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set 6, 2017
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A extraordinária memória de Murray Rothbard

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Eu recebi meu Ph.D. em história. Minha especialidade foi Estados Unidos colonial. No entanto, quando eu peguei para ler a obra em quatro volumes sobre os EUA colonial de Murray Rothbard, Conceived in Liberty, esperando uma leitura “superficial”, fiquei estupefato. A cada página eu me deparava com relatos de incidentes que eu nunca tinha nem ouvido falar. (Hoje em dia a obra está disponível em um único grosso volume.)

Rothbard escreveu este livro num projeto paralelo. Ele era um economista de formação, também graduado em matemática. Ele não tinha nenhum estudo formal como historiador dos Estados Unidos colonial.

Como ele conseguiu fazer isso? O professor Richard Ebeling pode ter uma pista. Isto é de um e-mail de 1 de maio de 2012:

 

Murray Rothbard e Howie Rich nos anos 70

“Roy Childs me contou que em uma de suas visitas ao apartamento de Murray e Joey em Nova York, Murray e ele estavam na sala, cada um lendo um livro.

Roy reparou que Murray parecia estar rapidamente passando os olhos e virando as páginas do livro que segurava. Ele perguntou pro Murray como ele podia entender e lembrar alguma coisa folheando um livro rápido desse jeito?

Murray jogou o livro pra ele e disse, ‘Roychik, escolha qualquer página e eu vou te falar o que tem nela’. Roy abriu o livro, começou a ler em voz alta, e Murray o interrompeu, e continuou de onde Roy parou resumindo o resto do argumento daquela parte do livro.

Roy me contou que ele disse, “Bem, você estava vendo este livro agora e tinha acabado de ler esta parte”.

Então o Murray apontou para a estante de livros que ia até o teto atrás de Roy e disse, ‘Roychik, escolha qualquer livro, qualquer livro dessa estante, e o abra em qualquer página’.

Roy se esticou para alcançar as prateleiras de cima, puxou um livro sobre estética que estava empoeirado, que dava para ver que não havia sido aberto há muito tempo.

Roy começou a ler aleatoriamente o livro. Depois de duas ou três frases, Murray disse, ‘Ok, já basta’.

Murray prosseguiu resumindo o resto do argumento do autor, explicando porque o autor estava errado porque ele claramente não tinha lido os livros ‘X’, ‘Y’ e ‘Z’, onde os autores explicavam isso e aquilo.

Roy disse que Murray podia fazer isso com praticamente todos os livros de sua vasta biblioteca que lotava os cômodos e corredores de seu apartamento.”

 

Rothbard, diferente de outras pessoas que tem memórias desse tipo, não permitiu que seu estoque colossal de fatos e opiniões memorizados o paralisasse. Ele possuía um sistema interpretativo – Economia Austríaca – então ele era capaz de integrar todo este material.

Aqui vai outro exemplo. Este é do professor Robert Higgs, que estabeleceu um padrão com seus livros sobre a relação entre guerra e governos centralizados. Seu primeiro livro sobre este tema, Crisis and Leviathan, foi publicado pela Oxford University Press, um grande feito para qualquer acadêmico. Mais impressionante ainda, ele continua sendo publicado mais de 25 anos depois.

No livro, In Memorium (1995), Higgs nos apresenta esta recordação:

 

“Meu encontro mais íntimo com o historiador econômico Rothbard, no entanto, foi extraoficial. No começo de 1985 apresentei um manuscrito ao Pacific Research Institute que, após diversas revisões e algumas adições, foi eventualmente publicado como Crisis and Leviathan pela Oxford University Press em 1987. A Pacific pediu a diversos estudiosos eminentes, incluindo Murray, que analisassem meu original. A crítica de Murray foi muito além do que poderia se esperar, e foi no formato de uma carta a Greg Christainsen da Pacific, datada de 27 maio de 1985. Ela tinha 26 páginas, provavelmente mais de 12.000 palavras. Ao longo dos anos vi muitos relatórios de analistas e críticos, mas jamais algo que chegasse perto desta notável epístola.

A carta começava com duas páginas de elogios ao meu manuscrito. Murray gostou da minha abordagem geral. ‘Talvez sem perceber’, ele escreveu, ‘o professor Higgs aborda a história a partir do ponto de vista praxeológico misesiano, conhecendo e aplicando as verdades e leis da ciência econômica, mas também reconhecendo que ideologia e outros fatores possuem também importância crucial’. Ele gostou do que descreveu como minhas ‘críticas a cliométricas Chicagoites e a história da Escolha Pública – ambas as quais tentam resumir toda história com algumas equações, ou com uma abordagem simplista unidimensional’. Murray elogiou meu trabalho por não ser livre de juízo de valor. ‘Sofremos por muito tempo’, ele escreveu, ‘de uma dicotomia na qual ensaístas e panfletários, sem formação, eram contundentes e imbuídos de valor enquanto que acadêmicos eram evasivos, escritores truncados que se escondiam por trás de um minucioso manto de ausência de juízo de valor’. Ele adorou que eu chamei uma pá de uma pá e não de um “instrumento triangular para cavar”.

Ele declarou que ‘os valores de Higgs eram meus valores’, aplaudindo minha percepção de que a guerra e o militarismo são ‘as principais causas e a personificação da intervenção’ no mercado e da supressão da liberdade e da livre iniciativa. Minha hostilidade diante do alistamento militar obrigatório e minha objeção de direitos naturais a ele – ao contrário de uma objeção de eficiência neoclássica – o agradou imensamente. Meus comentários a respeito do padrão ouro também ganharam sua aprovação.

Se eu tivesse parado de ler depois das duas primeiras páginas, eu poderia ter me achado um estudioso pra lá de bom. No entanto, as próximas 24 páginas iriam frustrar qualquer tentativa desse tipo.

Elas continham uma crítica minuciosa porém abrangente, juntamente com um monte de sugestões sobre o que precisava ser adicionado ao meu texto e quais outros livros, artigos e dissertações eu precisava ler para corrigir meus equívocos e completar meu conhecimento.

Em muitos pontos, Murray prefaciou sua crítica anotando, ‘o professor Higgs vacila aqui’.

Ainda posso me lembrar do sentimento desanimador que tive após terminar a carta. Eu sabia que minha expectativa de vida não era suficiente para cumprir o que Murray disse que precisaria ser feito. Triste dizer, mas eu não poderia ler aquilo tudo em uma década, mesmo se eu não fizesse nada além disso, muito menos incorporar tudo isso em um livro coerente. Nunca haviam me mostrado antes em uma forma tão bem documentada o quanto inadequado sou para ser um estudioso – afinal, mesmo o patético manuscrito que o Murray estava debulhando tinha me tomado cinco anos para ser redigido e foi baseado de certa forma em vinte anos de estudos e pesquisas.

Não são todos que estão destinados a grandeza. Fiz numerosas revisões do meu texto e minhas notas de rodapé segundo as diretrizes da carta de Murray. Não preciso dizer que não fui capaz de seguir a maior parte de suas sugestões, e não tenho dúvidas de que meu livro ficou pior por conta dessa incapacidade. Tudo que posso dizer em minha defesa é que o livro, do jeito que está, foi finalizado e publicado no meu tempo de vida. E eu tive sorte. Quando Murray revisou o livro para a revista Liberty em 1987, ele o elogiou excessivamente, sem citar uma palavra sobre as limitações que ele passou 24 páginas detalhando em uma comunicação privada redigida sobretudo para o meu bem.”

 

Não são todos entre nós que estão destinados a grandeza. Certamente Rothbard estava. Ele pegou suas habilidades e fez algo produtivo com elas. Ele tinha grandes habilidades. Ele foi muito produtivo.

 


Tradução:
 Fernando Chiocca

Artigo original aqui.

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Libertarianismo
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Ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história.

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