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2 meses atrás
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A desconstrução da arte

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Uma vez um grande amigo me pediu para eu marcar um ponto chave na decadência artística ocidental, provavelmente esperando que eu dissesse algo a respeito do pós-modernismo. Mas em arte, minha tese é que ele não se distingue fundamentalmente da modernidade, mas é sua consequência lógica inexorável. Uma indicação desse fato, reside na minha própria resposta à pergunta dele: a Fonte (1917) de Marcel Duchamp, o pai do modernismo. Uma pessoa atenta logo verá que a “obra” representa as principais teses pós-modernas sobre a arte, a saber, (i) o artista não é um grande criador – Duchamp foi às compras em uma loja de encanamento; (ii) a obra de arte não é um objeto especial – ele foi produzido em massa em uma fábrica; (iii) a experiência da arte não é emocionante e enobrecedora – é intrigante e nos deixa com uma sensação de desgosto. Mas muito além disso, Duchamp não selecionou apenas um objeto pronto e acabado para exibir. Ele poderia ter escolhido uma pia ou uma maçaneta. Ao selecionar o mictório, a sua mensagem era clara: (iv) a arte é algo no que você urina.

Despida de seus significados de beleza e realismo, a arte passa a ser um empreendimento puramente filosófico, ao invés de artístico. Eis então que emerge nosso bem conhecido conceito de desconstrução. Se o objetivo condutor do (pós)modernismo não é fazer arte, mas descobrir o que é arte, então o jeito é desconstruí-la: nós eliminamos X – ainda é arte? Agora nós eliminamos Y – ainda é arte? A finalidade de objetos de arte é como a sinalização ao longo da rodovia – não como objetos de contemplação, mas como marcadores para nos dizer o quão longe viajamos por uma determinada estrada. Este foi o ponto de Duchamp, quando observou ele, desdenhosamente, que a maioria dos críticos tinha perdido o ponto: “Eu joguei o porta-garrafas e o mictório em seus rostos como um desafio, e agora eles os admiram por sua beleza estética”. O mictório não é arte, é um dispositivo usado como parte de um exercício intelectual para descobrir por que ele não é arte.

O homem moderno não teve resposta ao desafio de Duchamp, e na década de 1960 ele percebeu que havia atingido um beco sem saída. Na medida em que a arte moderna tinha conteúdo, seu pessimismo levou à conclusão de que nada valia a pena dizer. Na medida em que ele jogou a eliminação redutiva, ele descobriu que nada de unicamente artístico sobreviveu à eliminação. Arte tornou-se nada. Andy Warhol encontrou seu caminho sorridente habitual para anunciar o fim, quando perguntado o que ele achava o que ainda era a arte: “Arte? Oh, é o nome de um homem”.

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http://ideallibertario.wordpress.com/

Físico, possui mestrado em matemática pura e economia. Hoje está finalizando seu doutorado em Álgebra, ele também é um tradutor e autor de textos libertários tendo colaborado com inúmeros projetos na mídia libertária virtual. Possui diversos artigos e traduções disponíveis em diversos sites libertários e hoje compilados em seu site pessoal Ideal Libertário. Tem foco em interesse na teoria legal libertária. Politicamente é um austrolibertário agorista, anti-político e entusiasta de moedas virtuais como o Bitcoin, tendo escrito e difundido diversos manuais e guias a seu respeito.

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