banner
7 dias atrás
2455 Visualizações
3 0

O problema com o anarquismo socialista

Escrito por
Compartilhe:

O novo filme “V de Vingança” tem provocado uma discussão pública sobre o significado de anarquismo. Murray Rothbard foi um defensor da sociedade sem estado, mas nunca foi aceito pelo movimento anarquista e ainda é considerado mais como um “lacaio capitalista” do que como um pensador anarquista. De fato, o anarcocapitalismo sempre foi considerado um oximoro pelos autoproclamados “verdadeiros” anarquistas.

Parte da razão é a inabilidade geral de entender diferentes usos e definições de palavras nas tradições socialista e liberal clássicas. Socialistas se referem ao “capitalismo” como o sistema no qual o estado entrega e protege os privilégios dos capitalistas – e, portanto, a opressão dos trabalhadores. Eles não veem que o capitalismo, na tradição do liberalismo clássico, significa na verdade um livre mercado baseado em pessoas livres, i.e., trocas de valor voluntárias entre indivíduos livres.

Uma razão mais interessante e profunda são as raízes socialistas do anarquismo. Como mostrado no, e.g., Anarchist FAQ, a maioria – se não todos – os pensadores anarquistas históricos tinham orgulho de anunciar que suas ideias pertenciam à tradição socialista progressista. O “pai fundador” do anarquismo, Pierre-Joseph Proudhon, era socialista; os anarquistas individualistas americanos do século XIX frequentemente diziam ser socialistas; e os anarquistas comunistas russos Mikhail Bakunin e Peter Kropotkin eram obviamente socialistas.

Entretanto, houve alguns poucos anarquistas que não eram explicitamente socialistas, mas eles eram poucos e relativamente desconhecidos, isso quando não eram sequer aceitos como anarquistas. O egoísta alemão Max Stirner conseguiu, de alguma forma, se tornar geralmente aceito como um anarquista ainda que nunca tenha dito ser um socialista. (Ele também nunca disse ser um anarquista).

Seria fútil alegar que a tradição anarquista não é originalmente e em grande parte socialista e esse não é o objetivo desse artigo. Eu não refuto a importância do socialismo para o anarquismo na teoria nem na prática, mas eu mostrarei como a definição de “socialismo” é rígida e estatista demais, ao contrário do que anarquistas geralmente alegam, e que isso parece ser baseado em um infeliz equívoco do homem e do mercado. O problema principal é a recusa dos anarquistas socialistas em se repensar quando novos fatos foram revelados.

Peter Kropotkin, o famoso anarquista comunista do fim do século XIX e início século XX, declarou que há, em essência, dois tipos de socialismo: socialismo estatista e anarquismo. A diferença entre os dois é que o socialismo estatista deseja tomar controle do estado e usá-lo para impor o socialismo, enquanto o anarquismo [socialista] deseja abolir o estado e, assim, o opressivo sistema econômico capitalista. A distinção de Kropotkin resolve diversas contradições e problemas inerentes ao socialismo estatista, tal como impor igualdade por meio de deixar alguns poucos governarem os muitos via estado.

Mas alguns dos problemas persistem na versão anarquista do socialismo. Os problemas surgem devido ao fato de que os socialistas geralmente tendem a ter uma visão estática da sociedade, o que os torna totalmente ignorantes sobre como as coisas mudam com o tempo. Socialistas provavelmente não admitiriam que esse é o caso, uma vez que eles sabem que as coisas têm mudado ao longo do curso da história (Karl Marx disse isso) e que as coisas nunca parecem estar iguais. Mas eles ainda argumentam como se “ceteris paribus” fosse o princípio divino da realidade, mas não é.

O socialismo não permite um componente temporal (ou é considerado como sem importância e, portanto, omitido) na análise do mundo e da economia. As coisas são geralmente pensadas serem como são mesmo que elas não sejam as mesmas ao longo da história e que elas precisam ser mudadas no futuro. Num mundo socialista, as pessoas são iguais e devem permanecer iguais; as escolhas individuais de agentes no livre mercado (sim, anarquistas socialistas falam sobre o mercado) não mudam esse fato. Nessa visão socialista do mundo simplesmente não há entendimento algum daquela característica do mercado que Ludwig von Mises chamou preferência temporal.

Essa informação importante de como o mercado funciona (ou seja, como as pessoas funcionam) significa que uma pessoa normalmente prefere obter valor agora do que obter o mesmo valor em algum período no futuro. Isso não tem nada a ver com receber juros em investimentos, mas é de fato uma parte natural do que significa ser um ser racional (alguém estaria em uma melhor situação com uma certa quantidade de comida agora do que com a mesma quantidade de comida daqui uma semana). Sem conhecimento disso (ou mesmo sem a preferência temporal per se), calcular o que “será” no mercado seria muito mais fácil (mas totalmente errado).

