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3 meses atrás
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Por que o anonimato online assusta os progressistas?

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Os Estados Unidos, como conhecemos hoje, nasceram num debate anônimo

Em 27 de setembro de 1787 um escritor anônimo, usando o nome fictício “Cato”, escreveu um ensaio para a imprensa de Nova York criticando a constituição proposta para os EUA, que estava então aguardando ratificação pelos Estados. Advertindo contra um executivo bastante poderoso e o estabelecimento de um exército permanente, o ensaio logo despertou uma resposta de “Publius”, outro autor usuário de pseudônimo, que argumentou a favor da nova constituição. Até lá, um terceiro crítico, usando o pseudônimo “Brutus”, também tinha entrado no debate.

Por trás do giro de pseudônimos ao redor da mídia estavam algumas das maiores mentes da época: George Clinton, Robert Yates, Alexander Hamilton, James Madison e John Jay. A coleção completa dos ensaios deles é agora conhecida como Os Artigos Federalistas e Os Artigos Antifederalistas, e a discussão deles capturou a atenção da sociedade americana. Finalmente, o debate levou ao rascunho do Bill of Rights.

Historiadores ainda discordam sobre o motivo muitos intelectuais da era do iluminismo escreverem sob nom de plumes (pseudônimos). Para alguns, foi para escapar da perseguição estatal. Voltaire, cuja identidade real era conhecida, foi preso várias vezes pelo governo francês por causa de suas críticas afiadas sobre a aristocracia.

Para o filósofo alemão Fichte, anonimato significava que ideias e argumentos seriam julgados baseados no mérito, não no caráter ou reputação de seus autores. “Ataques duros naqueles que pensam diferente servem apenas àqueles que não podem confiar na força da própria razão”, escreveu Fichte. Comentadores anônimos no reddit e no 4chan sem dúvida concordariam.

Os federalistas tinham um receio mais mundano. Dada a força do sentimento cercando o debate, eles estavam preocupados de que revelar suas identidades afetasse perigosamente seus empregos. Mais de duzentos anos depois, com figuras tão talentosas quanto Brendan Eich perdendo seus trabalhos nas mãos do politicamente intolerante, essa é uma motivação que permanece altamente compreensível.


O Medo Progressista do Anonimato

Apesar de sua importância para a evolução das sociedades livres, ou talvez por causa disso, o anonimato é intensamente destestado pelos comentaristas progressistas e modistas de hoje. Lance Ulanoff, editor influente da Mashable, recentemente argumentou que o anonimato deveria ser abolido por toda a internet. O queridinho SJW (justiceiro social) Wil Wheaton requisitou o mesmo para jogos online. A acadêmica feminista Danielle Citron quer que empresas da web removam o “privilégio” do anonimato à vontade.

Até eu uma vez escrevi uma coluna nessas linhas antes de cair a ficha e perceber o valor do debate online anônimo ou por pseudônimo.

Centros da cultura anônima, como o reddit, 8chan e 4chan são os temas de narrativas particularmente assustadoras. O 4chan é descrito como “a latrina da internet”, o 8chan é um “fórum de trolls” e o Reddit é “um buraco negro de racismo violento pior do que o Stormfront”.

O comentário não é apenas criticismo deslocado. Muitos dos escritores tomam parte numa retórica horrorizada e hiperbólica, apresentando comentadores anônimos como perigosos malfeitores que precisam de punição. Ulanoff rotulou os críticos anônimos da ex-CEO do Reddit de “Covardes sub-humanos” que “vomitam ódio”, e encorajou o Reddit a gravar seus endereços pessoais. Acrescentar responsabilidade do mundo real ao Reddit, de acordo com Ulanoff, é a única maneira de parar seu “conteúdo nojento, odioso e racista.”

Mas os críticos de Pao não eram racistas. Eles estavam preocupados com a liberdade de expressão e se ressentiram com a ex-CEO por ela ter enfraquecido o comprometimento anterior do site com esse ideal. O uso que Ulanoff faz da palavra “racista” tipifica o modo progressista do discurso: discussão (ou argumento) via letras escarlates, constrangimentos e “ismos” ao invés do debate robusto.

Com colunistas influentes jogando para todo lado alegações que destroçam carreiras de forma tão casual, não é de se espantar que usuários do Reddit e 4chan estejam tão incertos de abandonar seus anonimatos.


Liberdade de Consequências

Eles estão certos em temer. Um refrão constante dos críticos progressistas do anonimato é a necessidade de impor severas penalidades sociais e econômicas em discursos indesejados. Will Wheaton resmungou que o anonimato quer dizer que as pessoas estão “inimputáveis por suas palavras e atos.”

O colaborador e cupido ocasional do Daily Beast, Arthur Chu ressaltou que, se o anonimato se tornou uma “ferramenta útil para eliminar consequências sociais”, então era um “bug” que deveria ser concertado. É um argumento bem relacionado com outro meme progressista: “Liberdade de expressão não significa liberdade de consequências.”

Cave um pouco mais fundo e você encontrará exatamente que tipo de consequências eles querem. Ano passado, ambos, Chu e Wheaton, aplaudiram a defenestração de Brendan Eich, o breve CEO da Fundação Mozilla que foi forçado a se demitir por causa de sua doação à campanha contra o casamento gay em 2008.

“Nós temos ouvido muito, recentemente, sobre o que constitui ‘ir longe demais’ quando se trata de responsabilizar pessoas por suas crenças ofensivas,” escreveu Chu, de modo debochado. “Muita coisa sobre ‘liberdade de expressão,’ muita coisa sobre ‘tolerância’, muita coisa sobre ‘o politicamente correto estar descontrolado’”

Nem todos os colunistas inclinados à esquerda estavam satisfeitos. Na Slate, William Saletan escreveu que os perseguidores de Eich eram a “nova moral majority”[1] que tinha “esquecido o que é liberalismo.”. Na The Atlantic, uma antiga defensora do casamento gay, escreveu que a caça a Eich “violou valores liberais” e teria um “assustador efeito no discurso político.” É importante notar que nenhum desses escritores são líderes de torcida para o fim do anonimato. Chu e Wheaton são.

Progressistas estão falando sério sobre fazer seus oponentes políticos temerem pelo próprio sustento econômico. Em dezembro de 2014, a artista por trás de Plebcomics, uma popular série de quadrinhos zombando os “social justice warriors” extremos foi exposta por um ativista que clamava representar “grupos oprimidos e marginalizados”. O empregador da artista foi inundado com e-mails exigindo que ela fosse demitida e ela foi logo forçada a se retirar. Apenas uma campanha de contra-ataque de último minuto feita pelos fãs da Plebcomics permitiu que ela mantivesse o emprego.

Não há punching up[2] a ser encontrado aqui. Os progressistas querem que todos, de CEOs da tecnologia a cartunistas da internet, temam o tiro pela culatra social e financeiro pelo tipo errado de expressão. Não é de se admirar que o anonimato, utilizado por dissidentes como um escudo contra a moderna caça às bruxas, tenha virado um alvo.


Dê uma Máscara ao Homem

O cenário pode não ser o mesmo, mas as motivações dos federalistas e dos dissidentes anônimos de hoje não são tão diferentes. Naquela época, assim como agora, alguns assuntos políticos eram considerados de modo muito pessoal e profissionalmente perigosos para ser debatidos em público. Apesar dos melhores esforços dos pluralistas liberais, a popularidade duradoura do anonimato é um sinal que, não importa a era, sempre haverá um contingente da sociedade que busca punir os outros por suas opiniões.

Muitos dos artigos escritos com mãos tortas sobre “trolls anônimos” citam a estabelecida teoria da desinibição online, a qual descreve o abandono de inibições e restrições na fala que ocorre quando as pessoas sentem-se livres para falar sem consequência. Segundo os críticos, essa é a causa das nojeiras online.

Mas tudo o que a teoria realmente mostra é que, dada a chance, as pessoas irão questionar e mesmo violar muitas das convenções sociais e códigos de linguagem que governam as interações face a face. A menos que seja argumentado que todas as normas sociais de hoje são infalíveis, é difícil montar o caso de que isso não é algo bom. Afinal, as heresias de uma geração frequentemente se tornam as ortodoxias da próxima.

Pessoas comuns são atraídas ao anonimato porque ele as dá o espaço para discutir, colaborar e criar longe dos olhos espreitadores das elites culturais, usuários de safe space e puritanos. As pessoas sentem-se mais livres para discutir tópicos controversos, lançar piadas controversas e elaborar memes controversos quando estão confiantes de que não há um blogueiro do Gawker olhando por cima de seus ombros, ameaçando envergonhá-las publicamente, como aconteceu à Justine Sacco.

Para as elites culturais progressistas que desejam duras consequências ao desacordo, a web anônima é um lugar terrível. Como os salões na era da França revolucionária, quem sabe o que emergirá deles ?

Por Allum Bokhari & Milo Yiannopoulos


Notas:

[1] Moral Majority foi uma organização política americana associada com a direita cristã e o Partido Republicano. Foi fundada em 1979 pelo ministro da igreja batista Jerry Falwell e seus associados, e se dissolveu no fim dos anos 80. Ela teve um papel fundamental na mobilização de cristãos conservadores como força política e principalmente pelas vitórias do Partido Republicano na década de 80.

[2] Uso de poderosas técnicas de criticismo e retórica com o objetivo de criticar e desmantelar estruturas de poder ao invés de atingir pessoas com menos poder do que você.

Tradução: Yuri Mayal | Revisão: Renan Poço | Texto original aqui.

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