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Resumo do Capítulo II de Ação Humana – Os problemas epistemológicos da ciência da Ação Humana

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Há dois ramos que estudam a ação humana: a história e a praxeologia. História, como o autor define e posteriormente critica suas falhas decorrentes da própria definição, é o “(…) conjunto e a arrumação sistemática de todos os dados relativos à experiência humana.” Explorando mais essa definição, Mises mostra o quão falho é se basear na história para a construção de argumentos consistentes. Exemplos disso não faltam: movimentos coletivistas como o feminismo e o coletivo LGBT trazem jargões como: “todo homem é estuprador em potencial”, “dívida histórica”, “patriarcado” etc. Vamos analisar mais a fundo esses argumentos: quando você diz que todo homem é um estuprador em potencial, que todo branco é racista, que todo hétero é homofóbico, você comete dois erros fundamentais: o primeiro é que, trivialmente, generalizações são errôneas quando se trata de comportamento. E isso é fato, pois deriva diretamente da praxeologia, uma vez que a ação do homem é o meio, e não os fins. O segundo erro é que, ao assumir a validade de tais afirmações, você cai nos erros lógicos do behaviorismo e do determinismo. É a mesma coisa dizer que todo preto é um ladrão em potencial ou que todo homossexual é um portador do HIV em potencial. Em suma, essas afirmações são logicamente erradas e segregativas.

Mises ainda apresenta um argumento ainda mais forte para a ineficácia de se usar a histórica como embasamento argumentativo: o tema de estudo da história é o passado. Estudar história enriquece o conjunto de gnoses humana, mas não pode ser usada a priori como viés para estudo do presente de ação humana. A ação humana não é um experimento que pode ser analisada em um laboratório; as experiências e dados coletados no passado estudado pela história não pode ser usado como fundamento estatístico para a previsão de ações futuras. E é isso que difere a história da praxeologia: praxeologia tem como seu escopo o estudo da ação humana como tal. Nada mais, nada menos.

Um fato recorrente na época do autor, e percorre os dias atuais, é a moda de negar a existência de qualquer conhecimento a priori. Ou seja, que todo conhecimento humano deriva da experiência. Essa moda comete um erro lógico, que Mises ilustra didaticamente. Suponha, por absurdo, que todo conhecimento humano derive da experiência. Mas ciências como a lógica, a matemática e a própria praxeologia são dados irredutíveis, são anteriores mesmo da existência humana (no caso da matemática, da física e da lógica). O universo possui suas leis regendo o espaço bilhões de anos antes da terra sequer existir; se uma espécie de dinossauro realizasse migração em uma determinada época do ano, seus instintos naturais mostrariam que a menor distância entre dois pontos é uma reta (esse comportamento matemático é visto em vários animais hoje). Portanto, existem conhecimentos que são anteriores à própria existência humana.

Com respeito à lógica, o autor traz uma argumentação bem fértil sobre as origens do homem até seu estágio final. Usando a teoria da evolução, Mises mostra que mesmo nossos ancestrais possuíam uma capacidade de raciocínio lógico intermediário ao nosso, com potencialidades. Logo, a razão e a mente, nossos equipamentos mais eficientes na luta pela sobrevivência, não são eternos ou imutáveis; são transitórios. Consequentemente, a lógica não está sujeita a prova ou refutação, pois são categorias finais, impossíveis de serem analisadas. Como o próprio Mises comenta: “A mente humana é absolutamente incapaz de imaginar categorias de lógicas diferentes das suas”. Nesse contexto Mises afirma que a praxeologia é duplamente humana. Primeiro porque sua teoria tem validade universal em toda a ação humana; segundo porque lida apenas com a ação humana, e não com ações não-humanas.

Brevemente o autor comenta sobre o homem primitivo e o misticismo. A afirmação de Mises: “o conteúdo do pensamento do homem primitivo é diferente do nosso pensamento, mas a estrutura formal e lógica é comum a ambos” mostra que a praxeologia é, de fato, universal quando nos referimos a qualquer ação humana. Afinal, o que nos difere do homem primitivo? Apenas os objetivos (fins) e a causalidade. A ação humana, em si, é o mesmo objeto. Enquanto os nossos ancestrais tinham como causalidade e objetivos não morrerem de fome ou disputa por território, hoje focamos em uma carreira profissional e acadêmica, por exemplo. Mas a ação humana é a mesma; a perturbação do estado de felicidade é a mesma. Outro exemplo disso é ilustrado no livro, sobre missionários na África e Polinésia que comentam sobre as conversas que os homens primitivos dessas terras tinham: mulheres, comida e colheita. O quão isso difere de nós? A praxeologia é imutável com respeito à causalidade e aos fins.

Mises é genial quando fala sobre o raciocínio apriorístico. Sob a definição de que é meramente conceitual e dedutivo, conclui-se que só produz tautologias e raciocínios analíticos. Exemplificando essa afirmação, o autor usa o objeto matemático: o conceito de triângulo, que já contém a essência do Teorema de Pitágoras. Esse teorema é uma tautologia (em todo triângulo retângulo ele é trivialmente válido) e sua demonstração é um raciocínio analítico. Portanto, sob a égide da fala do autor, concluímos que “Sem a teoria, sem uma ciência apriorística da ação humana, não é possível compreender a realidade da ação humana”. E, como os filósofos ignoram as ciências da ação humana, sua produção científica são inúteis para a praxeologia. Essa afirmação é facilmente verificável quando vemos o tratamento que é dado atualmente à economia. Ao tentar “matematicalizá-la”, a ineficiência do ato é escancarada com políticas keynesianas e intervencionistas. O que reforça o fato de que a economia não é uma ciência exata, humana, biológica. Ela é uma ciência apriorística própria.

As seguintes palavras de Mises mostram o quão fidedigna é a ação humana: “ação humana tem a mesma origem que o raciocínio humano. (…) podem até ser considerados dois aspectos diferentes da mesma coisa”. Perceba: o raciocínio está intimamente ligado à praxeologia: quando você realiza uma ação, realiza sob sua lógica. Sua lógica é moldada pelo raciocínio. Portanto, a praxeologia transmite conhecimento exato e preciso das coisas reais. Não há como agir sem que você identifique e pondere os meios, os fins e o custo-benefício de tal ato. Mises ainda termina esse bloco com mais uma crítica ao ineficaz ato de tentar usar métodos das ciências naturais para o estudo da praxeologia: as ciências naturais se baseiam em hipóteses e teses que são confirmadas ou refutadas por experiências. Na economia isso não acontece. A história não pode ensinar qualquer regra geral ou lei universal, porque é uma ciência a posteriori. Ela é dita consistente através de experiências, e não como um dado irredutível.

O conceito do individualismo metodológico, exposto por Mises, é outro ponto forte do capítulo. Duramente criticado por várias escolas científicas, principalmente as ciências sociais, sendo depreciado como uma falácia nominalista. É inquestionável que o homem e sua lógica são importantes para a sociedade e é até mesmo difícil imaginar o homem disjunto da humanidade. O problema é quando se pensa que vale a recíproca, como muitos pós modernos pensam: o homem e sua lógica não estão sujeitos ao coletivo ou sociedade em que estão inseridos. Essa é a grande diferença conceitual a respeito do que os teóricos de outras áreas (principalmente sociais) pensam sobre o individualismo metodológico, e sobre o que esse conceito realmente é.

A respeito do coletivismo, o autor deixa bem claro: um coletivo sempre opera por intermédio de um ou alguns indivíduos. Não é o Estado que te aplica uma multa de trânsito; é um guarda. Não é o corpo de bombeiros que extingue um incêndios; são os bombeiros. Portanto, caso seja do interesse, se quisermos saber qualquer coisa sobre um movimento, uma ação coletiva/social, basta estudarmos o indivíduo que o compõe. De fato, quando se analisa um movimento coletivista no Brasil, por exemplo o feminismo, basta analisar seus indivíduos. Veremos que a base marxista do movimento faz com que seu indivíduos que o compõe possuem traços de fascismo travestidos de “boas intenções e lutas por melhores condições”. Ainda nesse raciocínio, Mises elucida o fato de que é falho tentar estudar a ação humana a partir de entidades coletivas: um mesmo indivíduo, salvo exceções raríssimas, pertence a vários coletivos. Eu pertenço ao coletivo dos descendentes de italianos e de africanos, de homens, de universitários, de matemáticos, de héteros entre outros. Então, me analisar apenas pelo coletivo de homens ou de matemáticos é fazer uma análise superficial e errônea.

Mises é enfático, desde o início do livro, sobre a praxeologia. Talvez irritado com as interpretações errôneas ou deturpadas de terceiros. O autor fala que a origem da investigação praxeológica é a ação individual. Antes disso, a filosofia do universalismo não conseguia sanar problemas lógicos decorrentes de análises coletivas. Um exemplo clássico é a pergunta: “Por que o valor do ouro é maior do que o do ferro?”. Não há uma resposta metodólogica para esse problema. O ato de escolher é sempre uma decisão baseada em sua lógica particular; ele não escolhe entre vício e virtude, mas sim um modus operandis que consideramos virtuoso ou vicioso. O homem nunca escolhe entre o ouro e o ferro; ele escolhe entre uma determinada quantidade de ambos, ou seu valor de mercado etc. Nossa vida é regida por ações singulares, mas isso não quer dizer que são isoladas. Sob as palavras de Mises: “Toda ação tem dois aspectos. Por um lado, é uma ação parcial no conjunto de uma ação mais abrangente, a realização parcial de um objetivo maior. Por outro lado é, em si mesma, um todo no que diz respeito ao seu propósito de realizar apenas uma parte do objetivo final”.

