banner
3 meses atrás
454 Visualizações
4 0

Resumo do Capítulo I de Ação Humana – O Agente Homem

Escrito por
Compartilhe:

O capítulo se divide em seis tópicos. Durante todo o capítulo é apresentada uma crítica ao positivismo, ao behaviorismo e ao mecanicismo. Tais ciências buscam estudar a ação do homem como um estímulo a fatores externos, ou mesmo suas causas como “naturais”, “racionais” ou “causais”. A praxeologia, como afirma o autor insistentemente, é o estudo da ação humana. Independente de seus objetivos, motivos, razões. A ação humana, como define o autor, é um comportamento propositado; baseando-se nesta definição, há uma série de observações feitas por Mises. Como por exemplo, trabalho é um caso particular da ação; portanto, renunciar em fazer algo também é uma ação.

O conceito de felicidade que é apresentado pelo autor também permite criar uma ponte com a definição de ação. Segundo o autor, um indivíduo “feliz” é aquele que atingiu seus objetivos. Abusando de um rigor, é dito que um indivíduo é “mais feliz” do que estava antes. Portanto, a descrição mais adequada sobre esse comportamento seria que a ação do homem é tida pelo que ele faz para se livrar de um incômodo, de uma aflição, ou para obter algum sucesso, objetivo. Ainda mais, também seria uma ação a abstenção do indivíduo em fazer algo, caso o referido analise e julgue a situação como impossível de se realizar, ou ao menos que seu “custo-benefício” não valha a pena. E também, sob as próprias palavras do autor é definido o impulso ou incentivo a uma ação: “O incentivo que impele o homem à ação é sempre algum desconforto”

Ainda sobre a definição de felicidade, Mises traz uma crítica implícita aos movimentos coletivistas. No trecho: “Ninguém tem condições de determinar o que faria alguém mais feliz”, o autor mostra que o julgamento de terceiros sobre a finalidade de suas ações não passa de mera especulação e, em casos extremos, em atitudes autoritárias. Além disso, o autor traz a seguinte afirmação tautológica: “o único objetivo do homem é alcançar a felicidade”. Tautologia é uma proposição lógica na qual, independentemente de suas premissas assumirem valor verdadeiro ou falso, ela sempre será verdade. É bem trivial perceber que, não importa o que o homem faça na sua vida, ele sempre o fará buscando a felicidade. E para ele saber o que é felicidade, ele precisa ter a ciência de que seu estado atual pode ser melhorado, ou há algo que o incomoda. Para mudar esse fato ele precisa agir.

Algumas vezes, quando cometemos algum erro ou fazemos algo que nos arrependemos posteriormente, chamamos esse ato de instinto. Segundo o autor denominamos ações que levam a fins não esperados, uma “frustração”. A ação humana, por mais equivocada que seja, ainda é uma atitude pensada e, não importa seus fins, os meios foram pensados. Ainda que equivocadamente. Já quando formaliza a definição do que é um instinto e um impulso, Mises mostra que todo instinto é um instinto para a felicidade. E mais, também é justificado o fato que, por mais profundos e obscuros que sejam nossos instintos, os meios que escolhemos para satisfazê-los são feitos de uma forma racional. Essa é a grande diferença entre o homem e os outros animais. Um homem consegue, por exemplo, julgar que sua vida é desnecessária e um fardo para o mesmo; ele pode escolher um suicídio. Animais agem instintivamente para viver, não importa a situação. Sob as palavras do autor: “É capaz de renunciar à satisfação de um impulso ardente para satisfazer outros desejos”.

Um conceito bem interessante que o autor traz ao longo do capítulo é o de dado irredutível. O fato irredutível é aquele que, uma vez descoberto, é impossível ser negado ou provado por outras premissas, pois será sempre pressuposto em uma prova. Nesse contexto, a ação humana é um dado irredutível, assim como nossos próprios propósitos de origem e fim. Até o presente momento não é possível ter uma explicação clara das relações entre o corpo e a mente, portanto julgamentos concretos de valor e ações humanas não são passíveis de maiores análises. Então, a conclusão é que a ação humana é um dado irredutível, uma vez que ela estuda o meio e não o seu fim e, além disso, sua construção lógica supre as necessidades que surgirão para a construção da praxeologia.