Mas a preferência temporal não é parte da percepção socialista do mundo ou da economia. Entendimento desse fato torna muito mais fácil entender a demanda socialista por igualdade teleológica, i.e., igualdade como medida de justiça aplicável antes e [especialmente] após interações e trocas acontecerem no mercado. Se o mundo e a economia fossem perpetuamente estáticos e, portanto, nenhum valor fosse criado, então a igualdade econômica seria teoricamente possível. (E talvez até justa).

Mas esse não é o caso e, portanto, a análise socialista está errada. Essa falha, que nós podemos chamar ignorância temporal, persiste na versão anarquista do socialismo.


A ignorância temporal socialista

Kropotkin define esse tipo de socialismo como “um esforço para abolir a exploração do Trabalho pelo Capital,” [1] e Benjamin Tucker fala “a reivindicação básica do Socialismo [é] que o trabalho deve estar em posse de si mesmo.” [2] Bem, isso não soa tão ruim. Outra forma de dizer a mesma coisa seria que todo indivíduo tem um direito natural àquilo que ele produz e que é uma violação dos seus direitos naturais retirar, com o uso de força, o produto do seu trabalho de suas mãos.

Quer você chame isso de direito natural ou não, essa é a essência e a base teórica comum de como valor é gerado no liberalismo clássico e no marxismo. Sempre que um indivíduo investe seu tempo, habilidade e esforço em tentar atingir algo de valor, ele cria valor e é, enquanto seu criador, o legítimo dono desse algo. É difícil argumentar que um indivíduo não é o legítimo dono do seu trabalho; John Locke foi até o ponto de chamar trabalho a “inquestionável propriedade do trabalhador.” Se o indivíduo que executa o trabalho não é dono dele, então quem seria?

A diferença entre socialismo e liberalismo clássicos não está na definição de propriedade ou de como ela surge, mas no seu significado. Pierre-Joseph Proudhon, apesar de ser famoso por declarar que “propriedade é roubo” (no sentido que privilégios relacionados à propriedade causam condições exploratórias), também declarou que “propriedade é liberdade” no sentido que o homem é livre apenas quando é o único dono daquilo em sua posse e daquilo que cria. O que ele estava se referindo era ao trabalho assalariado ser uma exploração do trabalhador pelo capitalista privilegiado.

Para entender essa posição, nós precisamos lembrar que a preferência temporal não se aplica (ou não é permitida). Da perspectiva socialista, qualquer diferença de valor entre produto inicial e final é fraude ou roubo (usando uma terminologia libertária). Se você investe trabalho (produto inicial) para atingir algo que vale $100 e é pago $95 (produto final), você foi oprimido.

Isso é parte da razão pela qual o capitalismo é opressor, usando a definição socialista. Quem “oferece” um trabalho (i.e., o capitalista) lucra simplesmente por causa que o valor do trabalho investido pelo trabalhador é maior do que eles recebem em pagamento. (A razão pela qual eles podem fazer isso, alegam os socialistas, é por causa dos privilégios de propriedade impostos pelo estado que indiretamente forçam trabalhadores a um estado de escravidão assalariada.)

Outra forma de colocar isso é que o valor excedente é lançado para os gerentes e donos da indústria ao pagar aos trabalhadores apenas parte do seu trabalho como produto inicial. Nessa visão estática de como o mundo funciona sob o sistema econômico capitalista, gerar empregos é certamente usura e “escravidão assalariada.” Eu não sou capaz de argumentar contra isso e não irei argumentar com a identificação de muitos esquemas de emprego históricos e contemporâneos que são de fato usura devido aos privilégios concedidos aos capitalistas pela classe política.

Entretanto, essa análise é fundamentalmente errada, simplesmente porque socialistas não entendem preferência temporal. É de valor (mas não necessariamente de valor monetário) para muitos trabalhadores frequentemente receber um pagamento fixo pelo trabalho investido em vez de assumir os riscos de produzir, anunciar e vender um produto no mercado (mesmo que tal empreedimento não seja feito individualmente, mas em cooperação com outros trabalhadores).

O oposto também é verdade: o “capitalista” valoriza mais o dinheiro agora do que o dinheiro depois; assim, os lucros depois precisam ser maiores do que os custos do trabalho agora para “ficar quite.” O ponto aqui é que se um trabalhador fosse escolher voluntariamente entre várias diferentes alternativas, há razão para acreditar que ser empregado é algumas vezes (ou talvez frequentemente) uma escolha atraente.

