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Praxeologia e Pseudociência: Uma Resposta ao Douglas Rodrigues

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Douglas Rodrigues (fundador da página Universo Racionalista) conseguiu escrever um dos piores textos sobre epistemologia em ciências humanas que já li na vida. E vejam vocês que, numa faculdade de Ciências Sociais, já tive oportunidade de ler barbaridades a perder de vista.

O texto em questão tem um objetivo claro e já definido no começo: “A ideia deste texto não é discutir a cientificidade do marxismo e nem validade do modelo socialista na política atual, mas apenas em denunciar a praxeologia como uma pseudociência…” Very well! A ideia deste texto aqui é jogar lama na denúncia por se tratar de uma demonstração da incompetência em denunciar o que quer que seja a respeito do que não se entende.

Vejamos.

O texto inicia buscando definir pseudociência e já desmontar uma possível objeção. Segundo Rodrigues, uma pseudociência “é aquela área do conhecimento que possui uma epistemologia de caráter inverificável” e “pseudociências não precisam ter pretensões claras de serem ciências”. Rodrigues provavelmente levantou a segunda afirmação já por “segurança” para o caso de alguém buscar argumentar que a praxeologia jamais buscou o estatuto de ciência. Ambas as afirmações, entretanto, são falsas e dentro do esquema argumentativo formam um falso dilema.

Primeiramente, ainda que uma pseudociência não careça de uma reivindicação expressa de seu caráter científico, ela só pode ser classificada como pseudociência na medida em que pretenda ser científica, ainda que de forma implícita. Da mesma forma com que só podemos ser pseudo-“algo” na medida em que a identidade deste “algo” nos apeteça ou nos pareça. Um jogador de vôlei não é um pseudo-jogador de futebol, é um jogador de vôlei em direito próprio. Afirmações ufológicas, videnciais, quiropráticas, dentre outras, recaem nessa categoria. Reivindicam para si a capacidade de falar sobre aspectos da realidade sob o escopo de áreas bem definidas da ciência como a biologia, a medicina, a física, etc, mas não subordinam suas afirmações à verificação dessas ciências.

Esclarecendo o segundo ponto, podemos retroagir e perceber como ele reforça o falso dilema exposto na primeira afirmação. Nem toda área de conhecimento desprovida da verificação empírica (que Rodrigues erroneamente parece equiparar à verificação latu sensu) se classifica como pseudocientífica. Nem a Matemática, nem as Ciências Jurídicas e nem mesmo a Filosofia (e aqui incluímos sua vertente Empiricista, ironicamente) possuem verificabilidade de seus princípios. É aqui que situamos a Praxeologia. Ela não é uma ciência, mas um mecanismo através do qual as ciências sociais (e não apenas a Economia) podem se desenvolver. Rodrigues faz um espantalho das outras áreas do pensamento humano, caracterizando-as como ‘pseudocientíficas’ na tentativa de jogar a praxeologia nesse saco. Mas joga o bebê fora com a água do banho, já que essa caracterização de pseudociência impossibilitaria o desenvolvimento da própria ciência.

O show de absurdos prossegue quando Rodrigues busca descrever a Praxeologia. Douglas incorre em outra falácia do espantalho e isso lhe conduz a outro falso dilema (Nota: que o leitor não se espante com o que pareça ser uma esquematização proposital das falácias e daí se deduza uma falha de caráter em Rodrigues. É próprio do Espantalho, produzir falsos dilemas e as tentativas de fazer a realidade se encaixar num esquematismo dualista geralmente obriga à estereotipação dos objetos a se definir).

O novo espantalho consiste em afirmar que a praxeologia é usada ao invés dos estudos científicos na área da ciência econômica, o que não faz o menor sentido. Propor que usemos estudos empíricos na ciência econômica ao invés da praxeologia, é como propor que usemos a estatística ao invés da matemática. A hipótese dedutiva apresentada por ele como definição da praxeologia, (“os seres humanos possuem comportamentos propositais” e daí se deduz que “os seres humanos se envolvem em atos de escolha [o que] implica que eles têm preferências”), não é algo que possa ser afirmado ou negado pelo teste empírico. É uma afirmação axiomática e auto-evidente. A própria ação do Douglas Rodrigues já é proposital e implica uma preferência, ele busca nos convencer (propositalmente) de que a praxeologia é uma pseudociência e prefere que nos convençamos. Pro azar dele, ele não só falhou como me deu brechas para refutá-lo.

Em outras palavras, dizer que austríacos “continuam usando a hipótese praxeológica, ao invés de estudos empíricos, para determinar os princípios econômicos”, é um perfeito nonsense. É não saber do que se está falando. Os princípios de uma ciência que tenha por objeto os efeitos e o desenrolar da ação humana, precisam ser determinados ANTES do estudo empírico, pelo método dialético-analítico, e podem e devem ser testados quanto à inferência e as deduções produzidas desses princípios. Não há oposição possível entre as duas coisas.

Rodrigues ainda insiste nessa tese estapafúrdia com uma série de afirmações infundadas. Vejamos quatro:

  • “…muitos libertários ainda defendem a cientificidade da mesma e ainda se rotulam praxeologistas (eu diria, pseudocientistas!), mesmo tem sido demonstrado inúmeras vezes que sua epistemologia é pseudocientífica (uma pseudociência de origem libertária)”

 Quem demonstrou? Certamente não Douglas Rodrigues.

  • “Mises nega a própria realidade, e rejeita o método científico nas ciências humanas e sociais na construção da praxeologia”.

