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Manifestações: saudáveis para o estado, não para você

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“Com o tempo, uma sociedade de cordeiros acabará gerando um governo de lobos”.
Bertrand de Jouvenel

As manifestações ocorridas em março de 2015, assim como as de junho de 2013, são uma das mais ardilosas jogadas do establishment.

E, por establishment, refiro-me ao sistema de escravização em massa conhecido como estado, e não às suas principais marcas-fantoche, como PT e PSDB.  Estes, vale ressaltar, são aliados formais desde 1993, quando o Foro de São Paulo e o Diálogo Interamericano firmaram o Pacto de Princeton.

É possível perceber a “estratégia da tesoura” de Lênin em ação: grupos aparentemente antagônicos, mas ambos estatizantes, ceifam as liberdades individuais agindo como as lâminas de uma tesoura.

As mesmas pessoas que criticaram pesadamente os protestos de 2013, protagonizados pelo Movimento Passe Livre e pelo PSTU, tecem elogios esperançosos a respeito das manifestações de 2015, que contaram com o apoio de líderes tucanos como Aécio Neves.

A população está depositando na própria política e nos mecanismos democráticos suas esperanças de um futuro melhor. Está implorando por clemência e respeito como um pedinte faminto.

Estes movimentos — alguns financiados por grupos de interesse poderosos — demonstram que o povo brasileiro decaiu do estágio de temor das autoridades estatais para o de respeito a elas. Falta pouco para o estágio de adoração. É uma derrota para a liberdade.

Um povo livre é aquele que desobedece às autoridades estatais, deplora a profissão política, ridiculariza a própria política, desafia as instituições estatais e ameaça o estado. O governo e seus asseclas deveriam ter pavor do povo, que deveria ser rebelde, resistente e desrespeitar as legislações totalitárias e anti-liberdade criadas por políticos.

Mas as manifestações orquestradas incutem nas pessoas uma cultura de participação política, de aceitação passiva das nefandas instituições democráticas e de obediência à legislação.

E como dizia Henry David Thoureau: “A desobediência é o verdadeiro pilar da liberdade. Os obedientes serão escravos.”

Ao contrário do que muitos imaginam, quanto mais politicamente ativo é um povo, mais vulnerável ele se torna ao avanço do estado, pois o ativismo político deixa de ser um fator de resistência contra a tirania e se torna um catalisador da própria escravidão.

Um povo livre, com fortes instituições informais de livre mercado, é capaz de se alinhar em torno do interesse de rechaçar a sanha estatal por poder e controle. Mas, ao participar da política e se tornar politicamente ativo, o povo internaliza as contradições inerentes a essa atividade criminosa, que consiste na espoliação sistemática de propriedade privada.

Esta violência crônica contra a ação humana, perpetrada pelo estado e catalisada pela democracia, corrói as estruturas morais e materiais da civilização humana. A aceitação do privilégio da classe governante de iniciar agressão impunemente gera dissonância cognitiva nas pessoas, um conflito interno psicológico entre conceitos incompatíveis.

Um indivíduo mentalmente saudável é capaz de apresentar empatia pelo seu semelhante e repudiar a coerção contra inocentes.  Por outro lado, ao participar do processo democrático, ele passa a clamar por violência contra o próximo. Desta contradição nasce um perigoso relativismo moral que ameaça a paz e a ordem.

A sujeição da propriedade privada aos caprichos do processo político (socialismo para os íntimos) perverte os incentivos de mercado e distorce os preços da economia. Desprovidos de tais parâmetros, os agentes econômicos encontram maiores dificuldades para alocar recursos escassos de forma eficiente.  Estes erros de cálculo econômico se tornam mais intensos à medida que as decisões econômicas privadas vão sendo substituídas pelas decisões políticas coletivas. E, quando os recursos escassos são coletivizados, ocorre a chamada tragédia dos comuns: a deterioração potencializada pela demanda ilimitada e custos socializados.

