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O erro do empirismo nas ciências sociais

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A natureza das ciências sociais é radicalmente distinta da natureza das ciências naturais. Com efeito, um simples exemplo já nos evidencia isso: se você testa as características de uma composição química no laboratório, você controla o ambiente de modo tal que as variações relativamente ao resultado prescrito pela hipótese sejam realmente os resultados de uma distribuição normal. Os erros vão decorrer da impossibilidade de misturar as substâncias químicas nas proporções exatas pressupostas. Aí sim a ciência é empiria, pois não há como o intelecto conhecer as potencialidades dessa composição a priori. Agora, como é que se dá um experimento social? O homem age. Mises disse isso, mas não podemos rejeitar esse axioma só porque o Mises falou. Imagine colocar uma alma dentro de uma substância química. Chamo de alma mas você pode chamar de qualquer coisa, um princípio inteligente que tome uma decisão: no momento em que essa substância é inserida no composto, ela “decide” se transmutar ou se modificar (imaginando que sua decisão pode ter esse efeito), de sorte que a composição química hipotetizada já não é a que se verifica na experimentação. E imagine ainda, tal qual o ser humano, que o experimentador não tem a menor possibilidade de saber qual a ação que a substância tomará. Vou ser bem específico nesse ponto. Recorde que toda a Inferência Estatística é nada mais que o cálculo de probabilidade aplicado a estimadores e outras estatísticas, encaradas como funções mensuráveis à la Borel. Ora, o que fundamenta o cálculo de probabilidade – antes até da distribuição de probabilidade subjacente -, é a listagem dos pontos amostrais ou, na linguagem da Lógica Modal, dos mundos possíveis, e antes da listagem dos mundos possíveis, é a aceitação dos axiomas de Kripke. Um deles é que “se eu não sei, então eu sei que eu não sei”. Isso pode ser expresso com o operador de conhecimento na Lógica Modal. Nas ciências sociais (não em todas as situações, é claro) listar a totalidade dos mundos possíveis (ou, pra ser mais claro, todas as ações que o homem pode tomar) é absolutamente impossível. No experimento físico, quando eu jogo o dado, a totalidade dos mundos possíveis é o conjunto de números de 1 a 6. Mas se o dado fosse uma pessoa, o resultado do lançamento poderia dar um inesperado (no sentido mais literal que você pode imaginar, sendo um empiricista) 7. Shackle chamava isso de “surpresa”. Isso é sintetizado reconhecendo-se que é possível “eu não saber e não saber que eu não sei”, ou seja, a negação do quinto axioma de Kripke da Epistemologia como uma Lógica Modal. O uso, nas ciências sociais, da mesma inferência estatística que se usa na experimentação das ciências naturais é uma evidência clara de que os cientistas sociais que conhecem Filosofia desconhecem os fundamentos epistemológicos da Estatística (entre os quais incluo Blaug) e os que conhecem Estatística desconhecem Filosofia. E os que conhecem Estatística e tem conhecimento de Filosofia, não compreendem suficientemente as limitações da Estatística. Dou um exemplo! O Savage, aquele que consolidou os modelo de decisão sob utilidade esperada, logo no começo do seu livro clássico, The Foundations of Statistics, é muito claro quanto à aplicabilidade de tudo o que ele escreveu dali pra frente. Ele faz uma distinção entre small world e large world. O small world é o dado, o cassino, é o mundo cuja totalidade dos pontos amostrais você pode listar, toda a certeza é distribuída sobre os elementos amostrais, mas você não tem qualquer incerteza quanto à totalidade das coisas e nem ao modo pelo qual você distribuiu a certeza entre os elementos do espaço amostral. Você olha o dado e diz: só pode dar um número de 1 a 6. Se você tem incerteza quanto ao modo como distribui a incerteza, mas tem certeza quanto á totalidade dos modos pelos quais você pode distribuir a incerteza, então você é um bayesiano. Em qualquer caso, é necessário que você não tenha incerteza quanto à totalidade das coisas. Esse “é necessário que” é aquele mesmo operador da Lógica Modal. Em outras palavras, o Savage “avisa” de cara que sua teoria se aplica à incerteza comum no cassino e que, mesmo na tomada de decisão no âmbito econômico, é preciso que se saiba da adequabilidade da situação ao critério de utilidade esperada. Mas os economistas aprendem utilidade esperada em livro-texto e jamais leram o próprio Savage e, se lêem, não têm a capacidade de perceber essas coisas. Mas nas ciências sociais, “saber que não se sabe”, sempre que isso for cabível, não é possível. O comum, o padrão, é não saber e não saber que não se sabe, justamente porque a ação humana pode ser qualquer coisa imaginável e até inimaginável, mesmo que limitemos as ações às coisas plausíveis. Sempre pode surgir uma ação plausível que você nunca imaginou e sobre cujo nunca-ter-pensado você jamais pensou. Por isso, não tem o menor cabimento conceder às ciências sociais o status de ciência apenas outorgando-lhe o dever de compartilhar do mesmo método científico adequado para as ciências naturais, o de falseamento pela experimentação e, pior, de capacidade preditiva pela Inferência Estatística. O método das ciências sociais tem que ser outro. O Blaug nega aos seus leitores o direito de futuramente contribuir, como pesquisadores, de modo filosoficamente mais maduro para a Economia. O apriorismo misesiano é uma tentativa válida, de caráter kantiano, porém mais que somente isso, e deve ser tida como séria.

Eu me convenci da argumentação, não de Mises, mas de Hans-Hermann Hoppe, sobre a plausibilidade do axioma da ação humana. Não consigo ver como ele não seja sintético a priori. De qualquer forma, a natureza das ciências sociais não é a mesma das ciências naturais. Independentemente do problema das proposições sintéticas a priori, existe ainda o problema de se encarar a ação humana (e aqui não falo em termos misesianos, mas meramente fenomenológicos) como enquadrável no modelo estatístico à la Komolgorov e, por conseguinte, sob qualquer enfoque inferencial. A historinha que eu contei, da substância química com alma, ilustra, ainda que de modo lúdico, uma diferença epistêmica fundamental entre o sujeito natural de um experimento e um sujeito humano. Aliás, a diferenciação entre sujeitos se dá entre sujeitos naturais – como os entes físicos -, sujeitos anímicos e sujeitos racionais. Por que na Biologia as proposições científicas são menos específicas do que na Física? Por que na Biologia a inferência é mais imprecisa? Justamente porque os entes anímicos, os sujeitos da Biologia, têm animismo, a capacidade de movimento próprio, o que se resume em uma capacidade de ação em nível incipiente, não-racional. No homem, a ação já decorre da vontade, sobre cujas possibilidades o experimentador, além de não ter controle, possui uma ignorância no sentido epistemológico do termo (a violação daquele axioma de Kripke de que falei, o qual fundamenta todo o Cálculo de Probabilidades, sem ele, não há cálculo). Assim, fazer um teste estatístico sobre um bólido (um ente físico) é diferente de fazer um teste sobre um animal e ainda mais diferente de fazer um teste sobre um ser humano. A questão se resume na capacidade do sujeito testado de “driblar” o controle estatístico requerido justamente para dar validade ao conceito de aleatoriedade que subjaz a noção de erro estatístico. Mas, como dizia, esse é um tema não só interessante, mas a questão mais fundamental da Economia, creio eu, pois dependendo do resultado a que chegue, ela pode implicar uma total mudança de paradigma.

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Físico, possui mestrado em matemática pura e economia. Hoje está finalizando seu doutorado em Álgebra, ele também é um tradutor e autor de textos libertários tendo colaborado com inúmeros projetos na mídia libertária virtual. Possui diversos artigos e traduções disponíveis em diversos sites libertários e hoje compilados em seu site pessoal Ideal Libertário. Tem foco em interesse na teoria legal libertária. Politicamente é um austrolibertário agorista, anti-político e entusiasta de moedas virtuais como o Bitcoin, tendo escrito e difundido diversos manuais e guias a seu respeito. Também escreve no blog http://lacombilauss.wordpress.com/