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Libertarianismo, direita, esquerda, conservadorismo, progressismo

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Sempre houve uma discussão sobre se o libertarianismo é mesmo de direita ou de esquerda. Mas o que define se alguém é de direita ou de esquerda? Hoppe fez uma diferenciação clara sobre a diferença entre a direita e a esquerda:

A direita reconhece a existência de diferenças humanas individuais não apenas com relação ao local físico e à composição do ambiente humano e do corpo humano individual (sua força, altura, peso, idade, sexo, cabelo, pele, cor do olho, características faciais, etc., etc.). Mais importante, a direita também reconhece a existência de diferenças na composição mental das pessoas, i.e., nas suas habilidades cognitivas, talentos, disposições psicológicas e motivações. Reconhece a existência de brilhantes e estúpidos, espertos e idiotas, pessoas de visões de curto alcance e de longo, atarefados e preguiçosos, agressivos e pacíficos, obedientes e inventivos, impulsivos e pacientes, escrupulosos e descuidados, etc., etc. A direita reconhece que essas diferenças mentais, resultantes da interação entre o ambiente e o corpo humano físicos, são os resultados de fatores ambientais e fisiológicos, biológicos. A direita reconhece ainda que as pessoas estão ligadas (ou separadas) tanto fisicamente no espaço geográfico quanto emocionalmente pelo sangue (relações e pontos em comum biológicos), pela linguagem e religião, bem como por costumes e tradições. Ademais, a direita não meramente reconhece a existência dessas diferenças e diversidades. Ela percebe também que os resultados de diferenças iniciais serão de novo diferentes e resultarão em pessoas com muitas ou poucas propriedades, em ricos e pobres, e em pessoas de status sociais e classes altos e baixos e influências e autoridades maiores e menores. E ela aceita esses resultados diferentes de inícios diferentes como normais e naturais.

A esquerda, por outro lado, está convencida da fundamental igualdade do homem, de que todos os homens são “criados iguais”. Ela não nega, é claro, o evidentemente óbvio: existem diferenças ambientais e fisiológicas, i.e., algumas pessoas moram nas montanhas e outras à beira-mar, alguns homens são altos e outros baixos, alguns brancos e outros negros, alguns machos e outros fêmeas, etc. Mas a esquerda nega diferenças mentais ou, desde que estas sejam evidentes demais para ser negadas, ela as tenta explicar como “acidentais”. Isto é, a esquerda explica essas diferenças como determinadas apenas ambientalmente, de tal modo que uma mudança nas circunstâncias ambientais (mudando uma pessoa das montanhas para o litoral e vice-versa, por exemplo, ou dando a cada pessoa atenções pré e pós-natal idênticas) produziria um resultado igual, e ela nega que essas diferenças são causadas (também) por alguns – comparativamente intratáveis – fatores biológicos. Ou então, naqueles casos em que não se pode negar que os fatores biológicos exercem um papel causal determinando sucesso ou fracasso na vida (dinheiro e fama), como quando um homem muito alto não pode ganhar uma medalha de ouro olímpica na corrida de 100 metros ou uma garota gorda e feia não pode se tornar Miss Universo, a esquerda considera essas diferenças como pura sorte e o resultado do sucesso ou fracasso individual como não merecido. Em qualquer caso, tendo sido causadas por circunstâncias ambientais ou atributos biológicos vantajosos ou desvantajosos, todas as diferenças humanas observáveis devem ser equalizadas. E onde isso não pode ser feito literalmente, como não podemos mover montanhas e mares ou tornar pequeno um homem alto ou negro um homem branco, a esquerda insiste que os imerecidamente “sortudos” devem compensar os “azarados” de modo que cada pessoa esteja de acordo com uma “condição igual de vida”, em correspondência com a igualdade natural de todos os homens.[1]

Por essas descrições fica bem claro de qual lado o libertarianismo está. A direita, por reconhecer tais diferenças, tende a ser mais favorável ao relativismo jurídico estatista. A esquerda, no entanto, busca corrigir essas diferenças por meio de uma engenharia social. Por isso ela busca defender a legalização do casamento gay, cotas para negros em instituições de ensino, leis antidiscriminação, dentre outras aberrações que vão contra a ordem natural. Mesmo que consideremos a definição clássica do termo[2], é inegável que – mesmo não sendo totalmente compatível com o ideal libertário – a direita é mais compatível com a ordem natural do que a esquerda por ela não se apegar tanto ao relativismo.

Portanto, é justo dizer que a direita (dentro da definição acima) não deve defender a democracia (governo da maioria) e que dentro das definições clássicas do termo e da atual definição, não podemos encontrar um único motivo para a esquerda defender as pautas libertárias por mais que tenham surgido pensadores anarquistas que se definiam de esquerda.[3] Fora a defesa de pautas típicas de esquerda (negação do direito à propriedade, seja total ou de certos recursos como de terra), o maior responsável pela razão deles se definirem de esquerda é a oposição ao governo aristocrático na época. Seja monárquico ou republicano. É natural esperarmos que os movimentos anarquistas se oponham às formas de governo vigente com mais ênfase que as demais. Atualmente, como a grande maioria dos governos são de esquerda, vemos um crescente número de anarcocapitalistas. Porém, com o avanço do conhecimento sobre a ética libertária somada ao da economia austríaca, fica claro que apenas o anarcocapitalismo é coerente com a total defesa da liberdade e que ela é possível apenas com o direito à propriedade privada garantido. O tempo mostrou que a esquerda tende a ser mais estatista que a direta por razões explicitadas na definição exposta por Hoppe.[4] Portanto, até faria algum sentido existirem anarquistas e libertários de “esquerda” num período onde o governo era aristocrata (ainda que seja menos ruim que os governos democráticos) e a ignorância econômica imperava. Porém, num período onde há pleno conhecimento econômico e que a esquerda já se provou por A + B que é estatista, anti-natural, anti-humana e com tendência totalitária, é inaceitável que qualquer libertário possa se assumir de esquerda, i.e., se assumir left-lib.

Mas um libertário pode se definir um conservador? A resposta é um enfático sim. Um libertário pode se definir como conservador ao defender os valores morais, culturais e familiares como princípios absolutos. O conservador de verdade jamais deve defender o uso do estado para “proteger” esses princípios, que antes de mais nada devem ser protegidos pela propriedade privada. Ao defender a força estatal para proteger tais princípios, o “conservador” estatista estará sendo totalmente contraproducente pois a promoção do uso da força estatal pode ser usada no futuro também contra eles, bastando para isso alterar o parasita de plantão. Não existe um nível seguro para o uso do aparato coercitivo do estado. Ademais, o estado proteger a propriedade é uma contradição em termos já que, sendo um monopolista da segurança, ele inicia todo o processo violando – a pelo crime do imposto – um assalto em larga escala.

Nenhum conservador real (aristocrata, instransigente e que vê como fim os valores morais, culturais e familiares) pode ser multiculturalista e deve saber que a democracia é indefensável. A democracia, como bem explicitou Hoppe, é a destruição de todos os valores conservadores e libertários.[5] Como a democracia é essencialmente o governo da maioria, apenas os mais populistas tendem a ganhar e os eleitos sempre tomarão as iniciativas visadas a curto prazo resultando em altos gastos, aumento de impostos, políticas demagogas visando igualdades e populismo, promovendo enfraquecimento das instituições culturais e privadas como a família e a igreja. O conservador real veria a solução em governos aristocratas (seja sob a forma de república ou democracia) ou no anarcocapitalismo. Um governo aristocrata ainda seria um problema devido ao fato já apontado. Hoje é praticamente impossível a restauração de uma república ou monarquia aristocrata. A democracia dominou o mundo e não existe outra alternativa que não seja a secessão. Todavia, não é objetivo desse texto abordar a estratégia para restaurar um governo aristocrata ou a ordem natural.

A democracia, como se vê, é a mãe do progressismo e responsável pela ascensão da esquerda. Nos dias atuais, quase todos os ativistas políticos que se dizem conservadores defendem a democracia e defendem pautas estatistas. Muito provavelmente para ver se conseguem atrair alguém da esquerda. Muitos libertários cometem o mesmo erro. Assim como os conservadores tolerantes, os left-lib também acabam prestando um desserviço ao procurar o público da esquerda. Por mais que esse público seja hoje a esmagadora maioria, deve-se deixar claro que procurá-lo é reforçar o establishment.[6]

Concluo aqui que os libertários sob nenhuma hipótese deve defender pautas progressistas. O progressismo implica aceitações em mudanças artificiais da sociedade. Ou seja, mudanças que vêm de cima para baixo via força bruta do estado. Nunca, com uma mudança natural, que podemos defender mudanças artificiais impostas via força bruta ou estimuladas artificialmente. Portanto, é ilógico um libertário propor qualquer defesa de pautas esquerdistas e progressista. Além de defender a liberdade, o foco do libertário deve ser também a preservação da ordem natural.

_________________________

Notas:

[1] Hans-Hermann Hoppe; “A Realistic Libertarianism” (LewRockwell.com, 2014). Disponível em português como “Um Libertarianismo Realista” (Instituto Rothbard, 2016).

[2] Os termos “direita” e “esquerda” na política surgiram durante a Revolução Francesa. Na época, os direitistas eram os partidários da monarquia e os esquerdistas da república. Com o tempo, porém a direita passou a ser vista mais como partidários do conservadorismo e a esquerda do progressismo. Ainda que hajam outras variantes que invertam um pouco. No fim, a definição do Paul Gottfried usada por Hoppe na nota anterior parece ser a melhor. Ver mais em Andrew Knapp e Vincent Wright; The Government and Politics of France (Routledge, 2006).

[3] Na verdade, anarquistas como o Pierre-Joseph Proudhon se denominavam de esquerda muito mais por se opor ao governo (que na época era bem aristocrático) do que defender o estado em si. O problema é que eles desconheciam quase que por completo a economia. Proudhon inclusive era contra a apropriação de terras e até definia a propriedade privada como roubo. Os seus argumentos costumam ser completamente irracionais, ilógicos e adeptos ao apelo emocional. Um bom exemplo é a sua resposta a uma defesa a apropriação de terras do economista Jean Baptiste Say. Proudhon simplesmente não apresentou uma resposta sensata ao Say. Muito pelo contrário, apenas disse que todos deveriam ter acesso à terra porque a Providência fez com que a Natureza lhe garantisse a gratuidade e comparou a apropriação de terras com a do ar e da água dizendo que não poderiam ser apropriados simplesmente por serem essenciais à nossa vida. Ver Pierre-Joseph Proudhon; O que propriedade? (Lisboa; Editora Estampa, 1975), pp. 77-80.

[4] A esquerda tende a promover a igualdade de maneira artificial. Ou seja, para as pautas esquerdistas darem certo, eles precisam do estado. Muitos esquerdistas tentam, por exemplo, condenar o direito à discriminação, porém, os mesmos não percebem que isso é intrínseco ao direito à propriedade privada. Principalmente se, por exemplo, algum estabelecimento se recusar a atender um casal de homossexuais ou interracial. Os left-libertarians (left-lib) geralmente desconhecem a origem desse pensamento antes de promover boicotes que vão contra a ordem natural (ordem social que existiria sem intervenção do estado. Podendo também ser sinônimo de anarcocapitalismo dependendo do contexto) como esses contra a discriminadores.

Tais pensamentos contrários à ordem natural possuem origem no politicamente correto – autoritária por natureza – e que violam a propriedade privada. O que significa que os left-lib são idiotas úteis do establishment. Caberia, então, apenas aos libertários reais (que possuem pensamentos reacionários e/ou que são cultural e moralmente conservadores) o papel de combater essa ideia desprezando, ridicularizando e boicotando quem a promove. Não deve haver espaço para sentimentos anti-discriminação, igualitaristas, politicamente corretos, tolerantes, multiculturalistas e de culto à natureza, meio ambiente e pacifismo dentro do libertarianismo. A esquerda procura sempre defender propostas que vão contra a ordem natural, positivistas e de degradação moral e cultural.

[5] Isso pode ser visto ao longo de toda a sua obra Democracia – o deus que falhou (São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2014).

[6] Atualmente, a maioria dos left-lib apoiam o Libertarian Party. As pautas são as mais bizarras que variam desde a legalização da maconha (que implica tributações que serviriam para o estado fincar mais as suas garras como já acontecem em certos estados dos EUA) à legalização do casamento entre homossexuais, que significa um aumento ainda maior do estado, que passará a registrá-lo e criarão mais leis que regularão partilha de bens, heranças e ainda intensificará ainda mais a indústria do divórcio. Esse partido apenas mostra que os libertários na verdade deveriam se afastar da política, e não participar dela. O próprio Rothbard abandonou o Libertarian Party, quando o viu cheio de hippies e outros degenerados propondo estilos de vidas alternativos e focados na liberação das drogas. Apesar do Rothbard defender essa última pauta, nunca defendeu como prioridade ou tinha essa pauta como seu foco político. Conservador, elegante e com porte de aristocrata, Rothbard também era casado com uma cristã muito devota e sempre defendeu um estilo de vida conservador. Muito provavelmente, se arrependeu de ter ajudado a fundar o partido, época em que ele ainda via chance de alcançar a liberdade via-política.

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Austrolibertário, praxeologista, antipolítico, cristão e também contribui para os sites Foda-se o Estado e Instituto Rothbard.

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