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3 meses atrás
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As fabulosas vantagens da Democracia: Reflexões de um político iniciante

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Nunca gostei de trabalhar, e nunca demonstrei talento para nada profícuo. Não me prendo a grilhões morais, antes amo a luxúria, a perversão, a degenerescência, tudo que rasteja em lama. Sinto uma inclinação mórbida por enriquecer-me à custa dos outros, mas acomete-me uma cobardia violenta, de modo que sequer cogito o roubo como profissão. O furto tampouco me valeria para o sustento, vez que se trata de uma arte astuciosa que exige, caso eu a queira como ofício, alguma agudeza de raciocínio. Sou prodigioso em mentir, porém. Em enganar, dissimular, fingir, convencer e afetar grande carisma. Busquei com afinco um meio de subsistência no qual eu me enquadrasse perfeitamente junto com essas minhas qualidades. Vi que seria execrado de qualquer ambiente minimamente digno, e só encontrei um único lugar adequado para mim, onde minhas baixezas se arvoram a virtudes e onde eu posso erigir carreira fortunosa: o Estado.

Com efeito, essa instituição é a única alternativa para biltres fracassados como eu, mas, em compensação, estende suntuoso tapete vermelho para essa canalha, em direção ao sucesso. Nenhum meio de locupletar-se, para aqueles homens livres de escrúpulos, é mais auspicioso que o meio político. Do alto da minha torpeza, logo captei essa oportunidade. Mas antes de procurar integrar-me ao aparato estatal, dei-me a algumas reflexões.

Tenho sorte por estar numa democracia. Em um sistema aristocrático ou monárquico, seria praticamente impossível eu ascender a qualquer cargo importante que me fizesse rico. Numa Ordem Natural, anárquica, eu seria facilmente ostracizado. A democracia ostenta, de fato, grandes vantagens, do ponto de vista da patifaria.

Alardeiam-se muitas características como se pertencessem à democracia, mas em verdade ela se funda em tão somente quatro dogmas: o direito de votar, o direito de se candidatar, o princípio da igualdade do voto e o princípio da maioria. Arranjo nenhum poderia ser mais oportuno.

O direito de se candidatar já abre as portas do poder para toda sorte de vagabundos, muito ao contrário do que sucede num livre-mercado, na preponderância dos meios econômicos, ou na aristocracia. A igualdade do voto, por seu turno, significa que o voto de um analfabeto preguiçoso e de escassa inteligência tem valor idêntico ao de um intelectual ou ao de um empreendedor prolífico. Esse igualitarismo democrático somado ao princípio da maioria forma uma arma magnífica em meu favor. Já que o voto de todos é igual, apenas uns poucos idiotas (verdadeiros idiotas) irão gastar tempo investigando sobre as propostas e a idoneidade dos candidatos a cargos estatais, porque todo o trabalho dedicado a essa pesquisa, o qual poderia ser direcionado à família, à igreja e aos negócios, é peleja demais para proveito nenhum: seu voto “consciente” continua sendo numericamente insignificante. Assim, como a maioria sempre será de ingênuos desinformados e gente em busca de ganhar mais do governo, ela votará naqueles que oferecerem mais gratuidades ilusivas. Esta consequência já resulta, em seguida, numa outra grande vantagem da democracia: seu avanço para um socialismo cada vez mais completo.

Em condições normais, expressar meu anseio pelo controle e posse das propriedades dos outros iria me render olhares oblíquos e forte censura. Mas na democracia é o oposto. Eu posso declarar ferozmente em público meus desejos mais ignóbeis de controle sobre a vida e a propriedade alheias que recebo mesmo aplausos! E não somente posso como devo fazê-lo, pois que estarei representando uma horda inteira de emoções contidas nas massas, liderada pela Inveja Humana e pelo desejo de poder. O homem que se envergonharia caso sequer pensasse em roubar seu vizinho para pagar a escola de seu filho agora não recua um passo ao ouvir essa ideia, com outras palavras, saída da minha boca! A democracia fomenta o exercício da inveja, apresentando-o, porém, sob roupagem atraente. A maioria, então, esmaga a minoria, na ânsia de usurpar sua propriedade, ainda que no fim das contas todos se prejudiquem. Desse modo as pessoas votam naqueles que prometem mais socializações, delegando mais atribuições ao estado, agigantando-o e, assim, agigantando-me a mim também!

Instrumentos velhacos como o referendo, o plebiscito e o voto compõem o ardil em que consiste a democracia – esta invenção sublime! Incutam no gado a firme ilusão de liberdade e de participação no poder. Eu não havia reparado, até agora, o quão ridículo é quando a população amotina-se nas ruas para proferir em uníssono os mantras da sua fé demente: “Mais educação, saúde e segurança!”, “Chega de corrupção!” etc. É burlesco porque a população acredita sinceramente que está praticando algo inconveniente para o Estado. Os governantes, na verdade, regozijam-se, sabendo que granjearam então ótimo ensejo para roubar mais e aumentar seu poder.

Ora, roubar? Mas eu não havia dito que sou covarde demais para isso? Na realidade, trabalhar no Estado é, de qualquer maneira, viver do roubo, da espoliação violenta. Trata-se, contudo, de uma espoliação sofisticadíssima, muito diversa da praticada por assaltantes fortuitos. Estes roubam um sujeito provavelmente uma vez só, tomam-lhe o que ele leva consigo naquele momento e depois vão embora. O roubo perpetrado pelo Estado, por sua vez, do qual tenciono participar, é sistemático, institucionalizado e perene. Decerto um expediente muito superior. Eu não preciso nem exercer a força diretamente contra minhas vítimas; para isso me vale a polícia, instituição descerebrada, pronta para seguir as ordens mais ignominiosas sem questionar: submissão absoluta às legislações – estes meros conjuntos de ameaças revestidas sob a nobre linguagem jurídica, mas que possuem ampla aceitação pública. Eis, a propósito, o principal elemento para o sucesso da dominação estatal: o roubo não persistiria sem que esse arranjo coercivo não encontrasse suporte na opinião pública. Então é bastante fácil: em geral os súditos pagam os impostos, e os que não pagam recebem ameaças de agressão até que paguem ou, se resistirem, sejam assassinados pela polícia do governo – exceto os poucos que conseguem se esquivar do roubo e conservar seu dinheiro consigo, algo realmente irritante.

A opinião pública já está conquistada, isso não me dará trabalho. Com irreprimível diligência os Estados ao longo da história recrutaram uma massa de intelectuais, como o querido Thomas Hobbes, a qual em seus livros incrustaram ardilezas extraordinárias para persuadir o público de que o Estado é necessário e inerente à sociedade. O legado de ideias fraudulentas propagadas por esses intelectuais preserva-se até hoje, a esconder a inutilidade e perniciosidade completa do Estado atrás de teorias sem pé nem cabeça, como a do contrato social, mas que felizmente convencem trouxas, de que a maioria é formada.

Minha decisão, portanto, é bastante certa. Nenhuma reflexão a mais é necessária. É isso, comporei a massa parasítica, onde me sentirei acolhido entre semelhantes a mim. A poucos palmos do meu nariz já diviso a vitória.

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Foto de perfil de João Marcos Theodoro
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João Marcos Theodoro é acadêmico de Direito da FAESA.

Comentários para As fabulosas vantagens da Democracia: Reflexões de um político iniciante

  • Que texto sensacional. Pensei nesse retorno financeiro dos “libertários” gradualistas, que obviamente só estão se aproveitando da oportunidade do crescimento recente do liberalismo no Brasil

    Cadu 16 de setembro de 2016 04:33 Responder

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