 Mises não faz nem uma coisa nem outra. Discutir questões conceituais PRÉ-empíricas, como a natureza e a aparência do objeto a ser estudado, ambas questões em discussão ANTERIOR à aplicação de qualquer empiria, não é uma negação mas uma EXIGÊNCIA do método científico. Douglas aparentemente só entende de método científico aquilo que foi adestrado para executar.

  • “Mises tenta estabelecer “leis” imutáveis a partir de um único axioma (axioma da ação)”

 O axioma é único, mas suas implicações e aplicações são inúmeras. Vide a Teoria dos Jogos, aplicação prática da lógica da ação num ambiente comportando diversos agentes com interesses hora conflitantes, hora complementares.

  • “Além dele ter acrescentado hipóteses ad hocs e ter argumentado através de Ipse Dixit (falácia lógica: argumento pela afirmação)”.

 Guardei o melhor pro final. Ipse Dixit sr. Douglas Rodrigues? Nada parecido com o que você fez até agora, não é? Eu gostaria bastante que o Douglas se dignasse a vasculhar a obra de Mises (que claramente não leu) e me informasse onde ele encontra essas falácias. Eu poderia acrescentar e pedir uma exposição formal das falácias contidas nas proposições de Mises, mas seria pedir demais.

Prosseguindo.

“Apesar de admitir a possibilidade de explicações materialistas, ele argumentava que os pressupostos do dualismo e da livre-vontade são necessários para uma “ciência” da ação humana (resumindo: ele falou com palavras bonitas que devemos enaltecer explicações metafísicas de caráter inverificável para que sua “ciência” funcione. Porém, o nome disso se chama pseudociência!)”.

Ué, e onde é que está a explicação empírica do materialismo? Alias, onde é que está a explicação empírica do próprio empiricismo? Ele não percebe que sem aporte racional A PRIORI nenhuma teoria científica e nem mesmo a própria ciência tem validade qualquer.

Não, meu caro, isso não se chama pseudociência. Pseudociência é o discurso que se pretende científico (não no conteúdo, mas na forma) mas carece das condições básicas, verificabilidade sendo apenas uma delas. Os princípios da Praxeologia não são verificáveis pois são auto-evidentes, decorrem necessariamente da própria ação de refletir sobre eles e suas negações incorrem em auto-contradições precisamente pelo mesmo motivo. Rodrigues não sabe distinguir a ciência (e, aparentemente, só a ciência experimental) de outras áreas do pensamento humano, que podem não ser ciências no sentido popperiano, mas tão pouco são pseudociências, como a Filosofia e a Matemática e mesmo as Ciências Jurídicas. Só posso deduzir que pela razão mais óbvia de não entender absolutamente nada sobre elas. Uma demonstração bastante evidente do Efeito Dunning-Krugger.

“Mises ainda fugiu do problema ao fazer uma distinção clara entre “ação” e “instinto” que não existe na psicologia e na ciências cognitivas”.

Essa afirmação é só decorrência dos equívocos anteriores. Como eu já expliquei, Praxeologia , como princípio e método, não é uma teoria científica nem guarda essa proposta em sua estrutura. O quê, ao contrário do que Rodrigues diz, é de importância essencial para se atestar o caráter pseudocientífico de uma afirmação e é coisa bem mais profunda que a simples ausência de ‘afirmação em cartório’.

As categorizações feitas por Mises entre Ação e Instinto são abstratas e conceituais. O que isso significa? E, mais, o que isso NÃO significa? Primeiramente, que sua aplicação no entendimento de cada caso concreto não pode ser feita de maneira modal. Nenhuma atividade humana é somente “Ação” e nenhuma é somente “Instinto”. Mesmo a mais instintiva das atividades possui um caráter agencial e uma finalidade que se expressa por meio de uma racionalização da própria atividade. Por exemplo, mesmo a reação diante de um perigo eminente se orientar a uma finalidade (livrar-se do perigo) e por meios racionalmente apreendidos (rotas de fuga disponíveis, dos quais se tenha ciência, ou mecanismos de combate que estejam à mão). Vice-versa, qualquer planejamento, por mais frio e calculista, obedece a finalidades que só figuram enquanto tais por conta de gostos e preferências gravadas de modo subconsciente; desejo de poder, de amor, de atração sexual, de distinção social, gostos e preferências, etc.

Para a Ciência Social essa distinção é invencível, nem a praxeologia nem qualquer alternativa a ela estão dentro daquilo que podemos apreender de modo empírico pela observação social. Pelo contrário, é ela (ou suas alternativas) que conferiram embasamento para que se analisem qualitativamente os dados coletados, em sua expressão quantitativa ou significativa. A Ciência Social está, portanto, obrigada a duas opções: ou adota a praxeologia ou a rejeita em prol de outra visão, mas essa escolha não pode comprovar de uma ou outra no campo empírico, sob pena de incorrer em petitio principi ou em afirmação do consequente.

Se para a Ciência Social essa subordinação conceitual é inevitável; para a Psicologia ela é irrelevante. A distinção entre Ação e Instinto não interfere em nada na seleção ou estudo da psicologia humana, ao contrário, lhe confere clareza. Quer privilegiem o Instinto (como correntes deterministas), quer a Ação (como correntes voluntaristas), seu estudo é feito, na melhor das hipóteses, de modo independente desse esquema conceitual e serve para, posteriormente, modular sua aplicação nos casos concretos como já descrito acima.

Finalizando. Como dito acima, me parece que o Douglas Rodrigues incorre num caso agudo de Efeito Dunning-Krugger. Eu recomendo fortemente que ele estude um campo sério do conhecimento humano antes de sair tagarelando novamente, e pare de usar a Wikipedia como fonte bibliográfica.

 

Autor: Italo Lorenzon

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