse não foi pacífica, mas conflituosa – embora os apropriadores defendam ser justa essa atitude ela pode ser classificada na categoria de roubo. Pouco importa a configuração moral que se dê a esse tipo de apropriação: sua implantação depende nitidamente do uso de força coercitiva contra indivíduos que estão sendo despojados de seus direitos legítimos. Tal modelo de apropriação é indesejável numa perspectiva racional. Desse modo, a apropriação socializante só é possível com a integração forçada de outros usufrutuários que não tiveram a entrada ou composse autorizada pelo apropriador original; isso implica o uso de força contra indivíduos pacíficos através de um órgão centralizado, o qual executa suas ações – na maioria dos casos – com o uso de poder militar.

Por outro lado, na apropriação original não se verifica a partilha ou composse forçada, uma vez que o agente definidor de direitos executou sua ação sobre objetos que não tinham proprietários; o alvo de suas ações nem tampouco diminuiu direitos de terceiros. Na apropriação contratual, dois indivíduos buscam um acordo sobre quem será o titular de determinados direitos, ambos buscam essa troca por livre espontânea vontade sem interferências externas ou coerção; trocam direitos que no mínimo se equivalham dentro de suas perspectivas de valoração. O critério que o apropriador original ou contratual utiliza é o da posse pacífica e, por mais que os moralistas da redistribuição lancem seus olhares fulminantes sobre esse método, suas altercações não são capazes de demonstrar qual outro método teria condições de estabelecer essas relações de posse sem a utilização de métodos truculentos. Isso nos leva a concluir, dentro de uma perspectiva de valor, que o meio privatizante se sobrepõe ao método socializante, sendo de natureza superior a esse último no que tange à boa condução das interações entre os indivíduos.

Ao abordarmos corretamente a questão relativa à propriedade privada, chegamos ao ponto principal de nossa argumentação: a narrativa assistencialista busca a desmoralização dos defensores da propriedade privada porque essa abordagem milita radicalmente contra a verdade explicitada na condição humana, a saber que a liberdade deriva da natureza ética da autopropriedade e, per si, adere aos demais direitos que vierem a se estabelecer de forma pacífica. Esta é uma condição que, a priori, deveria fazê-los compreender o direito sob uma perspectiva natural e, posteriormente, validar todos os títulos adquiridos por meio de aquisição contratual. No entanto, os erros constantes de interpretação factual e as análises generalistas impõem aos engenheiros sociais uma visão distorcida e incompleta de uma realidade que está bem acima de sua rasa compreensão do mundo. A busca frenética por validar uma atuação institucional que em primeira instância não deveria sequer existir demonstra a falta de comprometimento com padrões éticos de comportamento, além disso revela uma luta pela ocultação da base epistemológica sobre a qual se funda o instituto da propriedade privada. À medida em que essa linha de raciocínio avança sobre a mente dos indivíduos, a percepção do que é ou não ético também se dilui, o que leva à legitimação psicossocial de ações governamentais de natureza predatória. Essa chancela coletiva obviamente nunca ficou impune, uma vez que assistimos à progressiva destruição do tecido social, o qual se corrompe diariamente com essas benesses oriundas do roubo institucionalizado que é colocado em execução permanente pelos órgãos governamentais. Nada mais catastrófico e, analisando de um ponto de vista pragmático, inconsequente e inebriante. Por fim, entendemos ser essa a razão do fortalecimento gradativo das teorias e planos de governo assistencialistas: a alienação mental e o estabelecimento de uma dependência compulsiva.

Para finalizar de forma completa o que se tem a dizer sobre redistribuição e justiça social, advertimos que não há meios termos e, são apenas dois os métodos de apropriação:

1. O método da divisão arbitrária de posses e direitos legítimos de terceiros que estão sendo despojados; o que não difere de roubo apesar das tentativas de suavizar os efeitos desta ação ou mascarar o real intento de seus executores;

2. O caminho do respeito irrestrito ao direito, o qual se autoexecuta pelo respeito mútuo às propriedades e liberdades alheias desde que, obviamente, não conflitem com direitos de terceiros;

Quem arroga ser defensor das liberdades não pode defender, mesmo que minimamente, qualquer tipo de redistribuição ou tributação sob quaisquer pretextos. Fazê-lo revelaria contrariedade explícita aos princípios basilares de uma sociedade pautada pela liberdade e justiça.

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Sociologia
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Gestor de Processos Gerenciais com especialização em Business Intelligence e Gestão Competitiva. Trader de criptomoedas e libertário purista. Contribui para os sites Foda-se o estado e Cidades Empresariais. Fundador da página Tenda Libertária e do site Libertarian Studies.

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