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dez 28, 2016
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Resumo do Capítulo IV de Ação Humana – Uma primeira análise da categoria Ação

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Mises começa o capítulo reforçando o óbvio: toda ação está ligada ao objetivo de sanar algum desconforto. Além disso, o autor caracteriza meio como sendo tudo aquilo que utilizamos para atingir qualquer fim; e salienta que no universo não existem meios: existem coisas. O que torna as coisas, os objetos meios são as ações; ou mais profundamente: quando a razão humana enxerga uma utilidade para aquela coisa, de modo que tal objeto possa ser empregado em uma ação. Mises utiliza uma argumentação pesada para que até mesmo o mais leigo dos leitores possa compreender que não existem meios; e sim nós que tornamos meios os objetos a nossa volta. É importante que isso fique bem claro, para que não haja discussões polilogistas onde, por exemplo, animais também consigam executar ações. A ação, em si, é algo intrinsecamente humano; os animais agem puramente por instinto.

Dentro desse contexto, o autor reinsere a praxeologia como o estudo da ação humana com o universo ao seu redor, e não o universo em si. Esse pequeno detalhe, muitas vezes não compreendido por algumas pessoas, ou compreendido por pessoas de má fé, que gera discussões sobre a praxeologia ser ou não ser uma ciência. Com um estudo mais aprofundado, pode se ver que a praxeologia, na época do autor, se enquadrava perfeitamente na definição de ciência. Hoje, entretanto, ela se encaixa como método; mas o método é o coração de uma ciência, que nesse caso é a economia.

Em seguida, Mises fala um pouco sobre escala de valores. O conceito de valor é amplamente explorado e trabalhado por diversos autores da Escola Austríaca, cujo autor deste livro é um dos guardiões e pilares. Inclusive uma das refutações à teoria marxista de economia, o valor-trabalho e mais-valia, vem da teoria de valor subjetivo ou marginal, de Carl Menger. Mises argumenta que o agente homem, usando de sua racionalidade, cria uma escala de valores que ele considera a mais bem otimizada à ação que ele pretende executar. Ilustrando: quando você está na estrada, percebe que a gasolina está acabando e tem dois postos de abastecimento. O que está mais distante é mais barato. Você faz um cálculo de valor para saber se vale a pena arriscar chegar no posto mais distante, ou se deve optar pelo mais seguro. Perceba que, mais uma vez, tal escala é intrinsecamente humana e individual; a escala de Fulano nem sempre vai ser igual a de Beltrano. Também Mises fala que a praxeologia condena quaisquer tentativas de se padronizar tal escala de valor e posterior escala de comportamento; não existe uma forma de se desenhar um padrão absoluto para todos. Por fim, Mises define de fato o que é valor: “Valor é a importância que o agente homem atribui aos seus objetivos finais”. Portanto, os meios utilizados para se chegar aos objetivos finais ficam subjugados a este valor.

Em seguida, Mises faz um pequeno tópico que converge inteiramente para o conceito de laissez-faire. Todos os seres humanos com capacidade cognitiva operante buscam melhoria de vida: melhores comidas, melhores moradias, melhores trabalhos, viagens, roupas mais confortáveis, etc. E, como decorrência desse axioma, o conceito de valor fica ainda mais evidente: afinal, como atingir os princípios de laissez-faire? Simples! Utilizando sua racionalidade humana para otimizar os valores finais e minimizar os valores dos meios. Exemplificando: como conseguir comprar uma casa? Simples, diminuindo os gastos rotineiros.

Na sequência, o autor fala na ação como troca: “Qualquer ação é uma tentativa para substituir uma situação menos satisfatória por outra mais satisfatória”. Aqui percebemos duas coisas importantes: a ação é o que move o homem; sem a ação, estaríamos vagando em bandos pelas planícies em busca de alimento, e não teríamos deixado de ser nômades. E também percebemos que a ação não pode ser forçada; a ação precisa ser voluntária. O que não acontece muitas vezes: afinal, o estado, detentor do monopólio da violência, faz o uso da mesma para nos manter sob a égide de regras arbitrárias que quase sempre não são logicamente compatíveis com nossas escalas de valor e, consequentemente, igualmente incompatíveis com nossa ação. Também Mises reforça o fato de que é impossível o cálculo de valores. Cálculo, sob suas palavras, só faz sentido na matemática. O valor, como afirmam vários autores da Escola Austríaca (e qualquer autor sensato de economia), é subjetivo; portanto, é impossível estabelecer um cálculo.

Mises leva o leitor, ao longo de todo o capítulo, a se indagar sobre vários pontos que estão mal explicados em nossa sociedade. Primeiro, como o estado se acha capaz de se impor acima do valor? O primeiro exemplo que eu esboço na mente é o seguinte: como o estado acha que é necessário formar, em universidades públicas, cem mil bacharéis e licenciados em filosofia, se a demanda do mercado não exige nem um terço disso? Por isso que em países como Cuba, engenheiros e médicos formados são obrigados a trabalhar como garçons e taxistas. Como o valor é subjetivo, é fácil ver que a preferência e a exigência é ditada pelo mercado; e o mercado é formado por indivíduos singulares, cada um com sua escala de valor peculiar. Querer padronizar isso é sandice; mas é disso que se trata o estado: estragar a economia; ir contra uma ciência. E ir contra uma ciência é ir contra a humanidade.

Autor do resumo: Raul Oliveira.
Resenha do quarto capítulo do livro Ação Humana, um tratado de economia
Autor: Ludwig Von Mises, Vide Editorial, 4ª edição, 2015

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foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".