Como já fora comentado nas entrelinhas, a ação humana é sempre racional. Como o próprio autor fala: “O termo ação racional é pleonástico”. Aqui é, mais uma vez, evidenciada a diferença entre o homem e os demais animais que não possuem uma racionalidade. O ponto chave desse tópico é o tratamento cuidadoso que Mises dá ao termo comportamento racional. O autor mostra que o oposto de ação não é um comportamento irracional, mas a resposta automática para algum incômodo. O exemplo que ele traz elucida quaisquer dúvidas que possam haver: quando você é picado por uma cobra, duas coisas podem acontecer. Seu organismo começar a fabricar anticorpos para tentar conter o agente venenoso e também você pode procurar uma ajuda médica. A primeira ocorrência é uma resposta automática: não depende de você decidir se seu corpo vai produzir anticorpos ou não; ele simplesmente irá fazê-lo. Já a segunda ocorrência é uma ação genuína: você pensa racionalmente em ir ao hospital pois sabe que, caso contrário, possui boas chances de morrer. Ao fim, Mises nos traz uma nova definição sobre o dado irredutível: um fato irracional. Esse termo me agradou mais, particularmente, pois engloba o segundo. Um fato é, a priori, uma verdade inegável. Irracional é algo que não podemos explicar, ainda. Portanto, um dado irredutível é, de fato, um fato irracional.

A causalidade é trazida pelo autor como um requisito da ação. E, de fato, essa afirmação é logicamente verdadeira. Um homem não executa uma ação sem ser afetado por um incômodo, ou mesmo deixa de agir em certos momentos se for atingido por situações incomuns. Portanto, a ação necessita de algo que impulsione uma motivação para a mesma. Os problemas que envolvem a ação como física, mecânica, biologia, filosofia etc., estão fora da alçada da praxeologia. O que está no campo da praxeologia é o fato de que tais problemas são necessários para a motivação de uma ação. A causalidade, portanto, é o objeto de estudo da praxeologia que embasa toda ação. E essa definição, portanto, mostra que a ignorância total ou parcial em algumas áreas não elimina a categoria da causalidade. Quantas vezes nos deparamos com pessoas falando sobre assuntos que não possuem gnose alguma?

Mises traz uma importante observação que há muito tempo fora esquecida por ativistas de movimentos coletivistas e marxistas: pensar e agir são características próprias do homem. Em decorrência desse dado irredutível, a mente humana só consegue compreender um tipo de ação; a ação lógica. Sob as palavras do autor: “É impossível à mente humana conceber relações lógicas diferentes da sua estruturação lógica”. Por mais que a lógica seja intrinsecamente ligada ao indivíduo, podendo esta ter variações gigantescas de indivíduo para indivíduo (exemplos não faltam: enquanto que, para alguns, movimentos coletivistas sejam necessários e trazem benefícios, para outros o individualismo é a melhor opção para conseguir melhores condições de vida), ele não pode agir fora de sua zona lógica.

O fato de que há apenas duas vias para a pesquisa humana, causalidade ou teleologia, é demonstrada pelo autor. Teleologia possui a seguinte definição: “qualquer doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza e a humanidade, considerando a finalidade como o princípio explicativo fundamental na organização e nas transformações de todos os seres da realidade; teleologismo, finalismo.” Causalidade, sob a significação de Mises, é o elemento impulsor da ação humana; a praxeologia. É fácil ver que as duas vias são disjuntas e que não há uma produção científica sequer que não use uma dessas vias. Mises também traz algumas críticas à teleologia, principalmente ao behaviorismo e ao mecanicismo (doutrina filosófica, também adotada como princípio heurístico na pesquisa científica, que concebe a natureza como uma máquina, que obedece a relações de causalidade necessárias, automáticas e previsíveis, constituídas pelo movimento e interação de corpos materiais no espaço).

Por fim, o autor finaliza o capítulo reforçando a definição de praxeologia. Talvez esse seja o maior mal-entendido sobre a ciência que estuda a ação humana. Quando eu ainda caminhava por entre revistas, blogs e sites de esquerda (ou até mesmo da pseudodireita), sempre me deparava com citações de Mises e supostas refutações às mesmas. Mas eu não lembro de uma citação qualquer que trouxesse a definição exata de praxeologia. Sempre tentavam colocar os fins como objeto de estudo, não os meios. Quando se entende a real definição da praxeologia, se entende toda a posterior argumentação e tratado que Mises nos deixou. Caso contrário, não fará muito sentido e, como vemos em lógica, tudo o que você afirmar sobre praxeologia parecerá verdadeiro tautologicamente. Mas isso é um engano.

Autor do resumo: Raul Oliveira.
Resenha do primeiro capítulo do livro Ação Humana, um tratado de economia
Autor: Ludwig Von Mises, Vide Editorial, 4ª edição, 2015.

Compartilhe:
Categorias dos artigos:
Economia
banner
Foto de perfil de Diversos Autores

Espaço reservado para autores diversos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *