banner
5 meses atrás
563 Visualizações
6 0

O libertarianismo e o voto defensivo: um debate escrito entre Paulo Kogos e Lacombi Lauss

Escrito por
Compartilhe:

Esse texto é uma reprodução do debate escrito ocorrido entre Paulo Kogos e Lacombi Lauss na noite de 15 de abril de 2016 acerca da viabilidade da política partidária como estratégia legítima para a meta libertária.


Rodada Zero (posicionamentos iniciais)


Paulo Kogos:

Minha perspectiva sobre o voto defensivo.

Um libertário (no sentido latu sensu do termo) rejeita a política e o estado, respectivamente a arte do poder ilegítimo e o monopólio da coerção, tanto pela sua ineficiência quanto por sua imoralidade.

Os libertários diferem, entretando, quanto à estratégia para vencer o estatismo.
Alguns defendem a isenção total da participação política, como Hoppe.
De fato, o voto em um político é, a priori, anti-ético. Ao votar, a pessoa torna-se cumplice dos crimes que este politico virá a cometer se eleito.

Há aqueles, entretanto, que defendem o voto defensivo. O governante é como um capataz do engenho e alguns escravos preferem votar naquele que lhes fará menos mal. Ou, de forma ainda mais consistente, aquele mais fácil de ser vencido. Libertários como Woods e Block possuem essa posição.

Meu intuito neste debate não é vencer o Lacombi Lauss, mas ter nele um contraponto para refinar as minhas ideias e permitir que os espectadores também o façam.

Eu defendo, no momento, o voto defensivo, e no caso do Brasil, em Jair Bolsonaro.

Tomemos a seguinte redução ao absurdo.
Em uma eleição temos a Rainha Cristina da Suécia (uma Cristã que abdicou do trono por achar a política suja demais e que defendia ideias de liberdade) empatada com Pol Pot, o genocida do Camboja.

Nesta situação, o ganho da desobediência intrinseca ao nao-voto purista não compensa o risco da volta do Khmer Vermelho. Eu votaria na Rainha Cristina.

Eticamente, a agressão inerente ao voto recai sobre o agressor que nos impos a democracia. Não defendo o voto para ganhar benefícios às custas dos outros, nem tampouco pretendo reduzir o estado por vias políticas, como os eleitores do Novo.

O meu voto em Bolsonaro é militarizado. O estado é meu inimigo e e o establishment progressista é sua força motriz. Ao votar em um anti-establishment, odiado pela midia, é possivel que tenhamos chance de reagrupar nossas forças para continuar lutando.

O ideal libertário não deve ser abandonado em momento algum, e isso é parte integrante da estratégia.

As possíveis implicações a favor e contra minha posição serão debatidas agora e eu estou aberto a rever minha posição.


Lacombi Lauss:

Beleza, Paulo. Como combinado, eu vou nesse comentário apenas expressar minha tese anti-voto. Depois dela, eu vou passar a debater em cima de seus pontos.

Minha posição é dividida em dois pontos:

Moral: A liberdade não consiste na revogação ou aprovação de leis mas sim de enfraquecer a autoridade do estado. E ela não depende – como os políticos corriqueiramente querem nos fazer acreditar – de convencermos pessoas o suficiente para votar “corretamente”, para que desta forma, certos parasitas possam colocar determinadas engenharias sociais em jogo. Esse processo acaba por reforçar toda a estrutura institucional que produz as leis injustas: ela reforça a estrutura de poder aceitando que a autoridade é uma ferramenta de mudança. A autoridade do estado jamais poderá reforçar o poder social, mas apenas corrompe-lo e destruí-lo.
Por outro lado, o poder social de boicote necessário para dar um fim completo tanto à Rainha Cristina quanto ao Pol Pot é bem menor que o necessário para dar vitória nas urnas para a parasita. De fato, se, como computado por Larken Rose, 10% da população se engaja em uma contra economia de boicote em clara amostra de desobediência, então ambos candidatos serão destituídos de uma só vez. Se 51% da população se engajar na causa pró-Cristina, então o sistema continuará de pé e poderá fabricar outro tirano ainda pior que Pol Pot em poucas semanas. O problema não é o político, mas a estrutra institucional que delega a ele o monopólio da coerção.