Sobre o conteúdo da ação humana (fins pretendidos, meios escolhidos), o mesmo é determinado pelas qualidades intrínsecas do indivíduo. Esse fato reforça o fato de que movimentos coletivistas e marxistas estão redondamente enganados. Partir do pressuposto de um sujeito pertencer a um coletivo é um erro lógico ou desonestidade intelectual. Fazendo isso, você está ignorando o fato de que cada indivíduo possui um pacote único de qualidades, habilidades e fraquezas. Suas heranças históricas e biológicas são desprezadas nesse processo, o que é uma ofensa ao raciocínio analítico.

Um conceito interessante que Mises traz é o de homem comum. Um homem comum não reflete sobre grandes problemas; ele se apoia em autoridades, se comporta como um sujeito deve comportar-se; isso acontece porque o ambiente e suas heranças o moldam. O homem é um membro de uma família, de sua raça, de sua época. Poucos escapam de sua sina e destino. Seu cotidiano é a rotina; executa atos sem dar-lhes atenção. Mas isso acontece justamente por essa moldagem que sofre do meio em que vive. Exemplificando, Mises coloca o homem que vive em um local onde a água é limpa e abundante: ele a bebe despreocupadamente, pois sabe que a mesma é salubre. Agora, se esse mesmo indivíduo se muda para um local onde a água é poluída, provavelmente ele vai descobrir esse fato na prática, bebendo-a e contraindo algum mal. Ainda nesse exemplo, fica claro como a formalidade da praxeologia é consistente: “A praxeologia não se preocupa com o conteúdo variável da ação, mas de sua forma pura e sua estrutura categorial.”

Como comentado antes, o estudo da ação humana tem duas vertentes: a praxeologia e a história. Como podemos deduzir, a história tem no estudo relativo aos dados da ação humana o seu escopo. A afirmação de que a história é mostrar como os eventos aconteceram, sem sujeitá-los a valores e suposições, é impossível duplamente. Primeiro, porque a história não é uma reprodução intelectual, mas uma representação condensada do passado. Segundo, porque a história não é absoluta; o historiador não vai conseguir analisar os dados sem deixar que sua ideologia interfira na análise. Como o próprio Mises fala, e também nós podemos deduzir, as ciências apriorísticas como praxeologia e lógica matemática não possuem influência ideológica ou partidária. Já a história, por exemplo, não tem essa característica, pois sempre estará sob um julgamento de valor.

Ao historiador é impossível o ato de imparcialidade. Ele tem que discriminar, selecionar um fato e silenciar outro, orientado por seus preconceitos ideológicos. Ele sempre usa o conhecimento lógico, matemático, praxeológico para lidar com um conjunto de dados históricos; mas lhe é humanamente negada a habilidade de responder às questões colocadas, mesmo com essas ferramentas. Exatamente por ser negada também a capacidade de ser imparcial. A história é determinada pelas ações e efeitos dessas ações. O primeiro objeto é consistentemente explicado e estudado pela praxeologia; o segundo, é impossível com quaisquer que sejam as ferramentas. Os efeitos sempre estarão sujeitos ao julgamento da moral do indivíduo: para alguns, a ditadura foi um excelente período na história brasileira; para outros, foi terrível; para mim, apenas mais outro período autoritário criminoso. Em muitos casos, é possível avaliar os efeitos dos meios escolhidos, tanto do ponto de vista praxeológico quanto das ciências naturais. Mas muita coisa não poder ser elucidada por ambas.

Um conceito importante e que aparecerá muitas vezes é o de “compreensão”. Sob a significação de Mises, compreensão é: “o poder da mente humana de perceber ou apreender o significado de uma situação com a qual ele defronta. (…) compreensão é mais o resultado da percepção intelectual do que do conhecimento factual (…)”. É, basicamente, o método que os historiadores e pessoas aplicam quando comentam sobre o passado e futuro. A compreensão, portanto, é a percepção mental de fenômenos que não podemos elucidá-los completamente pela lógica, matemática, praxeologia ou ciências naturais. Mas também não pode contradizê-las.

