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3 meses atrás
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A Economia de Hitler

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Para a geração de hoje, Hitler é o homem mais odiado na história, e seu regime o arquétipo da má política. Essa visão não se estende a suas políticas econômicas, entretanto. Passa longe delas. Elas são abraçadas por governos ao redor do mundo. O Glenview State Bank de Chicago, por exemplo, recentemente louvou a economia de Hitler em seu boletim informativo mensal. Fazendo isso, o banco descobriu os perigos de elogiar políticas keynesianas no contexto errado.

A edição desse boletim (de julho de 2003) não está online, mas o conteúdo pode ser encontrado através da carta do protesto da Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação). “Independentemente dos argumentos econômicos” a carta diz, “as políticas econômicas de Hitler não podem ser dissociadas de suas grandes políticas de anti-semitismo virulento, racismo e genocídio… Analisando suas ações através de qualquer outra lente desvia-se seriamente do objetivo.”

O mesmo poderia ser dito sobre todas as formas de planejamento centralizado. É errado tentar examinar as políticas econômicas de qualquer estado leviatânico dissociado da política violenta que caracteriza todo planejamento centralizado, seja da Alemanha, da União Soviética, ou dos Estados Unidos. A controvérsia destaca as maneiras em que a conexão entre a violência e o planejamento central ainda não é compreendido, nem pela ADL. A tendência dos economistas de admirar o programa econômico de Hitler é um exemplo.

Nos anos 30, Hitler era visto abertamente como apenas mais um planejador central protecionista que reconheceu o suposto fracasso do livre mercado e a necessidade do desenvolvimento econômico guiado nacionalmente. O economista socialista proto-keynesiano  Joan Robinson escreveu que “Hitler encontrou a cura contra o desemprego antes que Keynes tivesse terminado de explicar como fazê-lo.”

O que eram essas políticas econômicas? Ele suspendeu o padrão-ouro, embarcou em robustos programas de obras públicas como as autobahns, indústria protegida da competição estrangeira, crédito expandido, instituiu programas de emprego, intimidou o setor privado nas decisões produtivas e de preços, expandiu vastamente o exército, forçou controle de capital, instituiu planejamento familiar, criminalizou o fumo, implantou sistema de saúde nacional e seguro desemprego, impôs padrões educacionais, e normalmente criou enormes déficits. O programa intervencionista nazista foi essencial para a rejeição do regime de livre mercado e para a adoção do socialismo no país.

Tais programas permanecem sendo amplamente elogiados hoje, até mesmo suas falhas. Elas são características de toda democracia “capitalista”. Mesmo Keynes admirou o programa econômico nazista, escrevendo no prefácio da edição alemã a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda: “A teoria da solução como um todo, que é o que o livro a seguir pretende fornecer, é muito mais facilmente adaptado às condições de um estado totalitário, do que é a teoria da produção e distribuição de uma dada solução produzida sob condições de livre competição e de uma larga medida de laissez-faire.”

O comentário de Keynes, que pode chocar muitos, não veio do nada. Economistas de Hitler rejeitaram o laissez-faire, e admiravam Keynes, até prenunciaram-no em vários aspectos. Similarmente, os keynesianos admiravam Hitler (ver George Garvy, “Keynes and the Economic Activists of Pre-Hitler Germany” (“Keynes e os Ativistas Econômicos da Alemanha Pré-Hitler”), The Journal of Political Economy, Volume 83, Issue 2, April 1975, pp. 391–405.

Mesmo em 1962, em um relatório escrito ao Presidente Kennedy, Paul Samuelson expressou implícita admiração por Hitler: “a história nos lembra que até nos piores dias da grande depressão nunca houve uma escassez de especialistas para alertar contra todas as ações públicas curativas… Tivesse esse conselho prevalecido aqui, como fez na Alemanha Pré-Hitler, a existência de nossa forma de governo poderia estar em jogo. Nenhum governo moderno cometerá o mesmo erro de novo.”

Em certo nível, isso não surpreende. Hitler instituiu um New Deal na Alemanha, diferente de Franklin Roosevelt e de Mussolini apenas em alguns detalhes. E funcionou apenas no papel, e no sentido de que os PIB’s da época refletiam um caminho de crescimento. O desemprego manteve-se baixo porque Hitler, apesar de intervir no mercado de trabalho, nunca tentou aumentar os salários para além de seu nível de mercado. Mas, por baixo de tudo, graves distorções tomavam espaço, como ocorre em qualquer economia que não é de mercado. Esses planos podem aumentar o PIB no curto prazo (veja quanto o governo americano gastou quando aumentou a taxa de crescimento em 2003 de 0,7% a 2,4%), mas não funcionam no longo prazo.

“Escrever sobre Hitler sem o contexto dos milhões de inocentes brutalmente assassinados e as dezenas de milhões que morreram lutando contra ele é um insulto a todas essas memórias,” escreveu a ADL em protesto contra a análise publicada pelo Glenview State Bank. De fato, é.

Mas ser realista sobre as implicações morais das políticas econômicas é a especialidade da profissão. Quando economistas pedem pelo aumento da “demanda agregada”, eles não explicam o que isso realmente significa. E isso significa forçosamente substituir as decisões voluntárias de consumidores e poupadores, violar seus direitos de propriedade e sua liberdade de associação em detrimento da realização das ambições econômicas do governo. Mesmo se tais programas funcionarem em algum sentido econômico técnico, eles deveriam ser rejeitados simplesmente por serem incompatíveis com a liberdade.

Assim é com o protecionismo. Foi a maior ambição do programa econômico de Hitler para expandir as fronteiras da Alemanha e tornar a autarquia viável, o que significou construir grandes barreiras protecionistas à importação. O objetivo era tornar a Alemanha autossuficiente, e então não se arriscar à influência estrangeira, além de não haver o fato de sua economia não ter seu destino ligado ao de outros países. Foi um caso clássico de xenofobia contraproducente.

Talvez a pior parte dessas políticas é que elas são inconcebíveis sem um estado leviatânico, exatamente como Keynes disse. Um governo grande e poderoso o bastante para manipular a demanda agregada é grande e suficiente o bastante para violar as liberdade civis das pessoas e atacar seus direitos de todas as outras maneiras. Políticas keynesianas (ou hitleristas) soltam a espada do estado sobre a população inteira. O planejamento central até em sua variedade mais insignificante é incompatível com a liberdade.

Desde 11/9 e sua reposta autoritária e militarista, a esquerda alertou que Bush era o novo Hitler, enquanto a direita condena esse tipo de retórica como hipérbole irresponsável. A verdade é que a esquerda, ao afirmar isso, está mais correta do que pensa. Hitler, como Franklin D. Roosevelt, deixou sua marca na Alemanha e no mundo por quebrar os tabus contra o planejamento centralizado e fazendo do grande governo um recurso aparentemente permanente nas economias ocidentais.

David Raub, o autor do artigo para Glenview, foi ingênuo ao pensar que poderia olhar para os fatos como o mainstream os vê e surgir com o que ele achou ser uma resposta convencional. A ADL está certa nesse caso: planejamento centralizado jamais deveria ser elogiado. Nós devemos sempre considerar seu contexto histórico e resultados políticos inevitáveis.

Tradução de Marília FerreiraArtigo original

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Foto de perfil de Lew Rockwell
https://www.lewrockwell.com/

é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

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