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Resumo do Capítulo III de Ação Humana – A economia e a revolta contra a razão

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O terceiro capítulo do livro Ação Humana mostra como o autor possui uma capacidade cognitiva excepcional quando se trata de críticas pontuais, e ao mesmo tempo estruturais, ao socialismo e às ciências naturais e empíricas.

Historicamente, cientistas e filósofos tentaram de diversas formas mostrar que a razão estava superestimadas. Semelhante ao que vem acontecendo nos nossos dias, uma vez que termos como “vivência”, “dívida histórica” aparecem frequentemente, tentando roubar a legitimidade da razão. Citando Hegel, Mises mostra o quão insalubre é tentar desqualificar a razão, e até mesmo prejudicial à saúde e à sociedade. Citando Comte, e chamando-o de louco por seus objetivos, o autor ainda afirma que mais louco ainda são os que seguem seus preceitos, uma vez que os referidos preceitos eram/são antípodas à razão. Sob as próprias palavras do autor: “Aqueles que, honesta e conscienciosamente, procuram a verdade jamais pretenderam que a razão e a pesquisa científica possam responder a todas as questões”. Essa afirmação é o ponto crucial, que valida a razão em detrimento de todos os outros conceitos que a desmerece: a razão não busca a resposta de tudo; ela é a estrutura do pensamento humano. Este, por ter uma limitação (ao menos até onde sabemos), não tem como saber de tudo, de responder tudo.

Com esses esclarecimentos, Mises explica que posteriormente a revolta contra a razão foi dirigida a outro alvo: a economia. Como as ciências naturais já estavam convencidas da validade da razão, em virtude de suas próprias estruturas, os filósofos resolveram atacar a estrutura da ação humana, que aparentemente era mais frágil e passava por turbulências estrondosas na época. O caminho escolhido para destruir a estrutura da economia era atacar a razão e substituí-la pelo misticismo; seu executor seria Karl Marx. Usando a base de Hegel, Marx “arrogou-se a capacidade de predizer o futuro”, onde dizia que o milênio estava inevitavelmente conduzido à revolução socialista. Sob as afirmações de que a estrutura lógica da mente estava ligada   as várias classes sociais, Marx conseguiu criar uma estrutura antônima à lógica e razão. Com isso, Marx conseguiu fomentar o ódio dos “proletários” contra os “burgueses”, afinal ambas as classes tinham estruturas mentais supostamente diferentes e, portanto, incompatíveis. O que significava que a revolução proletária deveria chegar ao controle de tudo, pois eram a maioria.

Os tópicos que tratam do polilogismo e do exame praxeológico do mesmo são bem esclarecedores. Na medida em que você tenta separar a estrutura lógica da mente em classes sociais, raciais, geográficas dentre outros, aparecem vários problemas de polilogismo. É impossível que se haja duas (ou mais) lógicas; como já comentamos, o cérebro humano é incapaz de aceitar duas lógicas ao mesmo tempo: é impossível ser “A” e “não-A” simultaneamente premissas verdadeiras (ou falsas). A exemplo disso é a premissa de que os marxistas fingem aceitar o princípio democrático do voto majoritário; na verdade são a favor de uma minoria que governe, desde que a mesma compartilhe dos mesmos ideais. Esse exemplo nos leva a concluir que um adepto do polilogismo terá que aceitar que certos princípios ou ideais são certos, pois são compatíveis com sua classe, raça, etc. É intuitivamente e logicamente verificável que o polilogismo não tem, portanto, fundamentação alguma além de crença e misticismo.

Sob o olhar da praxeologia, Mises faz uma “autópsia” no polilogismo e mostra que o mesmo é absolutamente e uniformemente ilógico. Sua afirmação: “O fato de a aplicação prática de uma teoria produzir o resultado previsto é universalmente aceito como uma confirmação de sua validade. É um paradoxo afirmar que uma doutrina falsa possa ser mais útil do que uma doutrina correta”. É o que muitos grupos de pessoas fizeram ao longo da história. Rejeitaram a teoria de Ricardo porque o mesmo era branco e “burguês”, mesmo sendo a teoria do referido inglês correta. Outro exemplo disso é a teoria balística; de nada valeria uma teoria balística “ideologicamente correta” se não fosse eficaz. Mas, para marxistas, isso é apenas uma “pretensão arrogante”. A exemplo disso, marxistas condenavam a pesquisa bacteriológica apenas pelo fato de que a mesma melhorou a produção industrial e comercial, ignorando os avanços tecnológicos e medicinais de tal pesquisa. Por isso marxistas são famosos por não entenderem nada sobre economia. Bom, eu prefiro ficar com a lógica e economia.

Mises ainda traz um fato curioso que pouca gente sabe: Marx tinha escrito os volumes II e III de “Das Kapital”. Porém, a teoria de Ricardo, a nova era do pensamento econômico impulsionada por Menger e Jevons tornaram cada vez mais inviável o marxismo e a ideologia socialista, Marx foi obrigado a abandonar a ideia de publicar tais volumes. A razão principal é que Marx via a economia e a filosofia social como utilitarismo. Seu objetivo era abalar a reputação dos ensinamentos econômicos que não conseguia refutar usando a lógica. Sequencialmente, Mises explora as diversas afirmações ausentes de lógica que Marx fez ao longo da vida. Por exemplo: a economia propiciava uma justificativa racional e moral para a exploração capitalista. Provavelmente o leitor já percebeu que tal afirmação só pode vir de alguém que jamais soube o que é economia e capitalismo. Por fim do tópico, Mises erradica totalmente a possibilidade de se usar a psicologia para afirmar ou formular algo; ela apenas analisa a motivação, nada mais. Exemplificando: ao analisar o Teorema de Pitágoras, não estamos interessados em saber o que motivou Pitágoras ao formular esse brilhante resultado que carrega seu nome; estamos interessados no que o resultado significa e representa, apenas.

Outro ponto interessante e forte do capítulo é a crítica ao determinismo histórico. Eu particularmente odeio incessantemente o determinismo, mas só com a leitura do capítulo pude ter uma noção do quão nocivo ele é e como Mises o refuta bravamente. Marxistas explicam a vitória ou derrota de uma ideologia quando duas ou mais entram em conflito como consequência do determinismo histórico. Também dizem que os homens se iludem ao acreditam que são livres para escolher e agir tal como queiram. “Os homens em si não pensam, é o determinismo histórico que se manifesta através do pensamento”. Acredito que seja por isso que marxistas odeiam tanto Mises e a praxeologia: eles destroçam essa afirmação totalmente ilógica e, sob a minha opinião, nojenta. Pensemos por um momento: imagine que um indivíduo formule uma ideologia que seja benéfica para si. A mesma ideologia é benéfica para a sua classe? Supondo absurdamente que sim, qual classe? Afinal pertencemos a diferentes classes. O próprio Marx percebeu esses conflitos nos movimentos proletários. O marxismo é errado sob diversas formas, mas é na lógica que ele mais leva surra. Afinal, a afirmação de que a substituição do capitalismo pelo socialismo é do interesse dos proletários é algo meramente arbitrário. Eu sou da classe “proletária” e não é do meu interesse do que socialismo figure.

Com o surgimento da teoria do livre comércio na Inglaterra, as várias escolas marxistas e pensadores simpatizantes da teoria de Marx foram perdendo a credibilidade que tinham, uma vez que tal teoria conseguiu abolir taxas protecionistas e consequentemente o comércio começou a fluir mais e melhor, resultando em condições de vida melhores. Quando se viram cercados por produtos estrangeiros de melhor qualidade e menor preço, voltaram atrás e pediram proteção novamente. Perceba aqui como o Estado em si é um monstro que obedece a interesses egocêntricos. A população começou a adquirir bens melhores e mais baratos vindos da Europa; os comerciantes locais em vez de criarem métodos que os colocassem novamente na concorrência pelo mercado, imploraram por regulação estatal. O que leva Mises e a pessoas sensatas a concluírem que regulamentação estatal de algum setor sempre irá beneficiar um determinado grupo (inclusive criação e manutenção de monopólios).

Com decorrência desses fatos, o autor afirma que: “Os ricos, os proprietários das fábricas que já estão em operação não têm interesse específico na manutenção de um livre mercado”. Afinal, a regulação estatal dificultará ou mesmo extinguirá a possibilidade de surgir alguma concorrência. Isso impulsionou a crucificação da ideia de livre mercado, patrocinados pelos donos de monopólios. Mises apropriadamente afirma que ideais que fazem história, e não vice-versa. As ciências historicistas, se soubessem disso, deixariam de existir. Isso contradiz a essência da filosofia marxista, que insiste em dizer que eles possuem o monopólio da razão, por serem (supostamente) os porta-vozes da nascente classe proletária. Eles mesmos se consideram os donos da verdade por terem surgido da própria classe proletária. Mas quem era proletário? Marx, Engels, Lênin não tinham ligação nenhuma com a classe proletária que eles supostamente defendiam e representavam. Eram “burgueses”, a classe que eles próprios pregavam ódio.

O tópico do polilogismo racista traz bastante do que já foi discutido até aqui. Mises mostra que civilizações africanas e asiáticas são mais atrasadas tecnologicamente pois não tiveram necessidade de fazê-lo, mesmo compartilhando da mesma premissa praxeológica: o sucesso na luta pela sobrevivência. Erros lógicos desse polilogismo não faltam, e Mises exemplifica alguns. Gandhi negou sua própria ideologia ao dar entrada em um hospital moderno para ser tratado da apendicite.

Mises por fim fala sobre a compreensão do polilogismo e faz o papel de advogado da razão. O marxismo possui representantes atuais que afirmam que o socialismo não é só inevitável, como desejável e que a missão do proletariado é destruir o sistema capitalista. Afirmam que uma revolução não pode ser feita por meios pacíficos. Admitem que a estrutura lógica da mente humana é única mas tentam influenciá-la sob conceitos místicos como compreensão histórica, apreciação estética e juízos de valor. Todas essas premissas são infundadas por diversos motivos; mas o mais forte é que lhes são conceitos a falta de lógica. A compreensão histórica depende da mente do indivíduo, que possui particularidades singulares que resultarão em uma interpretação única; o mesmo vale para todas as outras premissas marxistas. A necessidade do marxismo em levar tudo para o coletivo é seu maior erro; a única coisa que é comum a todos os seres humanos é a ação humana. A tão odiada pelos marxistas. A praxeologia.

Mises finaliza advogando sobre a razão. Explica mais uma vez que um dado irredutível é irracional; tudo o que é conhecido e conhecível é racional. Além disso não há logica alguma: não há uma forma de cognição irracional ou um dado irredutível conhecível. O autor comenta sobre a inveja, sobre a superioridade tecnológica da civilização branca de forma bem clara. Uma vez que a inveja é uma fraqueza muito comum, o que motiva as pessoas a tenderem para os ideais marxistas, que destroem quaisquer tentativas de estabelecer uma propriedade privada. Cientistas só podem ter suas teorias validadas por uma caminho. “Uma teoria só pode ser julgada pelo tribunal da razão”. Portanto, mesmo que uma teoria recorra á violência ou outros meios para se firmar, não significa que ela seja correta. Mais uma indireta direta para os marxistas que tentam a todo custo nos fazer engolir todos os seus devaneios ilógicos.

Autor do resumo: Raul Oliveira.
Resenha do terceiro capítulo do livro Ação Humana, um tratado de economia
Autor: Ludwig Von Mises, Vide Editorial, 4ª edição, 2015

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