A internalização do crime político gera cizânia e conflitos artificiais de interesse no âmbito particular, impedindo a confluência dos sentimentos de resistência popular contra o governo.

O único alinhamento que existirá será a demanda por mais poderes para o estado.

As pessoas que deveriam estar trabalhando honestamente e cooperando via mercado pedirão que a quadrilha estatal regule e espolie seu fornecedor, seu cliente, seu concorrente, e até sua família.  Instituições voluntárias, valores culturais, hierarquias naturais (não-impostas) e arranjos espontâneos são nulificadas no turbilhão daquilo que René Girard chamou de “crise de posição” (crisis of degree, numa tradução livre), em que “formas associativas são dissolvidas ou se tornam antagonistas; todos os valores, espirituais ou materiais, perecem”.

Este é o efeito descivilizatório da política, um eufemismo para violência sistemática. A participação política é quando o povo ataca aqueles que um dia amaram. A política não corrói apenas o capital, mas também a alma.

É improvável que a consideração destes terríveis efeitos influencie o comportamento das multidões mobilizadas — afinal, como disse Gustave Le Bon, “em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada.”

Como se isso não bastasse, os protestos não atacam o problema real. Apenas enterram soluções reais, como o separatismo. Funcionam como um escudo do mal, protegendo o unionismo, a tributação e o atentado às liberdades civis ao canalizar o descontentamento popular contra falsos problemas, como a corrupção.

O povo está pedindo o fim do desvio de verba estatal, e não o fim do poder do governo de gerar inflação, cobrar impostos, regular a economia e impedir interações voluntárias. O estado existe apenas para nos roubar. Pedir o fim da corrupção estatal é uma quimera e significará aumentar o controle sobre atividades privadas, não deixando espaço para escaparmos aos ditames criminosos da legislação.  Significará a criação de movimentos populares tais como os Guardas Vermelhos de Lênin, que nulificarão qualquer autonomia local em prol de arranjos administrativos análogos aos sovietes. Significará um estado policial totalitário corroborado por informantes, espiões e “fiscais do Sarney” que agirão no coração das famílias e comunidades locais.

“Democracia! Estado de direito! Representação! Igualdade!” — essas são as palavras de ordem comuns a todas as manifestações. Quimeras pelas quais a turba é capaz de sacrificar a própria liberdade. Seja um black bloc quebrando propriedade privada, seja o “coxinha” batendo panela na sacada do apartamento, nenhum deles sabe definir pelo que está protestando. A massa se torna cada vez mais homogênea e indistinguível. Fácil de controlar. Ao gosto do establishment.

A natureza dos protestos de março de 2015 não apenas foi pacífica, mas também passiva. É a normalização do controle social, que Michel Foucault chama de “poder disciplinador”. O povo se acostumou a ser controlado e não mais se indigna diante da injustiça tirânica.

Se as manifestações fossem espontâneas, refletindo assim os sentimentos que afloram quando um indivíduo reflete moralmente e tenta proteger sua família, o resultado seria uma efetiva onda de desobediência civil, sonegação em massa e boicotes ao estado. Isso não acontecerá enquanto houver a sujeição ao status quo, sujeição essa que impede que ocorra qualquer movimento de grande magnitude que se desenvolva de baixo para cima.

A grande maioria das pessoas que lá estavam nas passeatas de março é formada por pessoas boas, honestas, trabalhadoras, que foram enganadas e manipuladas.

Mas os articuladores do movimento são traidores. Não traidores da Pátria (eu não me importo com a Pátria); são traidores do povo. Traidores dos seres humanos escravizados em nome dessa abstração chamada Brasil, a serviço desse súcubo maligno chamado democracia.

 

Obs.: Pra quem não pegou a referência da imagem do artigo, ver o vídeo abaixo.

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Foto de perfil de Paulo Kogos

Paulo Kogos é um anarcocapitalista anti-político.