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nov 6, 2017
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O Mito de Hayek

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Como a maioria de vocês sabe, eu era de esquerda durante os últimos anos do ensino-médio e os primeiros da universidade; e quando gradualmente fui descobrindo os erros da esquerda, fui buscando alternativas. E encontrei, pela sua frequente presença na imprensa, Milton Friedman e Friedrich Hayek, como os antagonistas de princípios e alternativas a todo socialista. E por consequência encontrei muitos bons argumentos para combater a esquerda nesse tempo.

E foi através de Friedman e Hayek que eventualmente descobri Mises, e finalmente Rothbard. Então tenho que dizer que devo, intelectualmente, algo a Friedman e Hayek. Mas esse não é meu foco. Em vez disso, quero analisar por que ambos, Friedman e Hayek, são apresentados nesses tempos, faz quase 40 anos, e inclusive mais nestes dias — especialmente na Europa, mas também nos Estados Unidos — como os opositores mais radicais contra a esquerda, enquanto, como logo me dei conta e mostrarei em breve, Friedman e Hayek são na verdade parte da esquerda, por suposto, não da versão forte tradicional marxista da esquerda, mas da versão leve, social-democrata, redistribucionista. E por isso, do meu ponto de vista, eles oferecem qualquer coisa, menos uma alternativa de princípios contra o socialismo e a esquerda. A isto se pode chamar de “o Mito de Friedman e Hayek”. Aqui me dedicarei a somente metade do mito, ao Mito de Hayek.

Friedman, de fato, é mais conhecido do que Hayek. Numa busca no Google, Friedman tem quase 30 milhões de menções, enquanto que Hayek tem 7 milhões de menções. Creio que Friedman é em parte mais conhecido que Hayek porque é um escritor mais claro, e em parte porque é norte-americano, algo que sempre ajuda nestes tempos, mas quero me concentrar em Hayek.

E por que quero me concentrar em Hayek? Porque segundo o que veio, Hayek é um pensador mais importante, e sua fama durará mais que a de Friedman. Por um lado, Hayek era melhor economista. Enquanto Friedman até a sua morte em 2006 seguia cantando louvores a Greenspan e Bernanke, muita gente inspirada por Hayek e pela teoria de Mises-Hayek sobre o ciclo econômico já havia previsto a grande recessão que viria — e que ainda continua. Mas ainda mais importante, porque Hayek, como europeu do Velho Mundo, tinha melhor e mais ampla educação. Enquanto Friedman era um economista-economista, Hayek era um verdadeiro intelectual, bem lido não apenas em economia, como em história intelectual, psicologia, filosofia, sociologia e leis. Mas não é sua economia técnica o que os fez famosos, como as suas excursões no campo da teoria política. Por isso me concentrarei em Hayek como teórico político, e especificamente em seu Os Fundamentos da Liberdade e em seus três volumes de Lei, Legislação e Liberdade que geralmente são consideradas as contribuições mais importantes de Hayek no campo da teoria política.

Primeiro quero mostrar que, apesar de várias coisas interessantes que possa dizer, Hayek é um pensador fundamentalmente confuso e desordenado. Isto fica claro quando revisamos suas definições e elaborações sobre o conceito de liberdade e coerção. [1]

Hayek define liberdade como a ausência de coerção, até aqui tudo bem; contudo, contrariamente a uma grande tradição de pensamento liberal clássico, ele não define coerção como a ameaça ou iniciação de violência física contra a propriedade ou pessoa. Ele não a define como um ataque contra a propriedade legitimamente adquirida mediante apropriação original, produção ou troca voluntária. Em vez disso, ele dá uma definição cujo único mérito é sua ambiguidade e pouca claridade.

Por coerção “queremos dizer o controle do ambiente ou circunstâncias de uma pessoa por parte de outra que, para evitar um mal maior, é forçada a atuar não seguindo os seus próprios planos, mas para servir os fins de outro.” Ou “coerção ocorre quando as ações de um homem são definidas para satisfazer a vontade de outro homem, não para ele mesmo senão para os propósitos do outro.”[2] E liberdade é “um estado em que cada pessoa pode usar seu próprio conhecimento para os seus propósitos.”[3] Agora, o que se nota imediatamente nessa definição de coerção é que não dizem nada a respeito de “ações”, “escassez”, “bens” e propriedade; em vez disso, coerção se refere a configurações específicas de desejos subjetivos, ou planos, ou planos que entram em conflito, ou pensamentos, ou pensamentos que entram em conflito, e expectativas; logo — com essas descrições subjetivas — tal definição é inútil pelas seguintes razões.

Primeiro, é completamente inútil como guia para a ação, isto é, é inútil para responder à pergunta “o que estou permitido a fazer aqui e agora se não quero cometer um ato coercitivo?” Porque em geral não conheço a vontade ou os planos de outros, e em qualquer caso, conhecer os planos de outros seria absolutamente impossível; mesmo se quiser, nunca poderia saber, no ponto de partida de minha ação, se o que estou planejando fazer implica um ato coercitivo contra alguém. Mas, os indivíduos, obviamente, devem estar permitidos a atuar de forma correta antes de conhecer os planos dos demais. E para que isso seja possível, o critério para distinguir liberdade, por um lado, e coerção, por outro, deve ser um critério objetivo; deve fazer uma referência a um evento que possui uma descrição física e sobre cujo resultado o ator deve possuir controle físico.

Segundo, a definição de Hayek também é inútil como critério retrospectivo de justiça, isto é, não pode responder à pergunta “é justificada a acusação de A contra B?” ou “quem é culpável e quem é inocente?” ou “que tipo de compensação ou castigo é adequado?” Dado que a definição de Hayek não contém nenhum critério físico intersubjetivamente compreensível, seus juízos são completamente arbitrários. Os critérios de Hayek sobre liberdade e coerção são compatíveis com praticamente toda situação física real. Não podem, sem embargo, fazer distinções reais no mundo real.

São correspondentemente confusos e contraditórios, então, os intentos de Hayek de aplicar as suas definições. Ao aplicar as suas definições, Hayek, por um lado chega à conclusão de que o início de violência física constitui-se em coerção. Bem, “coerção ocorre quando grupos armados fazem com que os súditos trabalhem para eles, quando mafiosos organizados impõem taxa em troca de ‘proteção,’”[4] e assim por diante. Bem, pelo outro lado, ele classifica atos de ameaça ou iniciação de violência física, tais como o serviço militar obrigatório, os impostos, como não-coercitivos, sempre e quando a vítima de tais agressões tivesse esperado o resultado ou se tivesse ajustado à situação. Mencionarei essas passagens mais adiante.

Ademais, por um lado, Hayek identifica violência física com coerção; e por outro lado não aceita a ausência de violência física ou danos como critério de não-coerção: “a ameaça de força física não é a única forma em que a coerção pode ser exercida”,[5] inclusive se A não cometeu agressão física contra B ou sua propriedade, pode ser culpável de coerção. Segundo Hayek esse caso se dá quando A é culpável de ajuda omitida em relação a B, isto é, quando não deu a B os bens e serviços esperados dele e que considerava como “crucial para minha existência ou preservação daquilo que mais valorizo”.[6]

Agora, Hayek disse que há um pequeno número de casos que se ajustam a esse critério. Ele dá dois exemplos: o dono de uma mina em um povoado de mineiros que decide despedir um trabalhador supostamente comete um ato de coerção;[7] e de igual forma é supostamente coercivo que o dono da única fonte de água de um deserto não queira vender a sua água ou se recuse a vendê-la por um preço que os outros considerem justo.[8]

Agora, deve ser óbvio, requer-se pouca imaginação para entender que o critério de Hayek inclui todos os casos. Qualquer ação pacífica que uma pessoa possa fazer pode ser interpretada como coerção, porque toda atividade é ao mesmo tempo, sempre, a omissão de inumeráveis atividades alternativas que ele poderia fazer de fato, e toda omissão se converte em coerção quando ao menos uma pessoa reclama que a execução do que ele não tem feito, a execução da omissão, era “crucial para a preservação daquilo que mais valorizo”. Em qualquer caso, contudo, ambas, ajuda omitida e violência física, são categoricamente definidas como coerção, então obviamente contradições inescapáveis se apresentam. Se a omissão de A se constitui em coerção contra B, então B deve possuir o direito de se defender contra a coerção de A. Mas a única defesa de B é que possa usar violência física contra A, que se omitiu em fazer certas coisas. Mas então atos de violências já não seriam classificados como coerção. Em vez disso, a violência física seria defesa. E, neste caso, coerção seria a negação pacífica de entrar em troca; e também seria coerção se alguém trata de defender-se contra uma troca compulsória imposta sobre ele. Por outro lado, se a violência física fosse definida como coerção, então B não estaria permitido de se defender das omissões de A. E se B de todas as formas trata de fazê-lo, então o direito de defender-se recairia em A. Mas neste caso, por suposição, as omissões não constituiriam coerção. Contradições terríveis.

