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7 meses atrás
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O Anarquismo de Esquerda é Impossível

Escrito por
ancom
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Faça menção ao anarcocapitalismo e os esquerdistas nunca estarão muito longe para te dizer que você não é um verdadeiro anarquista. Porque, você sabe né, estudar economia e melhorar sua posição na vida é para estatistas, cara.

Eu suponho que “anarquista de esquerda” deva ser um termo bastante vago, incluindo todos os tipos de ideologias incoerentes. O anarco alfabeto se você preferir, anarcossindicalista, anarcomutualista, anarcocomunista, anarcossocialista, anarcotribalista, excêntricos zeitgeists, anarquista de mercado de esquerda e mais cerca de uma dúzia de anarcoadjetivos hipsters que ainda vão aparecer no meu feed do twitter. Eles são todos representados pela mesma bandeira (sim, isso é um insulto) de pessoas que, em última análise, querem liberdade, não do estado, mas da realidade, eles querem igualdade, não de oportunidade, mas de êxito.

Nós podemos agora tirar alguns desses da nossa discussão antes de irmos muito longe nesse artigo em particular. Socialismo é definido como propridade estatal dos meios de produção, logo, An-Socs, por favor peguem o seu trófeu de participação na porta e deixem o prédio. Ter computadores planejando de forma centralizada a economia planetária é tão estatista quanto é ficção científica, então zeitgeisters desconectem-se imediatamente e falem para as suas mães que vocês liberaram o modem para que elas possam ligar novamente (sim, eu sou bem velho). De fato, todos vocês que não acreditam em mercados, sumam, é hora de os adultos terem uma conversa.

Puxe uma cadeira, anarquista de mercado de esquerda. Você gostaria de café ou outra coisa? Isso vai demorar.

Ontem, quando sentei para escrever “Sorry Fake Libertarians, Capitalism Requires Anarchy“, o título original acabava em “e Vice Versa”. Quando eu percebi que já estava além 4 mil palavras na desconstrução de Binswanger, eu percebi que atacar o capitalismo de estado e anarquismo de esquerda no mesmo artigo apenas levaria a um texto superficial e isso é importante demais para qualquer um de nós ter preguiça de fazê-lo.

Então, como prometido, eis aqui a minha resposta ao artigo de Anna Morganstern no Center for a Stateless Society intitulado “Anarcho-‘Capitalism’ Is Impossible“. [1] 

Como mencionado anteriormente, “esquerda” é algo vago e geralmente cobre um espectro de ideias anti-propriedade. Com os meus estudos de história e economia me levando a acreditar que a propriedade privada fornece a mais alta qualidade de vida para a sociedade humana, eu tendo a achar essas ideias nocivas ao avanço da nossa espécie e então eu sou hostil em relação a elas. Por ser um comediante, o politicamente correto é algo que eu desprezo do fundo do meu ser. Eu também tendo a achar que os esquerdistas são intelectualmente desonestos e não perdem tempo em usar ameaças de iniciação de força, mas ainda que essas coisas possam ser mais predominantes na esquerda, eu sou capaz de reconhecer que esses são problemas humanos e, portanto, não apenas dos esquerdistas. De qualquer forma, seu artigo no C4SS não pedia pela iniciação de força e nem pareceu intelectualmente desonesto, então até onde eu saiba, essas críticas não se aplicam a você e assim eu me coloco culpado de praticar coletivismo, uma ofensa capital aqui no Ancapistão.

Mas então, isso é parte do problema em debater com esquerdistas em primeiro lugar. Não há uma posição esquerdista filosoficamente consistente para se contra-argumentar. Nós estamos falando da maior organização da sociedade humana e cada indivíduo que você confronta, você recebe um argumento diferente. Como pode haver um padrão de conduta como base para a construção da sociedade se todos têm um padrão de conduta completamente diferente?

A resposta, pelo menos no meu livro, é achar um mínimo denominador comum. O Princípio da Não-Agressão (PNA). Certamente que dentro do princípio da não-agressão há bastante espaço para debate sobre o que as pessoas deveriam fazer, mas com a não-iniciação de força, nós deveríamos, em teoria, ser capazes de viver em um relativo estado de paz, e obviamente, todos nós vemos isso como o objetivo final.

O problema principal para os ancaps [2] é que a maioria dos esquerdistas que conversamos não acreditam em propriedade privada, ou pelo menos, em aquisição de capital. Se nós dois julgamos ser adeptos do PNA, o PNA me permite proteger o que eu possuo com o uso da força. Se eu digo que possuo algo e você diz que eu não possuo, então nós estamos na iminência de um confronto violento. Se isso vem na forma de um estatista gritando para taxar os ricos ou um anarquista incentivando um sindicato a expulsar um dono de fábrica faz pouca diferença de acordo com nossas regras. Ambos nos privam da propriedade por força, o que nos deixa com a escolha de nos permitir sermos vitimizados ou usar de violência defensiva contra os agressores. Se quiséssemos ser vitimizados ou usar violência, o estado estaria, obviamente, mais do que feliz em fornecer esses serviços e então esse tipo de anarquia é pouco promissora para nós.

Anna não necessariamente defende que alguém tenha o “direito” de tomar propriedade sem consentimento, ela apenas reconhece que eles irão fazê-lo, para o bem ou para o mal. De acordo com o seu artigo, isso torna a aquisição de capital impossível na ausência do estado, assim refutando o anarcocapitalismo.

“Minha visão da impossibilidade do anarcocapitalismo é simplesmente como segue:

  • Sob o anarquismo, acumulação em larga escala e concentração de capital é impossível.
  • Sem a concentração de capital, escravidão salarial é impossível.
  • Sem a escravidão salarial, não há nada que a maioria das pessoas reconheceriam como ‘capitalismo’.”

Bem, Anna fala que a acumulação de capital em larga escala é impossível na ausência do estado. Eu não creio que isso seja verdade e eu vou defender por que, mas antes de qualquer coisa, eu acho que é importante entender que as pessoas que pensam assim provavelmente partem da premissa que acumulação de capital em larga escala é indesejável. Eles não estão falando para si mesmos “Hey, seria muito legal se as pessoas pudessem adquirir grandes quantidades de capital, que pena que é impossível”. Eles estão falando que a acumulação de capital é algo ruim e que todas as leis econômicas conhecidas pelo homem devem ser alteradas a fim de impedir que isso ocorra. Afinal, se acumulação em larga escala é desejável e a anarquia é incapaz de proporcionar essa possibilidade, então isso seria uma falha da sociedade anarquista e para aqueles que veem a riqueza como uma coisa boa, uma ótima razão para manter o estado por perto. Para Anna e outros esquerdistas, isso não seria um fracasso, isso seria uma qualidade, porque eles veem riqueza como algo ruim.

Obviamente, a maioria das pessoas não pensa assim (não que popularidade torne uma opinião certa ou errada). A maioria das pessoas vê a riqueza como algo bom, contanto que seja aquela sob a posse dela. As pessoas certamente invejam a riqueza de outros e é por isso que elas, a todo momento, correm para as urnas e exigem que o estado faça alguma redistribuição por elas. Não importa quantas vezes isso fracassou em fornecer qualquer benefício à humanidade, as pessoas continuam a votar baseados em sua inveja. Isso, obviamente, simplesmente torna todo mundo mais pobre, o que é, em última análise, o que os economistas da esquerda pretendem. Eles não podem tornar as pessoas igualmente felizes, então seremos todos igualmente miseráveis. É como Alexis de Tocqueville falou sobre sociedades democráticas: “Mas por igualdade, sua paixão é ardente, insaciável, incessante, invencível: eles pedem por igualdade em liberdade; e se eles não podem obtê-la, eles pedem por igualdade em escravidão. Eles irão tolerar pobreza, servidão, barbárie – mas não irão suportar a aristocracia.”. O estado, obviamente, está mais do que feliz em nos proporcionar pobreza e escravidão, então se é isso o que você quer, por que todo esse alarde? Apenas sente e aproveite o show.

Entretanto, essa linha de pensamento é exclusividade de ideologias na maioria dos casos. A razão pela qual as pessoas correm para as urnas para exigir essas políticas terríveis é porque os políticos falam para elas que isso irá melhorar a situação de todos, não piorar. As pessoas querem ter mais, não menos. Assim, se a sua propaganda para a abolição do estado é que elas nunca ficarão mais ricas, então boa sorte ao vender essas ideias.

Anarcocapitalistas veem a riqueza como algo bom. É a acumulação de capital que cria empresas, empregos, construções, financia pesquisa e desenvolvimento em tecnologia e medicina, foi o que tornou possível a internet moderna, o computador, o tablet ou o smartphone que você está usando para ler esse artigo agora. Nenhuma dessas coisas seria possível sem a acumulação de capital. Quase ninguém estará disposto a abrir mão disso e, pessoalmente, eu estou disposto a resistir de forma violenta a qualquer um que falar que eu tenha que fazê-lo. Logo, se o seu desejo é viver em paz, as suas escolhas são matar todos aqueles que pensam como eu ou permitir que as pessoas adquiram capital.

Assumiremos, por enquanto, que a acumulação de capital é desejável, ou pelo menos, permissível no mundo da Anna. Seria impossível, como ela propôs?

“A primeira parte disso, que acumulação em larga escala e concentração de capital são impossíveis sob o anarquismo, tem diversos aspectos. Um grande aspecto é que o custo de proteger a propriedade aumenta drasticamente conforme a quantidade de propriedade aumenta na ausência do estado. Isso é algo que raramente é examinado por libertários, mas que é crucial. Uma razão para isso é que a propriedade em larga escala nunca está totalmente concentrada em termos geográficos. Um bilionário não tem toda a sua propriedade em uma pequena área geográfica. De fato, esse tipo de propriedade em que não se está presente é necessária para se tornar um bilionário em primeiro lugar. A maioria dos super ricos possuem ações de grandes corporações que têm muitas fábricas, lojas, escritórios e coisas do tipo em todo o lugar. Deixando de lado por enquanto se empresas de capital aberto sequer existiriam na anarquia, essa dispersão geográfica significa que o custo de proteger toda essa propriedade é enorme. Não apenas por causa da enorme quantidade de guardas necessários, mas por que alguém tem que pagar esses guardas o suficiente para que eles não decidam simplesmente tomar conta da loja local. Você poderia contratar guardas para vigiar os guardas, mas isso por si só se torna um novo problema…”

Sim, as pessoas roubam, não temos como fugir disso. Espero que possamos concordar que roubar é errado, mesmo se sua vítima tenha muitas propriedades e assim podemos concordar que um proprietário, mesmo um muito rico, tem todo o imperativo moral para proteger sua propriedade com violência. Ele também tem todo o direito de contratar pessoas para agir como seus agentes, como Anna parece reconhecer em sua discussão sobre os guardas.

É óbvio que quanto mais propriedade alguém tenha para proteger, maior o custo de protegê-la, mas isso não é exclusivo do mercado. O estado lida com isso de forma semelhante. Afinal, não é como se todos nós pagássemos um único preço pelos serviços de proteção estatal. Na maior parte do mundo, há imposto de renda progressivo (algo defendido pelos estatistas de esquerda), de forma que quanto mais alguém ganha, mais ele paga. Não apenas em quantidade, mas em porcentagem da renda. Além disso, grande parte do mundo tem impostos sobre propriedade de terra, que são tomados anualmente ou trimestralmente, em porcentagem do atual valor de mercado da propriedade. Logo, com mercado ou sem mercado, quanto mais propriedade você tem para proteger, mais você paga para protegê-la. Esquerdistas irão responder que os ricos acham meios de evitar impostos e, enquanto isso é uma distorção radical da verdade, isso não deve ter nenhuma relevância para anarquistas em qualquer caso. Eu estou mais do que feliz em ver pessoas privando o estado de suas receitas. O problema não é que os ricos evitam impostos, o problema é que o homem comum os paga, subsidiando igualmente os estilos de vida de ricos e pobres.

Então apertemos o botão e apaguemos o estado de nossas mentes para um exercício mental.

Essa manhã, Barack Obama teve uma coletiva de imprensa e anunciou que ele tem lido nossos emails com alguns agentes da NSA e foi iluminado pelo o que viu. Ele percebeu que seus meios baseados em roubo e assassinato eram imorais e, então, hoje o governo federal dos Estados Unidos e todas as suas subdivisões foram dissolvidas. Por incrível que pareça, as pessoas não começaram a estuprar e matar umas as outras ou queimar carros nas ruas, mas ao invés disso eles seguiram o conselho do presidente para ficarem calmas e buscarem substitutos no mercado para os serviços tradicionalmente geridos pelo governo. Para manter o argumento simples, vamos fingir que fomos todos capazes de trocar nossas notas do Federal Reserve [N. T. Banco Central americano] por bitcoins ou metais preciosos. Eu entendo que isso não faz nenhum sentido, que eu estou apenas criando uma fictícia abolição ordenada do estado.

Dessa forma, agora os policiais precisam de empregos e o mercado está aberto para serviços privados de proteção. Naturalmente, eles irão preencher essas vagas em um número desproporcional em relação ao resto de nós.

Bill vende aparelhos mecânicos, um produto físico que não depende de propriedade intelectual ou outras ficções estatais para gerar receitas. Ele construiu uma empresa muito bem sucedida desses aparelhos e tem fábricas em duas fronteiras geopolíticas arbitrárias anteriormente conhecidas como estados, e casas em três delas. Bill quer proteger essas propriedades, ele tem muita renda livre por não mais ter de arcar com uma carga tributária e seu cunhado é um ex-policial que acabou de conseguir um emprego com a Acme Segurança.

A Acme Segurança não pode proteger a propriedade de Bill que fica muito longe, mas sabe que há dinheiro a ser ganho ao ajudar pessoas como Bill. Assim o CEO liga para os seus contatos na polícia que conheceu ao longo dos anos em outras jurisdições perguntando-os se eles podem proteger a propriedade de Bill nessas outras áreas e propõe terceirizar o serviço para a Contoso Segurança por uma taxa. Um acordo é alcançado, um contrato é assinado e a proteção é estabelecida.

Os guardas da Contoso são colocados para proteger a segunda casa de Bill. É uma casa muito boa, com muitas coisas valiosas. Um agente da Contoso olha para a casa e fala para si mesmo: “Por que eu estou protegendo as coisas desse cara quando eu posso simplesmente pegá-las pra mim?”.

Vários aspectos o impedem de fazer isso.

Primeiramente, ele tem um contrato com a Contoso que o impede de roubar a propriedade dos clientes da Contoso. Violar esse contrato o colocaria em desonra e feriria a sua reputação. Se ele roubar de um cliente da Contoso, no mínimo, a empresa o despediria e falaria coisas ruins sobre ele a outras firmas de segurança que ligassem procurando por referências. Mesmo que ele consiga tomar conta de toda a propriedade de Bill que ele foi colocado para proteger, ele não terá mais uma fonte de renda e uma vez que ele venda todos os bens de Bill, ele não terá nada além de uma reputação de ladrão.

Em segundo lugar, ele não é único empregado da Contoso e se ele tentar tomar a casa ou remover seus pertences, ele terá que protegê-la contra o resto dos agentes da Contoso. A Contoso foi contratada para usar força para defender a propriedade de Bill e o ladrão certamente será superado em número de armas a menos que consiga que todos os seus colegas façam parte do esquema. Se ele recruta outros agentes da Contoso para ajudá-lo em seu roubo, certamente Bill pode perder a sua propriedade, mas a Contoso irá falir depois que Bill contar para todo mundo o trabalho terrível que eles fizerem ao proteger a sua propriedade e essa propriedade não vai valer muita coisa uma vez que for dividida entre eles. Por menos de um ano de salários, eles terão jogado fora suas carreiras.

Você alguma vez já conseguiu um emprego onde o empregador não te perguntou sobre o seu histórico de trabalho? Você acha que, na ausência de um sistema estatal de verificação de antecedentes, a contratação de gerentes pode ser um pouco mais minucioso em relação a checar referências?

Roubar a propriedade de Bill é uma decisão péssima e de curto prazo. Os agentes da Contoso podem escolher entre essa pequena compensação com aquilo que está na frente deles no momento ou desenvolver contratos lucrativos de longo prazo com pessoas como Bill ao redor do mundo. Certamente que não é impossível que eles sejam estúpidos o suficiente para tomar essa decisão, mas o mercado certamente irá limitar o número de vezes que eles podem fazê-lo. Em última análise, eles irão eventualmente ser encontrados por uma força de segurança que acumulou capital ao construir uma boa reputação e se eles usarem força para continuar com seus roubos, eles provavelmente serão todos mortos, colocando um fim ao ciclo de crime da Contoso de uma vez por todas.

Ah, mas e uma ameaça estrangeira? E um governo invasor?

“Mas a propriedade precisa ser protegida não apenas de invasores domésticos, mas de invasões estrangeiras também. Imaginemos que a sociedade anarcocapitalista consiga formar o Ancapistão como queira. Ao lado do Ancapistão está uma nação capitalista estatista, que chamaremos Aynrandia. Bem, os aynrandianos decidem ‘hmm, o Ancapistão carece de um estado para proteger os seus cidadãos. Nós devemos assumí-lo e dar a eles um estado, para o seu próprio bem, obviamente’. A essa altura, os bilionários do Ancapistão devem capitular, ou dar boas vindas aos aynrandianos e nesse caso o é fim do Ancapistão ou eles devem reunir um exército para repelir os aynrandianos. A segunda opção não apenas será ridiculamente cara, pelas razões que mencionei acima, mas muitas propriedades serão destruídas se os aynrandianos decidirem participar de uma guerra moderna. Ahh mas e todas as pessoas de classe média no Ancapistão, eles não formariam uma milícia para se defender? Bem, sim, mas eles não formarão uma milícia para proteger a propriedade de um bando de bilionários.”

Obviamente que o estatista invasor deve ser de uma nação capitalista, porque, você sabe, comunistas não fazem esse tipo de coisa e Ayn Rand era totalmente a favor da dominação global…

Bem vinda, Anna, ao Ancapistão, o lugar mais livre do mundo. Nós expulsamos os agentes do estado desse território e uma coisa engraçada aconteceu: nós recuperamos nossas armas que vocês estatistas haviam tomado de nós. Não somos mais tão fáceis de sermos governados.

Por que uma nação invade outra? CAPITALISMO! Gritam os esquerdistas, como resposta para todos os males e pela definição marxista distorcida dessa gíria vulgar para bom senso em economia. Você pode simplesmente ser capaz de encaixar um cubo em um buraco circular com força suficiente, ou pelo menos, você poderia ter sido capaz de fazer isso há 500 anos atrás.

Governos não atacam recursos ou sociedades, eles atacam outros governos. Eles podem fazer isso porque o outro governo os provocou ou eles podem fazer isso pelo partido político no poder para unir a nação em torno dele. Esquerdistas irão, obviamente, falar que isso é sempre sobre recursos, normalmente atribuindo isso a ricas corporações. Em última análise, a menos que um governo esteja agindo puramente por defesa (algo que eu sequer estou certo que seja possível), o que esse governo quer é se expandir para além de suas fronteiras já existentes. Ele quer um rebanho humano para cobrança de impostos e expandir o alcance de sua moeda para tornar a inflação menos notável. Ele não invade, toma o petróleo e vai embora, ele estabelece um governo fantoche para extorquir as pessoas da sociedade por toda a eternidade.

Para cumprir esse objetivo, as pessoas da sociedade devem ser governáveis e se as pessoas fossem governáveis, essa não seria uma sociedade anarquista para começar. Esqueça o meu pequeno exercício mental acima sobre a coletiva de imprensa do Obama, nós todos meio que sabemos que isso não irá acontecer. O estado será abolido dentro de um dado limite geográfico quando as pessoas dentro desse limite não mais tolerarem o estado pacificamente. Anarquistas terão que matar os agentes do estado até que eles parem de ir trabalhar e uma vez que eles parem de ir trabalhar, nós todos poderemos continuar com as nossas vidas.

Se o governo com mais poder sobre o povo, os governos central e local, uma vez assegurando sua legitimidade nas mentes dessas pessoas, que tinham todos os seus agentes, aplicadores da lei, prédios, bandeiras e ministros de propaganda bem em suas caras, se eles não podem manter domínio sobre essa sociedade, então como você propõe que um governo estrangeiro com novas bandeiras e línguas possa cumprir esse objetivo? Haveria, como diz o ditado não confirmado, “um fuzil atrás de toda a folha de grama”. Pior do que isso, na ausência do estado, eu imagino que alguns de nós poderia obter lança-mísseis e armamento anti-tanque e anti-aéreo. Mesmo com a assistência dos governos locais rendidos, veja quanto trabalho as forças dodos EUA tiveram para parar insurgências no Iraque e Afeganistão.

Eu não sou estrategista militar e pelo argumento dela, eu duvido que Anna seja. Mas o estado não vai simplesmente ir embora, ele terá que ser morto. Se pudermos matar um governo, podemos matar outro, com bilionários ou sem. Se não pudermos, então tudo isso é muito sem sentido por que a sua anarquia de esquerda também nunca se tornará realidade.

Mas e o sistema bancário?

“Além disso, sem um sistema bancário/financeiro protegido pelo estado, acumular altos lucros sem fim é praticamente impossível?”

Você manja de bitcoin?

Mas falando sério…

“O estado policial/militar ajuda a manter os ricos, mas é o sistema financeiro que os ajudou a ficarem ricos em primeiro lugar, às custas de todos os outros.”

Isso é verdade, mas como eu apontei antes, o estado policial/militar não é necessariamente para proteger propriedades. De forma análoga, a fraude bancária que você está descrevendo não é necessariamente  para adquirir capital, mas de qualquer forma, continue.

“Primeiramente, o sistema bancário institucionalizado pelo estado cria uma oferta limitada de fontes das quais alguém pode receber serviços bancários. Essa cartelização os permite saírem ilesos ao colocarem em prática o sistema de reservas fracionárias em uma escala significativa, no qual mais dinheiro é emprestado do que realmente existe. Ao aumentar a oferta de dinheiro em uso de uma forma unilateral se cria uma situação onde as pessoas que tomam empréstimos estão efetivamente roubando de todos os outros. As empresas que financiam a expansão forçam seus concorrentes a fazer o mesmo ou a falir ao aumentar o preço dos recursos. Ao aumentar o custo de entrada, isso limita e reduz o número de concorrentes em todas as indústrias, diminuindo os salários.”

De acordo. Essa análise foi a razão pela qual eu voltei atrás no meu comentário para um esquerdista retardado. Aqui você quase soa como se tivesse algum conhecimento de economia.

“E o atual regime de moeda fiduciária/banco central, ao constantemente inflar a oferta de dinheiro, destrói a habilidade das pessoas de poupar, assim forçando-os a fazer empréstimos a fim de começar ou expandir um negócio ou comprar uma casa ou um carro. Isso literalmente e diretamente concentra a oferta de capital nas mãos de um grupo cada vez menor de pessoas, destruindo as poupanças e dando poder de compra efetivo àqueles com histórico de crédito mais bem avaliados. Isso leva a salários mais baixos e torna as pessoas dependentes daqueles que ainda têm grandes quantidades de capital para contratá-las.”

Novamente, nós concordamos, esse não é um argumento contra o anarcocapitalismo. Estamos falando exatamente a mesma coisa. Continue.

“Sob a anarquia, qualquer um poderia emprestar dinheiro a alguém, não haveria essa coisa especial conhecida como ‘banco’ per se (ou para colocar isso de uma forma diferente, qualquer um poderia abrir uma portinha e chamar de ‘banco’). Sem a moeda corrente e a habilidade de criar grandes quantidades de dinheiro do nada (a ameaça de uma ‘corrida aos bancos’ e/ou desvalorização das notas bancárias efetivamente limitaria isso a um nível muito baixo, baixo o suficiente para dar apenas retorno, no máximo), a oferta de dinheiro não estaria mais nas mãos de um cartel. Fazer empréstimos se tornaria raro, e poupar seria disseminado, distribuindo o capital de forma cada vez mais abrangente, ao invés de cada vez mais restrita, assim diluindo o preço do capital. Sob tal sistema, qualquer deslocamento na demanda seria atendido por um vasto grupo de concorrentes, levando os lucros de volta à média.”

Aqui é onde você se perde. Sim, qualquer um poderia emprestar dinheiro para alguém, a menos que, obviamente, eles não tivessem nenhum dinheiro para emprestar. Emprestar dinheiro requer acumulação de capital, algo que passei esse artigo inteiro tentando te convencer que não é algo impossível ou indesejável.

É verdade que uma oferta de dinheiro que está sempre inflando desencoraja poupar e encoraja fazer empréstimos, mas isso não significa que todos irão poupar e as pessoas irão parar de fazer empréstimos na ausência do estado. Isso simplesmente significa que na ausência do banco central, nós podemos voltar a um ciclo econômico racional. Estude a teoria austríaca dos ciclos econômicos.

Há um motivo pelo qual bancos centrais diminuem as taxas de juros durante tempos de alto desemprego. Se nós tivéssemos um sistema econômico racional (ou seja, sem banco central), baixas taxas de juros indicariam uma baixa demanda por empréstimos, o que indicaria muito capital disponível. Isso faz com que empréstimos sejam baratos, então empresas farão empréstimos para expandir, na esperança de adquirir mais daquele capital disponível do que eles tomaram emprestado para financiar a expansão e isso cria empregos. Obviamente que quando o banco central faz isso não há mais nenhum recurso real disponível, apenas mais moeda fiduciária e então os preços aumentam para compensar a expansão da oferta de dinheiro. Uma empresa investiu em expansão e provavelmente vê uma pequena melhora em seus negócios por causa disso, mas por outro lado despedir empregados traz custos relacionados à demissão, assim a empresa fica inclinada a manter o empregado, mas não pode arcar com um aumento em seu salário para compensar a inflação. Eu acho que é isso que você se refere como escravidão salarial, mas isso não é culpa de capitalistas gananciosos. Isso é culpa dos economistas progressistas e uma política monetária ruim. Eles não se preocupam se você está miserável, apenas se você está empregado, porque pessoas desempregadas derrubam governos, enquanto pessoas empregadas tendem a esperar que as coisas fiquem melhores amanhã.

Em uma economia baseada em ouro/prata/bitcoin isso não pode acontecer. As baixas taxas de juros realmente indicam poupança, os empréstimos expandem as empresas e há recursos reais disponíveis. Concorrentes surgem e ao invés de falir ao perceberem que não há recursos reais, suas empresas podem ser bem sucedidas, elevando a concorrência pelo trabalho e os salários, como você apontou.

“Conforme o preço do capital é diluído, a parte da produção que vai aos trabalhadores aumenta. O que nós eventualmente veríamos é essencialmente uma escassez permanente de mão-de-obra a nível global. As empresas iriam competir pelos trabalhadores, ao invés do contrário. O que é provável, julgando pela história, é que algo como um sindicalismo privado surgiria, onde donos de propriedades produtoras de valor as alugariam para as organizações de trabalhadores, simplesmente por que isso seria mais fácil para eles do que tentar contratar pessoas de uma forma semi-permanente.”

Nada é permanente e o esforço em tornar coisas temporárias em permanentes é como vão acabar com bancos centrais, causando bolhas. Em uma economia real, as taxas de juros são baixas porque as pessoas pouparam. Conforme os empréstimos se expandem, as taxas de juros aumentam devido à maior demanda por capital. Conforme as taxas de juros aumentam, mais pessoas se inclinam a emprestar dinheiro, e assim cada vez menos capital se torna disponível, até que fazer empréstimos se torne menos atraente, a poupança é retomada, e o processo se repete. É algo cíclico.

Essa escassez perpétua de mão-de-obra a nível global que você fala tem sido o santo graal dos bancos centrais pelo o que parece ser uma eternidade. Eles têm fracassado perpetuamente em atingi-lo, deixando para trás nada mais do que desastre e, como você espera que isso irá acontecer, especialmente sem acumulação de capital em larga escala, não aparece no artigo.

Quanto aos proprietários alugando suas fábricas a organizações de trabalhadores, isso soa como um golpe no escuro nas forças de trabalho horizontais, mas você de fato não fez nada para apoiar essa alegação além de indicar que você prevê que isso ocorreria.

Qualquer um que já tenha sido um gerente ou empresário pode te falar que na verdade não é o estado que impede forças de trabalho horizontais de conquistar o mercado. A maioria das pessoas simplesmente não tem habilidades organizacionais ou gerenciais para conduzir um negócio. Se você tentar ter um negócio onde ninguém está de fato no comando, então todos farão o que quiserem e, exceto por alguns grupos de indivíduos extremamente talentosos que eram todos experts no que faziam e cooperavam de forma muito mais sincronizada do que a força de trabalho média, nada de substâncial jamais poderá ser realizado.

Imagine um time de milhares de funcionários do Walmart cuja função é cumprimentar os clientes na entrada das lojas tentando negociar contratados de bilhões de dólares, consertar computadores ou desenvolver campanhas de publicidade. Essa ideia é pura sandice. É para isso que serve a divisão do trabalho. Em qualquer divisão do trabalho, algumas pessoas ganham mais do que outras, algumas pessoas dão ordens e algumas pessoas as obedecem, algumas pessoas preenchem cheques e algumas pessoas os sacam. A esquerda chama isso de “escravidão salarial” ignorando o fato que escravos não recebem salários e não podem pedir demissão.

Isso não é culpa do estado. O estado tem feito tudo em seu poder para rebaixar todos nós ao mesmo nível. É apesar do estado, não por causa dele, que alguns de nós consegue escapar da miséria de empregos que pagam pouco e se sobressai em relação aos outros.

Obviamente que todas essas condições são exacerbadas pela interferência estatal, mas novamente isso é algo que nós podemos agradecer aos estatistas de esquerda. O anarquista de esquerda e o estatista de esquerda repetem uma propaganda praticamente idêntica na esperança de atingir o mesmo objetivo, através de diferentes métodos. Ambos buscam, ou alegam buscar, melhorar o pobre às custas do rico, sob a noção inacreditavelmente ridícula de que riqueza causa pobreza.

A verdade é o contrário, riqueza cria riqueza. Pessoas ricas gastam dinheiro e contratam pessoas. Pessoas ricas investem em empresas start-ups que tiram pessoas da pobreza. Não há uma quantidade limitada de prosperidade que precisa ser redistribuída. Há uma quantidade ilimitada de prosperidade sendo obstruída pela ignorância da população e a violência e coerção do nosso inimigo em comum, o estado.

Notas

[1] N.T.: uma tradução para o português pode ser lida aqui.

[2] N.T.: decidimos ser fiéis ao estilo informal do autor e assim como no original adotar a abreviação “ancap” para o termo anarcocapitalista.

Traduzido por Daniel Chaves Claudino

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Foto de perfil de Christopher Cantwell
https://christophercantwell.com/

É jornalista autônomo e trabalha no Independent Media.

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