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Os dois erros do gradualismo

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O movimento libertário pode ser dividido em duas classes: os radicais e os gradualistas. Os radicais reivindicam a abolição imediata do estado, ao passo que os gradualistas advogam uma retalhação gradual do Leviatã, propondo degraus a serem um por um galgados e, sobretudo, adotando um discurso moderado para não assustar os ouvintes. Pretendo apontar aqui os dois erros dessa postura covarde.

Em primeiro lugar, o gradualismo libertário precisa ser inconsistente em si. O austrolibertarianismo é uma teoria da Justiça que consagra irrefragavelmente o direito de propriedade como um direito absoluto, de modo que toda forma de violação dele é rejeitada. Ao aceitar parte da atividade estatal e, assim, aceitar parcialmente as agressões perpetradas pelo estado, ele contradiz o princípio da não agressão implicado no direito absoluto de propriedade. Não é possível defender, sem patente contradição, o absolutismo do direito de propriedade – nota essencial do austrolibertarianismo – e aceitar a existência do estado em qualquer medida. Aceitar e defender são posturas distintas, mas o rejeitar se opõe a ambas. Portanto, para se adotar a posição gradualista sem ser incoerente consigo mesmo deve-se abrir mão de ser um libertário. Um gradualista que se diz libertário está meramente confuso.

O segundo erro é estratégico, o que é inadmissível, uma vez que o gradualismo gaba-se de ser uma posição superior ao radicalismo justamente do ponto de vista da estratégia. Sucede que toda mudança sociopolítica substancial requer o apoio ou ao menos a aceitação da opinião pública. Desse modo toda filosofia política tem a preocupação de difundir as ideias cuja aceitação se faz necessária para sua própria instauração. No entanto, a menos que você controle a grande mídia, essa necessária mudança da opinião pública será sempre lenta e gradual – exceto, é claro, se as ideias divulgadas ameaçarem os próprios senhores do establishment, caso em que haverá censura rápida e inclemente. Por óbvio, não é o discurso libertário que ameaça o establishment. Para descobrir o verdadeiro discurso ameaçador, basta saber do que ou de quem não se pode falar sem grande risco, conforme a sábia lição voltairiana. Retornemos ao nosso assunto: a mudança é sempre gradual, por sua própria natureza. Mas o discurso bunda-mole covarde dos gradualistas, que feito garotinhas de 12 anos têm medo de não serem aprovados pelas pessoas ou de serem por elas rechaçados, medo talvez de ficarem sem a bajulação dos amigos esquerdistas, esse discurso não contribui em nada para a mudança sociopolítica substancial. As coisas ficam exatamente como estão. Em contrapartida, o discurso radical, que nada mais é do que falar a verdade, representa um vetor forte em direção à desejada mudança. O gradualismo não altera o cenário, enquanto que o radicalismo o altera gradualmente.

O radicalismo não rejeita pequenas mudanças, como reduções de impostos. Ele as apoia, mas nunca se mostra satisfeito. Continua denunciando o escândalo que é a própria existência dos impostos e reivindicando sua abolição agora mesmo. Sabemos que o estado não se desmantelará agora mesmo, mas ao falar assim estamos ajudando o processo a andar. O radicalismo também não envolve expor as ideias de maneira bizarra e impopular. A defesa da verdade pode ser feita sim de maneira tempestuosa, mas também de modo carismático e brando. O radicalismo, desse modo, não precisa ser assustador. Pode mesmo atrair, na medida do grau de eloquência daquele que estiver falando em sua defesa.

Com isso nós varremos qualquer possibilidade de justificação racional para o gradualismo. Quem for desonesto e adotá-lo o fará por motivos meramente políticos ou por ser um bunda-mole que treme diante de olhares tortos de colegas e conhecidos. Do ponto de vista lógico, é sem consistência. E do ponto de vista estratégico, é sem eficácia, quando não contraproducente.

Notas:

I) Quem quiser ver na íntegra a conversa que destacamos na capa, baixe aqui: A Queda do IMB I e A Queda do IMB II.

II) Em resposta para o presidente do Instituto Mises Brasil, o Sr. Helio Beltrão, deixamos um trecho onde o próprio Mises trata sobre a secessão e não fala nada sobre “a hora certa” de se falar sobre secessão:

“O liberalismo não conhece nenhuma subjugação, nenhuma anexação; assim como ele é indiferente ao próprio estado, o problema do tamanho do estado também lhe é indiferente. O liberalismo não obriga ninguém a se manter contra a sua vontade dentro da estrutura do estado. Quem quiser emigrar ou viver em uma legislação própria não deve ser impedido. Quando uma fatia da população quiser deixar de pertencer a uma união, o liberalismo não irá impedi-la de consumar tal propósito. Colônias, cidades ou distritos que quiserem se tornar independentes estão livres para fazê-lo. Uma nação é uma entidade orgânica e, como tal, não pode ser nem aumentada nem reduzida por mudanças na formação de seus estados; o mundo como um todo não é prejudicado por esse novo arranjo.”

(Ludwig von Mises, “Nation, State, and Economy, páginas 39 e 40)

 

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João Marcos Theodoro é acadêmico de Direito da FAESA.

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