Agora, dessas contradições conceituais emerge a absurda tese de Hayek sobre a inevitabilidade da coerção e sua correspondente, igualmente absurda, justificação do governo. “A coerção, no entanto, não pode ser evitada totalmente porque a única forma de preveni-la é com a ameaça de coerção. A sociedade livre solucionou este problema outorgando o monopólio de violência ao Estado e tratando de limitar o poder do Estado a casos onde se requer limitar a coerção em mãos de agentes privados.”[9] Agora, de acordo com ambas as definições de coerção de Hayek, essas teses não têm sentido. Se ajuda omitida representa coerção, então coerção em forma de violência física se faz necessária, não apenas inevitável. Mas, se a iniciação ou ameaça de violência física se define como coerção, então, sim, pode ser evitada. Primeiro, porque cada pessoa que possui controle sobre si atacará ou não fisicamente outra pessoa. E segundo porque cada pessoa possui o direito de se defender com todos os seus meios contra o ataque físico de outro. É somente inevitável que, sempre e quando exista agressão física, também haverá necessidade de defesa física. Mas a inevitabilidade de violência defensiva não tem nada a ver com a suposta inevitabilidade da coerção, a menos que se confunda a diferença categórica entre ataque e defesa e se afirme que a ameaça de defender-se num mesmo evento de um ataque seja o mesmo que uma ameaça de um ataque. Agora, se a violência física é proibida, então, disso segue que se está permitido a defender-se contra ela. É um absurdo classificar ataque e defesa sob a mesma rubrica de coerção. Defesa é coerção, assim como dia é noite.

Da inevitabilidade da defesa não se depreende nenhuma justificação para o monopólio governamental da coerção. Ao contrário, um governo não é de nenhuma maneira simplesmente um monopólio de defesa que ajuda os indivíduos privados a evitar gastos de outra forma inevitáveis, porque o governo tem que obviamente cobrar impostos da gente para ter os meios para defender a outra gente; e o monopólio de coerção do governo inclui, em particular, o direito do estado de usar a violência contra cidadãos privados, e a obrigação complementária, por parte dos cidadãos, a não defender-se dos ataques do governo. Mas que tipo de justificação para um governo é essa de que, se uma pessoa se rende incondicionalmente a um atacante, pode cortar gastos de defesa de outra forma inevitáveis?

Agora, sobre o tema das funções do governo. Segundo Hayek, o governo é necessário não simplesmente para fazer cumprir as leis e organizar a defesa contra inimigos externos, mas numa sociedade avançada o governo deve usar o seu poder de arrecadar fundos mediante a cobrança de impostos para fornecer um número de serviços que por diferentes razões não podem ser fornecidos, ou não poder ser fornecidos adequadamente, pelo mercado.

Agora, como há no mundo um número infinito de bens e serviços que o mercado não pode prover, Hayek dá ao governo praticamente um cheque em branco. Entre tais funções estão: proteção contra a violência, epidemias, desastres naturais como inundações e avalanches; mas também várias amenidades que fazem tolerável a vida em uma sociedade moderna, medidas padronizadas de medição e vários tipos de informação que vão desde registro de terras, mapas, estatísticas, até a certificação de qualidade de certos bens e serviços que são oferecidos no mercado.

As funções adicionais do estado são: assegurar uma renda mínima para todos; o governo deve distribuir suas rendas de tal forma que possa gastar quando o investimento estatal é lento; financiar as escolas e investigações; fazer cumprir as regulações dos edifícios e vivendas e as regulações alimentícias; deve encarregar-se da certificação de certas profissões; regular a restrição da venda de bens perigosos de certos bens perigosos, como armas, explosivos, venenos e drogas; assim como regulações sanitárias e de saúde em processo produtivo; e o provisionamento de teatros, parques esportivos, e assim por diante — praticamente não se escapa nada; e deve fazer uso de seu poder de domínio eminente, isto é, de expropriação, para melhorar o bem-estar comum. Também considera que há certas para crer que com incremento geral em riqueza, e a densidade da população, a parte de todos os bens que podem ser satisfeitos só pela ação coletiva seguirá aumentando. Ainda mais, o governo deve implementar um sistema extensivo de seguro obrigatório, supostamente uma coerção para evitar uma outra coerção maior; moradias subsidiadas é uma possível tarefa para o governo; e também o planejamento e a regulação de zonas na cidade são consideradas funções apropriadas do governo, sempre e quando a soma dos ganhos seja maior que a soma das perdas — apenas Hayek sabe como calcular isso. E finalmente, o provisionamento das oportunidades para a recreação, a preservação da beleza natural, ou de lugares históricos ou de interesse científico, parques naturais, reservas naturais, etc., são também legítimas tarefas do governo.[10]

Em adição a isso, Hayek insiste que reconheçamos que é irrelevante o quão grande é o governo ou se cresce e quão rápido cresce; a única coisa que importa é que as ações do governo satisfaçam certos requerimentos formais. “É o caráter, em vez do volume, da atividade do governo que é importante.”[11] A cobrança dos impostos, e a porcentagem de impostos, para Hayek não é um problema. Os impostos, e de igual forma o serviço militar obrigatório, perdem seu caráter de medidas coercitivas se são, “quando menos, predizíveis, e se fazem cumprir sem ter em conta como o indivíduo, de outra forma, teria empregado sua energia. Isso lhe tira a natureza maligna de coerção. Se a necessidade conhecida de pagar certa quantia de impostos se volta à base de todos os meus planos, se um período de serviço militar é uma parte predizível da minha carreira, então eu posso seguir um plano geral de vida que eu mesmo elaborei e ser tão independente da vontade de outra pessoa como os homens têm aprendido a ser na sociedade.”[12] Assim, se tu sabes que serás escravizado por vinte anos, tu podes te ajustar a isso; se sabes que os impostos são 90% e te podes ajustar a isso, então isso não é coerção. Quão ridículo isso pode ser?

Agora deve ser claro neste ponto que a afirmação de que Hayek é um libertário radical, um liberal radical e um oponente de princípios contra a esquerda é plenamente ridícula. Logo, a pergunta que surge é como é que este mito existe? Vou especulando.

A resposta mais óbvia é que os periodistas e os meios de comunicação que propagam esses mitos simplesmente não sabem do que estão falando e que uns copiam o que os outros disseram antes. Por isso, apesar de que há certa verdade nele, não explica como esse mito pode aparecer num primeiro momento, e por que é tão persistente; alguém deve estar interessado nesse mito e sua persistência. Permitam-me sugerir outra possível explicação.

Ponham-se no lugar da esquerda igualitária dominante de todos os partidos políticos — e não há partido que não seja de esquerda nestes dias. O que fariam para manter, ou mesmo melhorar, sua posição dominante, em vista do fato de que podem lograr uma uniformidade completa e total na opinião pública?

Eu faria assim: primeiro, identificaria os oponentes mais perigosos que tem a esquerda e os excluiria tanto quanto pudesse do discurso público ignorando-os, sem mencioná-los, e fazendo que não pudessem alcançar nenhuma posição de influência. Antes da internet, isso era comparativamente fácil de lograr. Mises e Rothbard, por exemplo, que são tais perigosos indivíduos eram raramente mencionados e era extremamente difícil encontrar livros nas bibliotecas ou inclusive saber mesmo de sua existência. Segundo, trataria de delimitar a categoria do discurso legítimo, educado e civilizado, identificando certos indivíduos proeminentes que eu pudesse apresentar como inimigos perigosos, porém que na verdade têm ideias confusas e que carecem de princípios suficientes, com quem pudesse facilmente debater e os quais eu pudesse atrapalhar em contradições constantes e concessões às minhas próprias metas de esquerda. Isso me faz parecer tolerante e de “mente aberta”, portanto. E sempre posso ganhar um debate, assinalando que inclusive esses inimigos estão de acordo com minhas premissas fundamentais. Todos vocês conhecem essas estratégias. Tipicamente tomam a forma de: “mas até Hayek e Friedman admitem isto, e não negam isso; o que mais posso dizer?! Eles já são inimigos perigosos; dizer mais, é absolutamente impossível!”

E respeito a esses chamados inimigos — eleitos pela esquerda como os oponentes oficialmente aprovados, os inimigos que a esquerda ama odiar. Eles ganham proeminência, respeito, e se envolvem como parte do establishment, com acesso não só nos meios de comunicação, como nas mais altas categorias do poder estatal. Assim temos Hayek e Friedman, e Margareth Tatcher e Ronald Reagan. E outra chave: Helmut Schmidt, o chanceler social-democrata da Alemanha nessa época, nos octogésimo aniversário de Hayek lhe escreveu um telegrama dizendo “agora somos todos hayekianos”, e isso era o que realmente sentia, assim era! Logo, essa gente se converte nos convidados favoritos em todo tipo de reuniões oficiais e conferências; e de fato se vocês observam as conferências dos hayekianos e friedmanianos nesses dias, verão que são regularmente auspiciados e co-auspiciados por diferentes organismos governamentais e funcionários. E eles e seus seguidores devolvem os favores à esquerda participando de práticas exclusivas contra os inimigos reais, genuínos e perigosos da opinião dominante de esquerda.

Certamente Hayek e Friedman, mas também muitos de seus seguidores, conhecem gente como Mises e Rothbard, mas, se é que por acaso mencionem em algo, tipicamente dizem algumas coisas boas seguidas rapidamente de muitos comentários negativos. Hayek, por exemplo, menciona Rothbard em um par de rodapé de páginas, no total, em todas as suas obras. E no prefácio do livro de Mises, Socialismo, e nas Memórias de Mises, Hayek disse que Mises tinha mudado sua forma de pensar e que havia renunciado ao seu racionalismo excessivo, ainda que absolutamente nada mostre essa mudança em Mises. E Friedman sempre ignorava e tratava de burlar Mises, que se havia referido a ele e a sua gente, na Sociedade Mont Pèlerin, como nada senão “um bando de socialistas”. O mesmo tipo de qualificações vocês podem encontrar nos líderes da Fundação Hayek da Alemanha. Hayek é avaliado como o maior filósofo e economista da liberdade do Século XX, e talvez em toda história humana; e Murray Rothbard: alguns comentários lisonjeiros, bom economista… mas tudo o que disse termina em absurdo. Sem dar nenhuma explicação de qual é esse absurdo. O estilo sempre é o mesmo: o reconhecem, dizem uma palavra bonita, mas na seguinte linha dizem “mas basicamente são uns pobres loucos”.

Em qualquer caso, o que os friedmanianos e os hayekianos, e inclusos os seus atuais seguidores, atualmente, em vez de juntar-se com extremistas mal-educados e anarquistas, como Mises e Rothbard e seus associados, preferem associar-se com políticos de alta patente, com banqueiros centrais e com proselitistas da guerra; vejam as reuniões da Sociedade Mont Pèlerin e verão esses grupos de gente. Houve outra conferência sobre Hayek em Obergurgl, Áustria, e a conferencista principal foi Vaclav Klaus, que esteve a favor dos Decretos de Bens, que expropriaram os alemães na então Checoslováquia, e outros dois conferencistas principais são gente que trabalha para o Banco de Investimentos Europeu e o chefe de um banco austríaco bem ligado ao governo. Esse é o tipo de conferências que os hayekianos organizam.

Agora, o que fazer então? Devemos dizer as coisas como são. E, na era da internet, não é possível ignorarmos completamente. Assim romperemos essa aliança danosa entre a esquerda dominante e sua oposição radical de livre mercado oficialmente designada e aprovada. Sem dúvida, isso nos trará a má vontade dos líderes do movimento hayekiano e friedmaniano, mas também faz possível ganhar os espíritos confusos desses movimentos, que encontrarão Hayek e Friedman primeiro, mas que também veem que há problemas com eles e que buscam uma saída.

E o que devemos dizer? Aqui utilizarei as palavras de Rothbard. Antes de que Os Fundamentos da Liberdade fosse publicado, o manuscrito foi enviado a Rothbard. E Rothbard escreveu dois memorandos sobre os manuscritos. Um foi uma crítica página a página, que foi enviado ao mesmo Hayek — não creio que Hayek adotara algo disso. O segundo foi um memorando interno enviado a Volker Fund, que pagava o salário de Hayek na época, e basicamente pedia para cortar os fundos para Hayek. Mencionarei a primeira oração e logo o último parágrafo do memorando interno que Rothbard enviou. “Os Fundamentos da Liberdade, de F. A. Hayek, é surpreendentemente e angustiosamente um livro muito ruim, e eu diria até maligno.” Essa é a primeira oração. Agora o último parágrafo:

Essa, então, é a fachada que F. A. Hayek apresentará ao mundo em seu Os Fundamentos da Liberdade.
Uma fachada que, se eu fosse um jovem interessado pela primeira vez em assuntos políticos e lesse isso como o melhor produto da “extrema-direita” [Murray se refere aqui o movimento libertário como a extrema-direita], eu me converteria em um fervoroso da esquerda imediatamente, e creio que assim fariam todos. Por isso considero que é um livro perigoso e por isso creio que os da direita devem atacar esse livro com muito vigor quando aparecer, ao invés do que tenho certeza do que farão: aplaudi-lo como muitas focas adestradas. Porque (1) Hayek ataca o laissez-faire, e ataca ou ignora os verdadeiros libertários, criando, portanto, a linha “inclusive Hayek admite…”; e (2), seu argumento está baseado em um prejuízo ou relegado tanto da razão quanto da justiça, de tal forma que qualquer interessado em razão ou justiça tenderá a se opor ao livro por completo. E devido à grande proeminência de Hayek no mundo intelectual, qualquer falha dos de extrema-direita em atacar o livro, com o vigor implacável que merece, sem dúvida prejudicará a causa da direita que todos nós consideramos querida.[13]

E o mesmo se aplica a Friedman, o caso de Friedman é ainda pior do que Hayek. Muito obrigado.

 

Fontes:

[1] Consultar Murray Rothbard. “F.A. Hayek and the Concept of Coercion,” em The Ethics of Liberty (New York: New York University Press, 1998) pp. 219.

[2] F.A. Hayek, The Constitution of Liberty, The Definite Edition. Ver The Collected Works of F.A. Hayek. Vol. 17. Hamowy Ronald, Ed. (London: Routledge, 2011) pg. 199.

[3] F.A. Hayek, Law, Legislation and Liberty, Vol. 1 (Chicago: University of Chicago Press, 1973), pp. 55-56.

[4] F.A. Hayek, The Constitution of Liberty, The Definite Edition. Ver The Collected Works of F.A. Hayek. Vol. 17. Hamowy Ronald, Ed. (London: Routledge, 2011) pg. 204.

[5] Ibid, pg. 202.

[6] Ibid, pg. 203.

[7] Ibid, pg. 204.

[8] Ibid. pg. 203.

[9] Ibid, pg. 71.

[10] Ver, Part III “Freedom in the Welfare State.” F.A. Hayek, The Constitution of Liberty, The Definite Edition. Ver The Collected Works of F.A. Hayek. Vol. 17. Hamowy Ronald, editor. (London: Routledge, 2011).

[11] Ibid, pg. 331.

[12] Ibid, pg. 210.

[13] Rothbard, Murray. “Confidential Memo on F.A. Hayek’s Constitution of Liber­ty.” Ver Murray N. Rothbard Vs The Philosophers, Unpublished Writings on Hayek, Mises, Strauss and Polanyi. Modugno, Roberta, Ed. (Auburn, Al.: Ludwig von Mises Institute, 2009) Pg. 61.

 

Artigo original: aqui.
Tradução:
Luciano Takaki

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Revisionismo
http://propertyandfreedom.org/

é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo e The Economics and Ethics of Private Property.

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