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4 meses atrás
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O estado dos 5 macacos

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Quando as pessoas se deparam com a ideia de tirar do estado as funções que ele hoje exerce — seja qual for —, a primeira reação delas é considerarem isso coisa de lunáticos.  Na verdade, o fato é que a maioria das pessoas sequer ouviu falar da existência de ideias desse tipo, e elas nunca ousaram questionar o status quo, o que faz com que este tipo de reação seja algo comum.  Isto me lembra muito a história do experimento dos cinco macacos:

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula.  No meio, uma escada, e sobre ela, um cacho de bananas.  Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, um jato de água gelada era disparado sobre os que estavam no chão.  Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o impediam e o enchiam de pancada.  Algum tempo depois, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.  Então os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros, que o surraram.

Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada.  Um segundo macaco veterano foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato.  Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu.  Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.  Os cientistas então ficaram com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo recebido um banho gelado, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.

Se fosse possível perguntar a algum desses macacos por que eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:

– “Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui. . . “.

A experiência dos cinco macacos numa jaula é praticamente igual a outra experiência: a de 6 bilhões de humanos no planeta Terra.  A iniciação de agressão sem justificativas é o paralelo mais forte que podemos traçar.  Do mesmo modo que os macacos substituídos agrediam os mais novos sem saber o motivo, os humanos em toda parte do mundo defendem, sem jamais ter perguntado o porquê, a existência do aparato social de coerção e compulsão — o estado —, que agride incessantemente inocentes, sem necessidade e sem ter nenhum argumento que se sustente para justificar esta violência.[1]

Não é à toa que um argumento extremamente comum entre os que tentam defender o estado é simplesmente o de dizer que “sempre existiu estado”[2] e desafiar a outra parte a “citar um exemplo na história de uma experiência sem estado” — ou seja, apenas uma versão da provável resposta dos macacos: “não sei por que existe estado e não sei derrubar seus argumentos, mas as coisas sempre foram assim por aqui e você vai continuar apanhando”.

Felizmente para aqueles que lutam pela liberdade e por um mundo sem a iniciação de agressão institucionalizada, diferente do que sugere este “argumento”, a sociedade está sempre mudando.  Coisas que sempre existiram deixam de existir e passam a ser condenadas, como, por exemplo, a escravidão.

A escravidão foi prática comum na história da humanidade.  Se transportássemos um desses defensores do estado para 150 anos no passado, é bem possível imaginá-lo debatendo com os ‘abolicionistas lunáticos’: “não sei justificar a escravidão de outros seres humanos, mas as coisas sempre foram assim por aqui”.

Existem apenas duas diferenças relevantes entre as duas experiências.  A primeira é que, na jaula, nenhum macaco se beneficiava da violência.[3]  Já entre os seres humanos, existe uma parcela que se beneficia dela — os integrantes dos governos e os grupos que lucram com suas práticas exploratórias.  A outra diferença é que existem alguns humanos que questionam esta violência e que sabem que ela é injustificável — conhecidos como libertários.  Mas enquanto seu número não for significante, eles nada podem fazer a não ser continuar apanhando da maioria que não sabe por que está batendo.

Vídeo:

Notas

[1] A história não diz se os cientistas iriam ou não voltar a jogar água gelada nos macacos caso eles cessassem as agressões, mas o fato relevante aqui é que eles agridem sem saber por quê, sendo indiferente esta agressão ter alguma justificação ou não.  No caso dos macacos, ela pode ter alguma justificativa plausível: eles estariam agredindo para não serem agredidos pela água gelada dos cientistas — um tipo de violência defensiva, mas não exatamente legítima, por não ser direcionada contra os agressores.  No caso dos seres humanos, não.

[2] Em seu Discurso da Servidão Voluntária, Étienne de la Boétie observa que:

É verdade que no início serve-se obrigado e vencido pela força; mas os que vêm depois servem sem pesar e fazem de bom grado o que seus antecessores haviam feito por imposição.  Desse modo os homens nascidos sob o jugo, mais tarde educados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outro bem nem outro direito que o que encontraram, consideram natural a condição de seu nascimento.  E no entanto não há herdeiro tão pródigo e despreocupado que às vezes não corra os olhos nos registros de seu pai para ver se goza de todos os direitos de sua herança ou se não o usurparam ou a seu predecessor.  Mas o costume, que por certo tem em todas as coisas um grande poder sobre nós, não possui em lugar nenhum virtude tão grande quanto a seguinte: ensinar-nos a servir — e como se diz de Mitridates que se habituou a tomar veneno — para que aprendamos a engolir e não achar amarga a peçonha da servidão.

[3] Assumindo que o jato de água gelada não existisse mais, coisa da qual os macacos novos jamais souberam da existência.

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Foto de perfil de Fernando Fiori Chiocca
http://www.rothbardbrasil.com

é um intelectual anti-intelectual e praxeologista.

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