Eficiência: Primeiramente, as proposições libertárias contém verdades absolutamente inegáveis e simples – é muito mais fácil portanto propagar as mensagens da liberdade do que qualquer outra. Em segundo lugar, se de fato a Cristina é “menos pior” então ela automaticamente será beneficiada pela divulgação das ideias libertárias. Indiretamente, todos os libertários estariam colaborando não só para a campanha dela, mas também para todos padrões pró-propriedade. A importância disso pode ser vista quando olhamos para o cenário democrático, onde não há absolutamente nenhuma garantia de nada além de: você pode votar, você pode concorrer e a maioria decide. Só. Tudo o mais segue da vontade da casta eleita. Então por que ainda há resquícios de civilização? Porque ideias pro-propriedade privada ainda vigoram na mente da população. A partir do momento em que elas desaparecerem, o cenário estará pronto para os burocratas implantarem o caos e o terror.


Primeira Rodada


Paulo Kogos:

Agora começa o debate propriamente dito.

Lacombi Lauss tem razão ao afirmar que a liberdade não emana da suposta magnanimidade estatal nem de sua legislação, nem da legitimação popular. A liberdade é um direito natural.

Está certo também ao afirmar que o estado corrompe o poder social, e isso acontece em dupla via, tanto pela via top-down pura descrita por Santo Agostinho e Nietzche (a libidu dominandi) quanto pela via top-bottom-top, descrita por La Boetie (a servidão voluntária).

Por isso o ideal libertário jamais deve ser relativizado e é parte integrante da minha estratégia.

Mas a razão de Lacombi Lauss e de Larken Rose acaba aqui. De fato, se 10% da população adotasse os nossos ideiais, o estado acabaria; coisa que não acontece com uma vitória da Rainha Cristina (ou Trump, ou Bolsonaro, just name it)

O ideal de Larken Rose dificilmente acontecerá no curto prazo. O mais provável é que tenhamos avanço nesse sentido na monarquia pró-Católica da Rainha Cristina que no kampuchea democrático ateu de Pol Pot, onde pessoas eram mortas por ter uma Bíblia.

Minha posição é estratégico-militar, estamos em guerra contra o estado, e nesse sentido, o general George Patton dizia que um plano bom executado hoje é melhor que um plano maravilhoso executado daqui a duas semanas.

Justamente, Lacombi Lauss muito bem citou que o problema não é o político mas a estrutura institucional. Nesse caso, é contra esta estrutura que temos que lutar, e não rejeitar um voto estratégico que permita usar um político contra a expansão desta estrutura apenas por ele próprio ser um inimigo.

Nos Sete Clássicos Militares da China Antiga consta uma regra interessante: mate o inimigo com a espada que ele te emprestou.

O seu ponto de que as posições libertárias fortalecem o candidato mais próximo da liberdade é um interessante insight praxeológico, mas não se encaixa na complexidade da estratégia política.

O importante não é o candidato mais próximo do libertarianismo, mas aquele que mais prejudica a expansão do Establishment.

Veja a Argentina. Os ideais libertários poderiam fortalecer Macri, um agente do Establishment que condenou o país à escravidão por dividas ao renegociar os titulos públicos, contra um candidato como Bolsonaro ou Trump.

Mas em nenhum momento em disse para abandonarmos os ideais libertários. Eles são parte essencial. O meu ponto é para não rejeitar o voto defensivo como ferramenta complementar.

Na guerra, a melhor tática é a da combinação das armas.


Lacombi Lauss:

Paulo, primeiramente, eu não creio que o Bolsonaro seja em qualquer sentido anti-establishment, mas apenas um subproduto dele. Estamos falando de um ser cuja burrice é impossível de ser exagerada e cujo histórico é lamentável. É apenas um mero funcionário do sistema que ficou conhecido no exército após iniciar um motim por aumento de salários. Chegou até a ser preso, por violar ordens de seus superiores. Após isso, ele aproveitou a fama e virou vereador em 88. Vive de política há mais de 28 anos. Mais establishment que isso é difícil. Por ser altamente ignorante (perceba seus vídeos: o imbecil sequer sabe falar) e sem escrúpulos, ele é super influenciável de modo que altera suas posições ao sabor dos ventos. Basta ver o dossiê do Scar para se dar conta disso: ele apoia diversas medidas sociais democratas como estatizações, criação de novas estatais (nióbio), a colocada de comunistas como Aldo Rebelo no ministério da defesa (o que refuta sua tese militarista), protecionismo econômico (ele é contrário portanto à uma das mais firmes teses econômicas já estabelecidas – isso é questão de lógica pura), além, é claro, das nefastas políticas ultra-nacionalistas, que enfraquecerão de imediato a meta libertária secessionista.

Agora, dado que a elite global já controla o establishment, então obviamente as eleições não passam de um teatro. Queimar a reputação para apoiar um candidato “anti-establishment” nas eleições não adiantaria nada portanto. E o que garante, devido ao poder da elite política que um suposto candidato “anti-establishment” não é apenas uma marionete para convencer os incrédulos que o jogo eleitoral supostamente funciona? Nesse caso, sua estratégia voltaria contra você.

Por fim, eu não creio que seja possível conciliar sua estratégia pró-política com a mais importante e magnânima das estratégias, aquela que em última análise determina todas as demais: o combate de ideias. Como Mises salientou, apenas ideias vencem ideias. E as ideias libertárias – as únicas capazes de nos livrar do câncer democrático em que vivemos – sofrem uma profunda degeneração quando combinadas com a política partidária. Ao optar por manter apoio a um vagabundo você coloca consciente e intencionalmente o libertarianismo em segundo plano, como uma meta secundária. Pior ainda: o apoio a parasitas implica em consentimento com o sistema eleitoral e a todos os embustes democráticos, levando à população a crer que a da política pode-se nascer a liberdade – o que concordamos que é falso. Apoiar políticos leva portanto a uma sistemática deterioração da mensagem libertária. Não é coerente e razoável afirmar a natureza pervertida e maléfica do estado enquanto se faz campanha para um de seus membros.

Esquematicamente, tem-se o seguinte:

1) Em última análise, a história é determinada por ideias;
2) Ideias libertárias são corretas e as únicas capazes de reverter o atual quadro de avanço descivilizatório;
3) O apoio a políticos entra em contradição com o ideal libertário, causando uma deterioração cabal na força argumentativa dos libertários;
4) Não é possível ao mesmo apoiar parasitas e se dispor a lutar com eficiência estratégica para frear a crescente onda de degeneração moral.


Segunda Rodada


Paulo Kogos:

Lacombi Lauss, assim como você citou ideias estatistas e anti-secessionistas de Bolsonaro, eu poderia citar muito mais dos seus opositores. Mas este não é o ponto.

Como vc mesmo disse, a história é determinada por ideias. Mas qual a razão da importância das ideias? São elas que determinam para onde os canhões serão apontados. Ou seja, em última instância, Louis XIV acertou ao escrever ULTIMA RATIO nos seus canhões.

Canhões estão apontados contra nós neste exato momento, na forma de patrulhamento politicamente correto, regulação, impostos, moeda de curso forçado, etc. Isto nos tira a capacidade de reagir, de lutar, de acumular capital e recursos intangíveis para um contra-ataque. Sequer temos armas pra nos defender de bandidos. É preciso que adotemos uma estratégia que nos dê tempo para reagrupar.

Como disse Cantwell, um dos libertários mais radicais do mundo, em sua boa defesa do voto defensivo em Donald Trump, deixou claro que Trump está longe de ser um libertário, mas a ameaça representada pela cupula globalista do Partido Republicano, inimiga de Trump, ou a agenda pós-moderna e progressista representada pelos democratas, ou a agenda pró-Goldman Sachs de dissimulados como Ted Cruz, ou o intervencionismo geopolítico de todos os opositores de Trump são ameaças piores do que qualquer efeito psicosocial deletério que o voto defensivo possa ter no curto prazo.

Transpondo para o Brasil. Sim, Jair Bolsonaro é um sub-produto do establishment, um ovo do sindicalismo militar chocado pela galinha do nacionalismo unionista.

Mas algumas coisas fogem ao controle até mesmo do establishment. As consequencias não-intencionais descritas por Hayek acontecem em todas as esferas da ação humana. Bolsonaro não quer uma sociedade libertária, mas estaremos mais próximos dela com a revogação do estatudo do desarmamento, ou com uma freada ainda que temporária da agenda progressista. Concordo com você que a esquerda poderia capitalizar uma vitória de Bolsonaro para associar o conservadorismo a tudo de ruim que o Bolsonaro fizer, e este é um ponto temerário. A esquerda porém faria isso de qualquer forma, e fará com mais poder quanto mais controle eles tiverem sobre a máquina monopolística. Se Bolsonaro estiver no poder, teremos ao menos uma janela para agir nas esferas intelectuais com um pouco mais de liberdade de manobra.

Ideias libertárias são corretas, concordo.
São as únicas capazes de reverter o processo descivilizatório, concordo.

Mas o voto defensivo não exclui tais ideias.
Somos todos vítimas da fazenda humana democrática. Não podemos ser culpados por escolher um capataz estrategicamente menos pior.

Assim sendo, a pergunta que deve ser feita é a seguinte. Existe algum candidato cuja vitória, diante da quase certeza de que alguém será eleito, implicaria em um ganho de oportunidade (o contrário de custo de oportunidade) em relação às vantagens do não-voto? Não é em toda eleição que eu defenderia um voto defensivo, mas somente quando a pergunta anterior puder ser respondida positivamente.

O articulista Mark Capra muito bem escreveu, citado pelo libertário Justin Raimondo, que a máquina política tende a emperrar quando há impasses internos que dificultem a coordenação entre Congresso, Executivo e o lobby corporativista. Bolsonaro seria essa ferrugem nas engrenagens fascistas.


Lacombi Lauss:

Paulo, vou proceder em partes. Apesar de não votar, eu não creio ser necessariamente errado o voto em si, mas sim a campanha partidária. Primeiro porque a noção de controle político que o voto nos dá é ilusória e como argumentei antes, enfraquece sim a mais fundamental das batalhas: aquela do campo das ideias. Além do mais, o custo/benefício das campanhas é terrivelmente ruim. É estatisticamente mais fácil vencer a mega-sena duas vezes seguidas do que seu voto alterar uma eleição presidencial no Brasil. Se quiser ir além do voto – algo que acho macabramente nefasto – e se engajar em campanhas, o cenário piora ainda mais: muitos recursos precisariam ser gastos. Alianças com corporações teriam de ser feitas, panfletos teriam que ser impressos, passeatas e carreatas teriam de ser agendadas, foras os gastos com programas de tevê e rádio, banners e sites de internet. Todo esse necessário apelo ao populismo distorceriam completamente as propostas originais do parasita – se é que poderíamos crer nelas. Ainda distorcidas, nada garante que o burocrata, uma vez no poder, vá colocá-las em prática. Para isso ele vai precisar de apoio de parlamentares e outros partidos. As principais reformas são ainda mais delicadas pois necessariamente afrontam a constituição. Um apoio ainda maior se faz necessário. Os problemas se alongam: mesmo que alguma reforma periférica seja feita, nada impede minorias demagógicas e populistas de fazerem um lobby para revertê-la. Ou ainda que no futuro outro político reverta – ou piore – o quadro. O resultado é que o ativista político estará condenado a ser escravo do sistema democrático, sempre a pedir esmolas para que políticos lhe concedam uma liberdade que lhe é naturalmente de direito. É uma perda de tempo e energia, além de humilhante: a condição de servo permanece inalterada.

Tome o caso do MBL como exemplo. Apesar de aparentemente eles não terem entendido a fraqueza e a inconsistência da teoria deles, ao menos deveriam ter compreendido a estupidez da prática deles, onde 68% da população é radicalmente pró-impeachment e isso não resulta em praticamente nada no jogo político. Ou seja, parasita algum dá migalhas de atenção ao chilique pueril deles. Agora, se, por outro lado, eles fossem genuínos agoristas anti-políticos, a petezada já estava mendigando pão na rua há tempos. O custo/benefício do agorismo é claramente superior que o jogo partidário, o qual, convenhamos, Bolsonaro não tem a menor chance.

A política não apenas é pior que o agorismo puro e simples mas, do ponto de vista de estratégias anti-establishment, eu creio que ela seja a mais ineficaz dentre todas. Olhando para o campo político, podemos ter insights disso. Fora a democracia, o maior inimigo da civilização é o pós-modernismo – uma vertente esquerdista ainda mais danosa que o comunismo soviético. Os pós-modernos conseguiram toda influência – que hoje chega aos quadrinhos, animações, Hollywood, indústria da moda e da beleza e mídias sociais – de modo completamente descentralizado, sem construir coletivos, partidos, associações, clubes, etc. Caso queiram, o espaço político está em aberto para eles, mas duvido muito que queiram: não precisam disso quando já tem praticamente toda sociedade civil aos seus pés e sem o uso explícito de força física ou de ameaça. A dominação ideológica deles (voltada para o mal) foi feita de modo extremamente perspicaz e sutil – e ainda infinitamente mais sutil que o gramscismo marxista. As provas do sucesso deles são evidentes para aqueles que estão fora da matrix pós-modernas, mas poucos se deram conta disso. Agora, o fato é que tal sucesso seria impossível de ser atingido com os meios políticos. E querer usá-los para o combate a tamanha tecnologia degenerativa é pura ingenuidade. Até mesmo o PT ganhou fama e poder antes de assumir o poder presidencial. O fato é que o cenário político é meramente supérfluo, apenas miragem do jogo de ideias dentro do seio da sociedade.

Tudo que precisamos é divulgar as ideias corretas e estamos apenas no início. O libertarianismo no Brasil, sequer tem dez anos. Seus principais inimigos são pelo menos bicentenários. Em 2006, Fernando Chiocca (o responsável por nós dois sermos libertários) ainda era um socialista. De certa forma estamos procedendo a passos longos e temos que prezar pela correta aplicação da Ética para que eles sejam firmes também. O estado ainda tem muito a temer.


Terceira Rodada


Paulo Kogos:

Lacombi Lauss, eu concordo com você que a campanha exaltando um político é ruim. O efeito psicosocial de qualquer campanha idólatra de algum político é necessariamente o reforço da propaganda estatista.

O voto defensivo deve ser uma covert operation, essencial na guerra.

Por outro lado, como disse o estrategista Jomini, a guerra não é matemática. Há uma metafísica da guerra que a transforma em ma arte. Logo, a fórmula pronta da abstenção total do voto não é necessariamente recomendável. Há cenários, que embora raríssimos, como eu já expliquei, preconizam o voto defensivo.

Mas a execução desta operação deve ser feita da maneira mais low-profile possível, para evitar qualquer legitimação da democracia ou construtivismo personalógico do candidato, afinal, quanto menos apoio um governante possui, melhor.

Discordo porém da segunda metada do seu primeiro parágrafo, pois você assume a falsa premissa de que o voto defensivo libertário é uma atividade política. Ela é uma atividade ontologicamente anti-política, uma arte de ajuste fino, onde não se vota em um salvador da Pátria (mesmo porque somos secessionistas), mas sim em um inimigo declarado que seja pior para o exército oponente.

Imagine um judeu escolhendo um lagerkommandant que indiretamente torne mais fácil a fuga do campo de concentração e vc terá a imagem do que eu quero dizer.
Usar o sistema contra o sistema.

A sua frase: “a condição de servo permanece inalterada.” é interessante. Maquiavel alertou justamente para o fato de que o pior erro de um estrategista é se tornar dependente. E então você tem razão ao alertar para os riscos morais do voto defensivo, do arriscado ajuste fino requerido, da cizânia no tecido social causada pela justa indignação e dissidência daqueles que serão diretamente prejudicados pelo candidato que julgarmos o “menos pior”.
Sem contar que o establishment maneja as coisas sempre um passo à nossa frente no campo político. Eles controlam a mídia e o processo democrático.
E ao votar estamos lutando no campo deles. É por isso que minha defesa do voto defensivo não é pétrea. Sun Tzu sempre alertou para lutarmos nos nossos termos, e não nos termos dos inimigos, especialmente se formos mais fracos.

A minha dúvida é: ao não votar nem mesmo em situações evidentemente extremas, estaríamos de fato resistindo, ou estaríamos deixando o inimigo ter um tactical leverage em cima da nossa própria recusa deontológica?

Ao meu ver, a resposta para isso está no efeito que a decisão terá no campo de batalha. No caso hipotético da Rainha Cristina, o voto defensivo é obviamente a melhor decisão.
No caso de Bolsonaro, não tenho certezas férreas, mas acredito que o voto defensivo e o agorismo não são excludentes, desde que não haja campanha. Eu não deixaria a Marina Silva ganhar, por exemplo.

Como você mesmo disse, a grande ameaça são os pós-modernos, mas você erra ao dizer que eles são um fenômeno descentralizado.
Como disse o antropólogo Ernest Gellner, a origem desse movimento é remonta o surgimento da escola de Frankfurt como resposta às contradições na teoria marxista, ou seja, uma jogada defensiva do establishment, mais centralizado que isso impossível. Gramsci trabalhava justamente com a correta premissa de que somente forças artificiais poderiam minar pilares naturalmente construídos, como a moralidade conservadora.
Se Gramsci se infiltrou em instituições naturais para infiltrar seu artificialismo progressista, porque não nos infiltrarmos em instituições artificiais como o estado para infiltrar características reacionárias?

Não quero me aliar a eles, mas fazer como Napoleão e sua tática da posição central. Na Batalha de Vauchamps, ele posicionou suas tropas entre dois blocos inimigos, impedindo sua coordenação, e esmagando um dos blocos antes que o inimigo se reagrupasse. Depois ficou facil matar o outro.

Temos a vantagem de que os blocos políticos brigam entre si. Bolsonaro briga com os pós-modernos. Podemos esmagar os pós-modernos primeiro e os bolsonetes depois.

Este é meu ponto.
Minha ressalva é que a natureza da guerra política é mais cruel e ardilosa do que pensamos e sem a ética libertária como norte, seremos engolidos por ela.

Na minha opinião, embora eu continue votando no Bolsonaro, mas o tema segue aberto.


Lacombi Lauss:

Paulo, concordo perfeitamente que a execução do voto, caso ele seja feito, deve ser da maneira mais low-profile possível, pois de fato, o apoio explícito a parasitas gera um efeito psicológico de massas negativo. Eu ainda sigo na posição de que o voto no Bolsonaro não é uma posição anti-establishment, pois não vi bons argumentos a respeito dele ser um ponto fora curva, de desvio do mainstream, no sentido hayekiano posto por você. Na verdade, eu o considero tão establishment quanto o PT. Não tenho dúvidas que, caso ele seja eleito, algum discurso de promessa de respeito às instituições democráticas seja feito, bem no estilo da carta ao povo brasileiro que Lula publicou. Contudo, creio que um suposto governo Bolsonaro seja ainda menos liberal que o primeiro governo de Lula, apesar de possivelmente poder ter pontos positivos a cerca do armamento. Você discordou da segunda parte do meu comentário justamente pela oposição que temos: para mim, Bolsonaro sequer é odiado pelo establishment. Ao contrário, as forças policiais do estado estão ao lado dele. E isso é o suficiente para o colocarmos como um dos maiores inimigos de nossa liberdade, já nossos planos agoristas só não podem ser levados às últimas consequências devido precisamente às polícias e ao exército nacional. Como se costuma dizer, “uma canetada de um burocrata não tem valor algum sem as armas que estão por trás dos bastidores políticos”, que por sua vez, estão a favor do Bolsonaro. Colocado isso e tudo o mais na balança, não vejo algo em definitivo para justificar qualquer voto. Pelo contrário: o voto nulo ainda é posição mais terrível que o establishment pode esperar.

Como eu creio que o você não tocou no ponto fundamental de meu argumento, a saber, a deterioração que o voto e a anuência dentro do jogo político trazem para a batalha das ideias, vou reforçar aqui a defesa radical do fim da sujeição ao sistema eleitoral. A desobediência civil é o pilar moral em que os libertários sustentam sua resistência anti-estado. A lógica é bastante simples: assim como a Igreja precisa que os fiéis respeitem suas regras para que ela funcione como instituição espiritual e o livre-mercado requer uma postura de não-agressão para que ele possa funcionar como dispositivo de trocas engendrando a divisão social do trabalho e a prosperidade geral, o estado (que é também uma instituição social, porém voltada exclusivamente para a prática do mal) requer que seus súditos sigam bovinamente às regras subjacentes a seu funcionamento, em particular o voto. O enfoque em qualquer tática pró-liberdade deve ser o aparato estrutural do estado e não necessariamente nos políticos. Assim, o problema essencial não é o candidato X ou Y, mas a estrutura institucional que permite que eles adquiram o monopólio do poder. Sem o estado por trás e uma eleição pra legitimar seu poder, os parasitas seriam no máximo batedores de carteiras de feiras populares. Votar contra determinado político, é uma ação contrária à pessoa dele apenas, mas nunca contra as instituições estatais.

Um ponto final a ser feito é que o jogo político apenas serve para destruir a malha de cooperação social. A oposição real indivíduos produtivos vs. parasitas perde espaço para a fictícia posição partido azul vs partido vermelho. É extremamente triste e lamentável ver amigos de longa data se desentendendo em época de eleições em função exclusiva de discordância no voto. Essencialmente, o que vemos nesse caso são duas pessoas com uma vivência em comum e que cultivam um mútuo respeito e admiração se digladiando para impor, na base da força bruta estatal, seus próprios caprichos sobre a outra. Como concordamos, uma pessoa decidir qual a maneira lhe apraz para extorquir outra e assim poder satisfazer as vontades de seu parasita político predileto, é uma posição tão absurda que não deve ser relativizada sob contexto algum, pois não faz sentido, é ilógico. E tudo que é irracional tende, querendo ou não, para o socialismo, a verdadeira máquina sociológica de criação ampliação de conflitos artificiais em sociedade. Cair no jogo eleitoral é cair na armadilha socialista e produzir inimigos que, ontologicamente falando, estão do nosso lado. Não temos que guerrear com trabalhadores e empresários no campo político – é precisamente isso que o establishment quer -, mas sim combater os parasitas e seus exércitos armados, mostrando ao povo que as coisas como elas são: que ele reconheça os impostos como roubo, os políticos como ladrões e todo o aparato e burocracia estatais como uma quadrilha de proteção, uma instituição como a máfia, só que muito maior e mais perigosa. Basta que elas odeiem o estado, o caracterizando como seu inimigo. E se todo mundo o fizesse, então, como mostrou Étienne de la Boétie, o poder do estado desapareceria quase que instantaneamente.


Considerações Finais


Paulo Kogos:

Considerações Finais

O debate entre dois libertários acerca do tema apenas mostra as contradições inerentes à política.

É fato que o substrato do esquema estatal se alimenta da dinâmica de reação agressiva sistêmica por meios nominalmente políticos.
Em outras palavras, a cizânia que o estado causa no tecido social e seus mecanismos racionais de cooperação permite que ele capitalize qualquer reação por meio dos mecanismos propostos pelo establishment, sendo a ética libertária a única arma ideológica viável.

O parco avanço dos ideais libertários na sociedade limita o escopo de aplicabilidade da estratégia do voto defensivo. Embora teoreticamente correta, não há substratos práticos para comparar suas vantagens e desvantagens no caso do Brasil.

O fato é que não há fórmula matemática nesse embate, e nisso concordo com a metafísica militar do grande Jomini. O conhecimento necessário para tal tomada de decisão é tácito, com características de arte.
Na dúvida, a ética é a arma mais poderosa.
E como eu mesmo disse, a dúvida permeou meu debate até aqui.

Meu retorno à estratégia purista era uma hipótese forte desde que conversei com a Jordania Graziele. Este debate cumpriu a missão que eu tinha em mente quando eu o idealizei: testar os argumentos do meu lado Hyde (Bolsonarista), em contraposição ao meu lado Dr Jakyll (Purista).
E a conclusão é simples: é estratégico que rejeitemos o establishment desde a base.

O voto defensivo é uma ferramenta viável em situações tão bizarras que eu só consigo imaginar no plano hipotético.

Esta é a surpresa que eu guardei para todos: NINGUÉM 2018
mas por favor, ataquem a esquerda, e não o Bolsonaro.

O voto defensivo pode ser uma estratégia válida, pelos motivos éticos que eu citei na primeira rodada. Dano colateral de guerra. Mas não é viável. E talvez, se viável, não seria mais necessário.

Espero que tenham gostado do debate e aprendido conceitos de estratégia militar.

“Como fonte turvada, e manancial poluído, assim é o justo que cede diante do ímpio”
Provérbios 25:26


Lacombi Lauss:

Parabéns pelo debate, Paulo. Vi excelentes argumentos de sua parte. E concordo ipsis litteris com seu último comentário. De fato, o voto defensivo não exclui totalmente a estratégia agorista, desde que seja uma ferramenta pensada no contexto em que você colocou acima: em última instância, quando nada mais for viável – o que é um caso bem irrealista e, como disse no primeiro comentário, graças às ideias pró-propriedade, que jamais devem deixar de cessar no seio da sociedade. É nosso dever moral protege-las do relativismo sistêmico que abunda nossa civilização pós-moderna.
Abraços.

Compartilhe:
Categorias dos artigos:
Entrevistas
banner
Foto de perfil de Entrevistas e Debates

Entrevistas e Debates de personalidades do movimento libertário.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *