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3 meses atrás
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Votar é uma grande piada

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Jesse Ventura, quando não está falando sobre a tragédia de 11/09, tem umas sacadas geniais. Ao descrever o sistema bipartidário para Larry King, ele disse:

“O que você tem hoje em dia é equivalente a entrar no supermercado e, ao se dirigir ao departamento de refrigerantes, notar que só tem Pepsi ou Coca. Você só pode escolher entre um dos dois. Não tem fanta, guaraná ou Sprite. Ambos são colas; um é apenas um pouco mais doce que o outro, dependendo de qual dos lados do corredor você está”.

Em uma entrevista com a Newsmax, ele descreveu os políticos do sistema bipartidário como lutadores profissionais:

“Na luta livre profissional, bem diante dos olhos de todos, nós fazemos parecer para o público que nós nos odiamos e que queremos acabar com a raça uns dos outros e é dessa forma que nós conseguimos o seu dinheiro e fazemos com que você venha até nós e compre os ingressos. Os políticos fazem igualzinho. Diante do público e das câmeras eles se odeiam, mas nos bastidores eles todos vão jantar juntos e firmam acordos. E eles fazem o mesmo que nós também – vão até o banco dando risada durante todo o percurso. E para mim é exatamente isso que você tem hoje em dia, no cenário político atual com esse bipartidarismo.”

Jesse está certo. O nosso sistema político é uma farsa. Este ano (2008) nós temos eleições presidenciais entre um belicista que é um socialista relutante contra um socialista que é um relutante defensor da guerra. Temos dois partidos que afirmam que são diferentes, mas quando o establishment, “eles”, os nossos senhores sombrios, ou o nome que você quiser dar a eles, realmente querem algo, eles conseguem. Quando oestablishment quis a concessão na frente da esmagadora e universal oposição, ele conseguiu. Quando desejaram imunidade para as empresas de telecomunicação, que praticaram sabida espionagem nos cidadãos americanos, eles conseguiram. Quando os nossos senhores sombrios quiseram que os stormtroopersbrutalmente contivessem os protestos durante as convenções dos partidos, eles foram bem-sucedidos.

Mas mesmo que os eleitores fossem capazes de fazer uma escolha real – e mesmo se os políticos seguissem a vontade da maioria nos assuntos importantes – tal sistema continuaria muito provavelmente sendo uma farsa. Como Augustine observou, com justiça, um governo não é nada mais que um bando de ladrões. Augustine estava escrevendo sobre reinos, mas os seus insights se aplicam às democracias da mesma maneira. Sem justiça, a capacidade dos cidadãos votarem leis e elegerem seus governantes não torna um governo mais legítimo do que uma monarquia injusta. E os pais fundadores dos Estados Unidos não acreditavam que as democracias pudessem ser justas.

Conforme Walter Williams pontuou:

“Nós frequentemente ouvimos dizer que a nossa nação é uma democracia. Essa não era a visão dos pais fundadores. Eles viam a democracia como uma outra forma de tirania.”

Em Democracia, o deus que falhou, Hans-Hermann Hope diz que:

“É difícil encontrar vários proponentes da democracia na história da teoria política. Quase todos os grandes pensadores tinham profundo desprezo pela democracia. Mesmo os pais fundadores dos Estados Unidos, atualmente reconhecidos como modelos de democracia, eram absolutamente contrários a ela. Sem uma única exceção, eles viam a democracia como nada mais do que uma máfia.”

Para poder criar um governo justo, os fundadores estabeleceram uma república limitada constitucionalmente, na qual o voto popular deveria ser apenas um detalhe. É digno de nota que a palavra “democracia” não apareça em nenhum lugar da constituição americana. Apesar disso, hoje em dia essa palavra é sagrada. Conforme as eleições se aproximam, os americanos assistem resignadamente os debates inúteis, e, respeitosamente, assistem aos comerciais em que as celebridades discursam e convidam a todos para participar da “festa da democracia” e outras coisas que não fazem sentido algum. De forma compulsiva as pessoas ficam perguntando umas às outras em quem elas irão votar.

No dia das eleições eles vão às urnas como se estivessem recebendo a sagrada comunhão e ficam o dia todo desfilando com adesivos onde se lê “Eu votei”, como se estes adesivos fossem as próprias cinzas usadas durante a quarta-feira de cinzas. Pat Buchanan chama essa reverência cega e essa crença na força aparentemente divina da democracia de “adoração democrática”.  Ele observou que foi com o propósito de estabelecer a democracia no Oriente Médio que, em última análise, levou à decisão da guerra no Iraque. Então como foi que nós partimos da grande restrição dos pais fundadores contra a regra da maioria para a deificação da democracia?

Antigamente, os humanos viviam em pequenos bandos e eram livres. É verdade, a vida era perigosa, mas ninguém lhe dizia o que você tinha de fazer. Como Philip Jackson explicou:

“Os homens poderiam caçar individualmente ou em grupos. No entanto, quando eles cooperavam, a liderança não era baseada no ranking oficial; em vez disso, surgia quando um caçador propunha uma caça em grupo e recrutava outros caçadores para o seguirem. Ninguém era obrigado a isso, no entanto, e diferentes caças poderiam ter líderes diferentes, baseado no seu carisma que poderia variar de indivíduo para indivíduo e com o decorrer do tempo. As mulheres precisavam de ainda menos coordenação. Com elas a liderança tinha mais a ver com sabedoria ou habilidade em fornecer conselhos conforme a necessidade surgisse.”

E então ocorreu o grande conluio, seguido pela longa opressão. Conforme os humanos aumentavam em número e a comida começou a se tornar cada vez mais escassa, os bandos se tornaram tribos e as tribos se tornaram domínios. O grande chefe, sedento pelo poder, convenceu o supremo sacerdote a convencer as pessoas a aceitar o seu domínio. O grande chefe era escolhido pela divindade, era o que se dizia às pessoas, e talvez ele mesmo seja divino. Portanto, as pessoas deveriam obedecê-lo.

Murray Rothbard (1926–1995), economista, historiador, e teórico politico foi uma das grandes mentes do séc. XX. Talvez uma das maiores realizações de Rothbard tenha sido a identificação de “uma corte intelectual.” Que, em contraste com as massas, que não cria as suas próprias ideologias ou chega de fato a refletir sobre essas ideias, de forma independente”, os intelectuais são os ajustadores da opinião da sociedade. A corte intelectual é formada por aqueles que “em troca de uma parte ou uma participação em algo, oferecido pelo domínio da classe que está no poder, tece as apologias pelo domínio estatal para convencer o povo ingênuo”. Só para citar Rothbard novamente:

“… particularmente importante dentre os servos intelectuais do estado estava a casta eclesiástica, cimentando a poderosa e terrível aliança do chefe de guerra e do curandeiro, o trono e o altar. O estado ‘edificou’ a Igreja e conferiu a ela poder, prestígio e riqueza extorquida de seus súditos. Em troca a Igreja ungia o estado com a confirmação divina e inculcava essa sanção ao populacho.”

No Ocidente, o mito do direito divino dos reis ficou inabalado até o Iluminismo.

De acordo com Keith Preston, “Uma conquista fundamental do Iluminismo dos secs XVII e XVIII foi a demolição da noção do direito divino dos reis”. A palavra “iluminismo” (N. do T. em inglês da o sentido de “fez se a luz”) pode remontar à imagem de um homem sentado com as pernas cruzadas no alto de uma montanha, meditando em uníssono com o universo, mas de acordo com a época, a palavra não se referia a um insightmístico, mas sim à percepção de que muito daquela sabedoria que vinha sendo divulgada – inclusive o mito do direito divino dos reis – era um monte de mentiras. Com a coragem de questionar as mentiras e disseminar as suas conclusões, os autores iluministas deram início a uma revolução no pensamento que culminou na Declaração de Independência (americana).

Infelizmente, ao mesmo tempo em que eles estavam destruindo um dos pilares da antiga ordem, outro escritor, Jean-Jacques Rousseau, estava plantando as sementes da democracia e seu culto. Na visão mística de Rousseau de uma sociedade governada pelo que ele chamou de “vontade geral”, cada um de nós deveria colocar “a sua pessoa e todo o seu poder em comum sob a direção suprema da vontade geral e, na nossa capacidade coletiva, recebendo cada membro como uma parte indivisível do todo”. A soberania resultante, “tendo sido formada integralmente de indivíduos que a compõem, jamais teria ou poderia ter qualquer interesse contrário aos deles; consequentemente o poder soberano não precisaria fornecer quaisquer garantias aos seus súditos. Nesse mundo fictício, “a soberania, meramente devido à virtude daquilo que ela é, sempre seria o que deveria ser”.

James Bovard, que se refere a Rousseau como o “profeta do mal do estado moderno” alega que ao promover seu conceito de “vontade geral”, Rousseau “libertou o gênio da lâmpada do poder absoluto em nome da soberania popular, que até então era desconhecido”.

O conceito de vontade geral de Rousseau iria se tornar algo irresistível entre os futuros intelectuais da corte porque ele conseguia mesclar perfeitamente a sociedade e o estado – de fato um truque muito útil. Rothbard escreveu:

“Com o subsequente avanço da democracia, é comum escutar determinadas coisas que violam virtualmente cada aspecto da razão e do bom senso. Coisas do tipo: “nós somos o governo”. O coletivo “nós” é útil em conferir uma camuflagem ideológica a ser aplicada sobre a realidade da vida política. Se “nós somos o governo” então qualquer coisa que o governo faça para um indivíduo não é apenas justo e tirânico; é também algo “ voluntário” da parte do indivíduo em questão. Se o governo causou uma grande dívida pública que deve ser paga através da cobrança de impostos de um grupo para beneficiar outro grupo, essa realidade de carga é camuflada através da fala de que “nós devemos isso a nós mesmos”; se o governo alista um homem ou o coloca na prisão por ter uma opinião dissidente, ele está “fazendo isso a ele mesmo” e, portanto, nada estranho aconteceu aqui.”

Ao observar o poder do “mito que afirma que nós estamos nos governando a nós mesmos”, Lew Rockwell nota que enquanto que “os reis de antigamente teriam sido depostos imediatamente se tivessem tentado abocanhar 40% de impostos sobre a renda de seus súditos, ou se tivessem se metido a dizer qual o tamanho que deveriam fazer suas privadas, ou determinado como as escolas deveriam ensinar cada uma das matérias”, os americanos atuais “ignoram as pequenas tiranias cotidianas”.

Como Bovard salienta: é como se “ao permitirmos o voto em políticos que encenam novas leis injustas e opressivas, magicamente transformássemos as listras dos uniformes de presidiários em emblemas de liberdade”.

“É difícil encontrar muitos proponentes da democracia na história da teoria política”. Acorde, América! Não há nada de especial sobre os 50% +1. A verdade e a justiça não podem ser determinadas através do levantamento de algumas mãos. Nós não somos o governo. Votar não é um sacramento. E da forma como é hoje, quando a única opção que nos é dada é uma escolha entre candidatos aprovados pelo establishment, então votar se torna uma grande piada.

Voltaire, sem dúvida o líder do Iluminismo abusou do humor e da sagacidade como duas de suas principais armas e, como Robert Ingersoll observou: “Diante do absurdo, ele ria…”. Foi em grande parte ao tornar o direito divino dos reis uma bela piada que os autores do Iluminismo derrubaram este mito. É tempo de nós fazermos o mesmo com o direito divino da maioria.

Esse ano vá votar dando risada ou fique em casa.

Autor: David Heleniak é advogado em Nova Jersey e autor de Rousseau and the Real Culture War.

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