Após introduzir o conceito de compreensão, vemos o conceito de concepção: “A concepção é a ferramenta mental da praxeologia; a compreensão é a ferramenta mental específica da história.” Nessa definição, percebemos que o conhecimento praxeológico é conhecimento conceitual, de proposições universais. Já o conhecimento histórico é peculiar, pontual em cada classe de eventos. Nesse contexto, Mises argumenta para que não se confunda a interpretação da história pelos historiadores sob seus vieses com distorção intencional dos fatos. Uma coisa é você contar uma história sob o seu ponto de vista; outra coisa é você contar uma história alterando-a de acordo com suas vontades. E, esclarecendo outro ponto, Mises aponta uma série de exemplos em que se cometem erros ao analisar fatos históricos com perspectivas não-históricas; vemos problemas de compreensão quando se coloca a religião ou etnia na interpretação de um fato histórico antigo, por exemplo.

Sob essa contextualização, o autor mostra a diferença fundamental entre praxeologia e as ciências naturais. As ciências naturais, podemos supor com um grau alto de certeza, que possuem constantes entre magnitudes, entre acontecimentos. O mesmo não acontece a respeito da ação humana. A estatística pode nos dizer que entre os anos X e Y houve um aumento de 10% no preço da batata e ao mesmo tempo uma diminuição de 8% no volume de colheita, em uma região Z. Perceba, dados estatísticos como esse também são dados históricos; com eles você não pode dizer nada a respeito da ação humana. Indo ao encontro dessa argumentação, Mises fala sobre o conceito da relevância e a impossibilidade de se chegar em um consenso quando a compreensão diverge com respeito a julgamentos de relevância. Por exemplo, dificilmente veremos historiadores com vieses divergentes (conservadores e liberais, por exemplo), concordarem com a relevância de certos dados e fatos históricos. Consequentemente, dificilmente veremos tais historiadores entrando em acordo.

É difícil não se render à genialidade de Mises no tópico em que ele aborda os tipos ideais. Segundo o autor, tipos ideais são “(…) conceitos específicos empregados na investigação histórica e na apresentação de seus resultados”. Da definição, concluímos que tipos ideais não são conceitos praxeológicos, uma vez que são conceitos de compreensão. O conceito de tipo ideal é, em suma, o resultado da compreensão dos motivos, ideias e objetivos de indivíduos. Por esse motivo é logicamente impossível relacionar tal conceito com dados estatísticos ou médias, e todos os eventos históricos são descritos e interpretados com base em tipos ideais. Consequentemente, o uso de um tipo ideal ou outro depende do modo que compreendemos os acontecimentos. Exemplificando, Mises coloca a interpretação da história sob a ótica nazista e sob a ótica liberal. Os tipos ideais de cada ótica são bem diferentes e resultam em histórias contadas de maneiras diferentes.

Mises também traz uma crítica consistente aos economistas clássicos. Estes tentaram miseravelmente desenvolver uma teoria geral humana, na qual procurariam explicar a teoria dos preços e valores. Porém, tais economistas esqueceram de colocar um objeto importante nos seus estudos: o consumidor final. É ele quem decide se o ouro é mais valioso que o ferro, mesmo sendo o último mais útil que o primeiro.

Sobre a economia, Mises faz uma breve argumentação. A economia é uma ciência apriorística, portanto não pode ser deduzida através do comportamento ou do mecaniscimo. Sobre o trabalho, o autor mostra o conceito de desutilidade do trabalho e como ele se relaciona com a ação humana. Obviamente, o lazer é preferível a todos nós, mas sabemos que se não produzirmos valor (trabalhando etc.), pereceremos. Portanto, Mises diz que a economia é a única parte estruturada da praxeologia. O autor é bem convincente a respeito dessa definição quando fala: “Todos os teoremas de economia são necessariamente válidos, sempre que ocorrerem as premissas por ele adotadas.” Portanto, não importa como seja a situação, se ela estiver sob as premissas de um teorema econômico, ele será válido. E mesmo que tal situação nunca ocorra, isso não o torna menos válido.

Mises fixa a relação entre praxeologia e economia, e dessa relação argumenta fervorosamente contra muitos aspectos que percebemos que hoje estão instaurados. O controle de preços, a tentativa de uma troca direta de produtos etc. Até mesmo as deturpações que chamam de “economia histórica”. Com um bom tom de ironia, Mises afirma: “De fato, a história econômica é um extenso registro de políticas de governo que falharam porque foram elaboradas com um imprudente desrespeito às leis da economia”. Por esse motivo, um economista jamais será bem visto por um político ou corporativista.

O capítulo se encerra falando sobre as limitações da praxeologia. A definição da praxeologia, o estudo da ação humana, é aplicável apenas à esta. Toda situação em que nos deparamos, seja na teologia ou em outras situações não-humanas, os teoremas e conceitos praxeológicos não são válidos.

Autor do resumo: Raul Oliveira.
Resenha do segundo capítulo do livro Ação Humana, um tratado de economia
Autor: Ludwig Von Mises, Vide Editorial, 4ª edição, 2015.

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