A razão disso é a divisão do trabalho, riscos no mercado, e assim por diante. Mas é primariamente por causa da preferência temporal, o que significa que um trabalhador pode dar mais valor a um salário fixo agora e em intervalos predeterminados do que investir seu trabalho agora e ganhar o valor total depois. O trabalhador pode, portanto, estar em equilíbrio quando investe o trabalho que gera o equivalente a $100 em produtos mesmo que seja pago apenas $95 agora.

Para algumas pessoas, menos dinheiro agora do que mais dinheiro depois é realmente usura, mas esse é apenas um fato que reforça a teoria da preferência temporal como proposta pelos economistas austríacos. As pessoas têm diferentes percepções de valor e valorizam coisas diferentes em momentos diferentes e, portanto, um indivíduo pode muito bem achar que ser empregado é benéfico, enquanto outros indivíduos não podem aceitar tais termos por nada nesse mundo. E os mesmos indivíduos podem pensar de forma muito diferente em um momento diferente.


Valor é subjetivo

Isso necessariamente nos leva a um outro ponto importante que está intimamente relacionado à natureza da preferência temporal e isso é a identificação de que o valor é subjetivo. Valores monetários são objetivos no sentido que $1 é sempre $1 (ou, em outras palavras, 1=1 ou “A é A”), mas receber o montante de $1 pode valer muito a um indivíduo e, ao mesmo tempo, significar quase nada a outro. Obviamente que anarquistas socialistas e mesmo socialistas estatistas entendem a relatividade de valores, e.g., que $1 para uma pessoa pobre significa muito mais do para uma pessoa rica (apesar de ainda ser o mesmo $1). É por isso que socialistas frequentemente alegam que os ricos não têm nada a temer em relação a impostos (mesmo grandes somas não querem dizer muito para eles), enquanto os pobres têm “muito” a ganhar.

Mas valor relativo nesse sentido significa apenas que a avaliação individual do valor de $1 é relativo a quantos dólares ele ou ela já tem (ou pode facilmente obter). Isso é diferente da identificação do valor como subjetivo.

Um valor subjetivo não necessariamente significa que um certo montante de dinheiro é comparado a outro montante. O valor é subjetivo no sentido de que algo de valor significa que você se considera em uma melhor situação com esse algo do que sem ele. Não tem nada a ver com montantes de unidades monetárias ou comparar maçãs com maçãs; o valor subjetivo é avaliação individual de algo quando comparado com a avaliação do mesmo indivíduo sobre as alternativas. Valores são subjetivos no sentido de que o indivíduo sozinho faz a avaliação e a faz de acordo com a sua hierarquia individual de preferências. Assim, valor subjetivo não depende do que está sendo valorizado, mas como algo é percebido!

Portanto, a análise de um trabalhador a respeito de o emprego ser benéfico não envolve o valor monetário do trabalho investido e o pagamento recebido, mas também de tudo o mais que ele valoriza. Estar empregado pode ser de grande valor a um indivíduo averso ao risco, uma vez que o risco de perder dinheiro é muito baixo, enquanto o mesmo acordo para outra pessoa, que talvez goste de assumir riscos, não é nada além de escravidão descarada. As pessoas são diferentes.

Isso nos leva a um terceiro e último ponto importante que segue diretamente do fato de que o valor é subjetivo: há apenas indivíduos. Apesar de identidades culturais e sociais tenderem a fazer as pessoas pensarem na mesma direção, elas ainda não iguais e pensam de forma diferente. Socialistas em geral obviamente fracassam em perceber isso.

Conforme mostrado no exemplo de estar empregado versus estar desempregado, indivíduos valorizam coisas de forma diferente. Alguns indivíduos aceitariam o trabalho assalariado e estariam completamente satisfeitos com isso (e ainda o considerariam como a melhor alternativa disponível), enquanto outros não conseguem encontrar nenhum benefício em serem empregados. Indivíduos são unicamente diferentes e isso significa que eles têm diferentes preferências.

Essa é uma das principais razões pela qual as políticas estatais são sempre opressivas e nunca são capazes de funcionar de forma satisfatória: elas fornecem um sistema ou solução para um tipo de pessoa e isso causa problemas quando aplicado à uma população tal como os 300 milhões de indivíduos únicos vivendo nos Estados Unidos.


Anarquismo: Um mundo de soberanos

O fato de “haver apenas indivíduos” é também um grande argumento para o anarquismo. Não pode haver um único sistema forçado sobre um indivíduo sem beneficiar um indivíduo mais do que outro e, assim, tal sistema criaria desigualdades legais (e, portanto, seria opressivo). Além disso, uma vez que há apenas indivíduos, não há razão para acreditar que alguns indivíduos deveriam ter poder para governar outros indivíduos. Se há apenas indivíduos, todos devem ser auto-proprietários soberanos e gozar do direito igual e total a seus corpos.

Mas esse fato também significa que as pessoas são diferentes e que algumas pessoas irão valorizar certas coisas enquanto outras pessoas irão valorizar coisas completamente diferentes. Algumas pessoas terão alta preferência temporal por certos valores, enquanto outras terão baixa preferência temporal. Algumas pessoas serão capazes de usar seu tempo e habilidade para criar muito valor a outras (subjetivamente avaliado), enquanto outros criam valor reconhecido por alguns poucos. E as escolhas individuais serão sempre escolhas individuais, as decisões feitas dependendo da avaliação subjetiva do indivíduo de valores que ele escolhe identificar.

Socialismo, como comumente definido pelos socialistas (tanto da variedade anarquista quanto da estatista), fracassa em perceber esse fato e, portanto, categoricamente rejeita as soluções, funções e instituições do mercado que surgem voluntariamente e espontaneamente. Pode ser verdade que os socialistas nunca aceitariam o trabalho assalariado, mas muitos outros talvez aceitariam alegremente ser empregados como benéfico a eles, individualmente e coletivamente.

O mesmo é verdade para o famoso credo marxista, normalmente defendido também por anarquistas socialistas, que o trabalhador é livre apenas quando ele tem propriedade dos meios de produção. Mas como podemos falar que um certo tipo de profissão ou “classe” compartilha de valores exatamente iguais? Isso necessariamente pressupõe uma extrema consciência de classe, onde indivíduos não mais existem. Se “consciência de classe” é, pelo contrário, interpretada como um sentimento de pertencer a uma classe e unidade de certos valores, a preferência temporal e a subjetividade do valor ainda se aplicaria!

Um anarquista de livre mercado pode adotar muitos dos objetivos socialistas-anarquistas, tais como igualdade no direito a seu corpo, ao seu trabalho e seus frutos. Nós podemos apoiar o objetivo anarquista socialista de abolir o estado como uma instituição inerentemente perversa que força indivíduos a abdicar daquilo que é deles por direito. Mas também vemos as falhas do socialismo como atualmente definido; a preferência temporal é uma informação fundamental de como as pessoas e, portanto, o mercado e a sociedade, funcionam.

Por causa da preferência temporal, não é possível dispensar totalmente a noção de que desigualdades podem surgir em um mercado livre. [3] Indivíduos irão agir de acordo com sua percepção do que é mais benéfica para eles e para as pessoas, deuses ou artefatos importantes para eles. Alguns valorizam riqueza monetária, enquanto outros valorizam a saúde, lazer, família, uma boa casa ou carros velozes. As pessoas irão escolher de forma diferente dependendo de sua situação e suas preferências e mesmo se começarem em um estado de igualdade, algumas escolhas serão melhores (com respeito a alguma coisa, e.g., quantidade de bens monetários) e algumas piores.

Não é improvável que algumas pessoas irão escolher acumular riqueza (o máximo possível sem a existência de privilégios estatais), enquanto outros irão avidamente gastar o que eles ganham com entretenimento ou incorrer em flagrante consumo. A escolha deve ser do indivíduo e não podemos dizer que isso é “certo” ou “errado” – isso fica a cargo do indivíduo decidir.

Assim, se realmente acreditamos no indivíduo como auto-proprietário e soberano, não devemos alegar saber o que ele irá (ou deveria) escolher e não podemos dizer o que ele não irá escolher. Em uma sociedade de apenas indivíduos livres, todos eles serão iguais em seu direito ao seu corpo e, assim, não podemos falar para as pessoas que eles não podem trocar o seu trabalho no futuro por um valor agora. Eles farão o que percebem ser o melhor para eles e eu farei aquilo que percebo ser o melhor para mim e o que é o melhor para nós individualmente ou mutuamente fica a nosso cargo decidir individualmente.

Essa é a razão pela qual não se pode dizer que o emprego e a acumulação de capital acabariam quando o estado for abolido. De fato, o oposto é verdadeiro. Essa é também a razão pela qual Murray Rothbard era um anarquista, ainda que ele não tenha aceitado a ilusão de um mundo sem preferência temporal.


Referências:

[1] Evolution and Environment, p. 81

[2] The Anarchist Reader, p. 144

[3] Em um mercado livre, no entanto, é menos provável do que em um sistema estatal, já que ninguém pode ganhar privilégios coercivamente reforçados à custa dos outros.


Tradução:
Daniel Chaves Claudino.

Artigo original aqui.

Compartilhe:
Tags dos artigos:
· · ·
Categorias dos artigos:
Libertarianismo
banner
Foto de perfil de Per Bylund
http://perbylund.com

foi consultor de negócios na Suécia e hoje é Ph.D em economia pela Universidade do Missouri e professor na Hankamer School of Business, da Baylor University, no Texas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *